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terça-feira, 14 de abril de 2015

Transgénicos, glifosato e cancro ( câncer )

Transgénicos, glifosato e cancro ( câncer )
por Sílvia Ribeiro


"Embora o glifosato existisse antes que os transgênicos, estes aumentaram brutalmente o seu uso e riscos. Agora que causaram dezenas de plantas resistentes ao glifosato, as transnacionais pressionam para liberar transgênicos com tóxicos ainda piores. Urge terminar com o mito da agricultura química, transgênica e industrial: alimentam uma minoria, poluem tudo e todos, ganham só um punhado de transnacionais. É um experimento em massa a nível global e os seus efeitos ficam a cada vez mais expostos."

A Organização Mundial da Saúde (OMS) confirmou que o glifosato, o agrotóxico mais difundido no mundo, que se usa em 85% dos cultivos transgênicos, é causa provável de cancro (câncer).

Comunidades e famílias afetadas na Argentina, Paraguai e outros países vinham denunciando esta relação há anos, por sofrê-la diretamente. Agora as Nações Unidas confirmou-o.

É outro legado tóxico de Monsanto para a humanidade: a empresa desenvolveu e patenteou este herbicida de amplo espectro em 1974 e, embora a patente tenha expirado em 2000, continua a ser um importante segmento das suas vendas e está associado à maioria de seus transgênicos. Por isso, Monsanto pressiona agora para a OMS mudar esse parecer, alegando, como fez por décadas, que o glifosato não produz cancro.

Mas o grupo de especialistas da Agência Internacional para a Investigação sobre o Cancro da OMS (IARC por sua sigla em inglês), que realizou a avaliação, mantém as suas conclusões, explicando que seus documentos de base são muitos, sólidos e sobretudo independentes, diferentemente dos apresentados pela empresa.

Um grupo de 17 especialistas de 11 países trabalhou na avaliação do potencial carcinogênico de 5 pesticidas organofosforados: tetraclorvinfos, paratião, malatión, diazinón, e glifosato. Em 20 de março publicaram os resultados na revista científica The Lancet. Todos os pesticidas avaliados mostraram relação com problemas graves à saúde, mas o caso do glifosato desatou um alarme global porque é o agrotóxico com maior volume de produção e uso no mundo, e porque instituições de saúde e empresas asseguram que é de baixa perigosidade.

Em contraste, o grupo de experts opinou que existem provas suficientes de que o glifosato pode causar câncer em animais de laboratório e há provas limitadas de carcinogenicidade em humanos (linfoma não Hodgkin). Para isto último, se basearam em estudos de exposição a glifosato de agricultores nos Estados Unidos, Canadá e Suécia. Se fizessem estes mesmos estudos no Cone Sul da América Latina, na Argentina, Brasil, Bolívia, Paraguai, Uruguai, a área que a transnacional Syngenta chamou cinicamente a República Unida da Soja, onde se planta o maior volume de soja transgênica resistente a glifosato do planeta, os resultados seriam ainda mais graves, já que a fumigacão aérea e a falta de controle está bem mais estendida.

O grupo de OMS encontrou, além disso, suficientes evidências de danos ao DNA e danos cromosómicos em células humanas in vitro, ou seja, em testes de laboratório. São sintomas relacionados com o desenvolvimento de cancro.

Assinalam que o glifosato é usado em agricultura, silvicultura, áreas urbanas e lares. Agregam que seu uso aumentou exponencialmente com a semeiadura de culturas modificadas geneticamente para serem resistentes a este herbicida e que se encontraram resíduos de glifosato em ar, água e alimentos.

Em 2013, um estudo de Amigos da Terra encontrou resíduos de glifosato na urina de 45% dos cidadãos pesquisados em 18 cidades europeias, e outro na Alemanha, níveis de 5 a 20% altos em urina que os níveis permitidos em água potável. O movimento Moms Across America dos EUA encontrou em 2014 presença de glifosato em leite materno, em percentagens até mil 600% superiores ao permitido pela diretiva europeia.

No Brasil, principal usuário de agrotóxicos do mundo, estudos do pesquisador Wanderlei Pignati, mostraram desde 2011, grave presença de glifosato em leite materno no estado de Mato Grosso, bem como altas percentagens de resíduos de glifosato e outros agrotóxicos na água que bebem em escolas e em 88% das amostras de sangue e urina tomadas a Professores do município Lucas de Rio Verde desse estado. Há resultados no mesmo sentido na Argentina. Ali, os movimentos de mães e médicos de povos fumigados de Córdoba, Santa Fé e outras províncias afetadas pela semeiadura de transgênicos, denunciam há anos o que consideram um genocídio silencioso. Nesses locais, os casos de cancros e malformações congénitas ultrapassam muito a média nacional. No Chaco, até 400%.

Darío Aranda, jornalista argentino que documentou estas lutas, lembrou-nos agora o trabalho de Andrés Carrasco, que em 2009, sendo chefe do Laboratório de Embriología Molecular da Faculdade de Medicina da Universidade de Buenos Aires e pesquisador principal do Conicet, demonstrou com testes em anfíbios, que o glifosato tem efeitos teratogénicos, quer dizer, produz malformações em fetos e neonatos. Teve por isso que enfrentar uma dura campanha de desprestigio a mãos dos setores pró-transgénicos oficiais e empresariais. Os transgênicos e os agrotóxicos na Argentina são um experimento em massa a céu aberto, costumava advertir. Carrasco, falecido em 2014, afirmava que a maior prova dos efeitos dos agrotóxicos não tinha que se procurar nos laboratórios, mas nas comunidades fumigadas. Ele mostrou em laboratório somente o que as pessoas já sabiam, pela doença e morte de seus familiares. (D. Aranda, 22/3/15, lavaca.org)

Embora o glifosato existisse antes que os transgênicos, estes aumentaram brutalmente o seu uso e riscos. Agora que causaram dezenas de plantas resistentes ao glifosato, as transnacionais pressionam para liberar transgênicos com tóxicos ainda piores. Urge terminar com o mito da agricultura química, transgênica e industrial: alimentam uma minoria, poluem tudo e todos, ganham só um punhado de transnacionais. É um experimento em massa a nível global e os seus efeitos ficam a cada vez mais expostos.


Sílvia Ribeiro
Sílvia Ribeiro
é Pesquisadora do Grupo ETC, Action Group on Erosion, Technology and Concentration – organização da sociedade civil com sede no Canadá, desenvolve um trabalho internacionalmente reconhecido de pesquisa e disseminação de informações em temas relacionados às novas tecnologias: pesquisa, desenvolvimento e potenciais impactos sobre a organização do sistema agroalimentar.


Tradução e fonte  do Diário Liberdade.


Fonte: La Jornada.


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