Pesquisa Mafarrico

Translate

terça-feira, 21 de abril de 2015

A ameaça nuclear 65 anos depois

Actualidade do «Apelo de Estocolmo»
A ameaça nuclear 65 anos depois
por Frederico Carvalho

"As consequências de uma conflagração nuclear generalizada seriam de extrema gravidade para a sobrevivência da espécie humana no nosso planeta. Enquanto existirem armas atómicas a ameaça subsistirá"
Olhando para trás, para um tempo histórico recente, pode dizer-se que o despertar de uma consciência colectiva da responsabilidade social associada ao conhecimento científico radicou em larga medida na perspectiva da utilização militar do «fogo atómico» – chamemos-lhe assim – que se tornou real num curto espaço de tempo, com o homicídio em massa da população civil de Hiroshima e Nagasaki, dificilmente justificável no plano militar mas de grande interesse para os seus mentores, como ensaio real, «no terreno», da operacionalidade, capacidade destrutiva e efeitos colaterais dos explosivos nucleares.


Abundantes testemunhos históricos apontam no sentido de que, ainda não se tinham calado as armas da Segunda Guerra Mundial, e já as forças que dominavam as chamadas «potências ocidentais», em que o grande capital surgia em primeiro plano, preparavam o combate ideológico e o ataque militar contra o Exército Vermelho, a União Soviética e os seus aliados. Num tal quadro, à URSS não restava outra opção que não fosse a de procurar os meios que lhe permitissem garantir a sua própria sobrevivência em face da ameaça nuclear que o comportamento, político e militar, dos inimigos do campo socialista tornavam real. 

Apesar das enormes perdas humanas e materiais suportadas pela União Soviética, foi-lhe possível, num espaço de tempo surpreendentemente curto, dotar-se de meios nucleares militares suficientemente poderosos para conjurar a ameaça de um ataque iminente. O equilíbrio militar e estratégico que nos anos imediatamente posteriores à derrota do nazi-fascismo foi possível atingir, entre as forças, agora antagonistas, dos antigos «aliados», conduziu ao longo período da «guerra fria». Durante esse longo período, as armas nucleares e os meios de as transportar por terra, mar e ar, experimentaram um extraordinário desenvolvimento, qualitativo e quantitativo. Terá sido esse mesmo equilíbrio militar e estratégico que impediu uma catástrofe global que levaria com grande probabilidade ao fim da vida no planeta.

Equilíbrio precário, constantemente ameaçado por uma corrida aos armamentos em que foram investidos e despendidos recursos humanos, materiais e financeiros, sem comum medida com aqueles que foram destinados ao progresso económico e social dos povos. Esta a triste realidade.

Na segunda metade do século passado, as potências nucleares dominantes tinham consciência de que a dimensão dos arsenais disponíveis para resposta imediata era excessiva, o que tornou possível estabelecer acordos para a sua redução, em número, sem todavia descontinuar os trabalhos de renovação e aperfeiçoamento dos armamentos nucleares e seus vectores.

Foi assim que se chegou aos acordos que proibiam ensaios nucleares, limitavam os arsenais de armas nucleares estratégicas, e não permitiam a instalação de dispositivos de defesa contra mísseis balísticos de longo alcance, armados com cabeças nucleares.

As consequências de uma conflagração nuclear generalizada seriam de extrema gravidade para a sobrevivência da espécie humana no nosso planeta. O rebentamento de apenas um por cento dos explosivos operacionais hoje existentes nos arsenais das potências nucleares seria suficiente para tal. Enquanto existirem armas atómicas a ameaça subsistirá. 

Um perigo real 

Uma explosão nuclear provoca a destruição maciça quer de seres vivos quer de estruturas inertes. A conjugação de diferentes efeitos pode conduzir a morte imediata mas também a sequelas desfasadas no tempo, que afectam a saúde, quer em resultado da exposição directa às radiações quer pelos efeitos da contaminação do meio ambiente resultante da disseminação de poeiras radioactivas.

A deflagração, pode gerar temperaturas de vários milhares de graus centígrados na zona do impacto bem como ventos com velocidades que podem exceder 1000 quilómetros por hora. Estes efeitos levam à formação de tempestades de fogo de enorme poder destrutivo.

Uma conflagração nuclear, mesmo de carácter regional, terá efeitos duráveis sobre o ambiente, conduzindo a alterações globais catastróficas no plano da meteorologia que poderão persistir por vários anos. As alterações meteorológicas associadas ao chamado «inverno nuclear» – diminuição prolongada e importante das temperaturas médias no meio ambiente devido à ocultação da luz solar pelas cinzas projectadas para a alta atmosfera – reduziriam a duração ou eliminariam os períodos férteis de crescimento das plantas durante anos, levando a maior parte dos seres humanos e outras espécies animais a sucumbir à fome.

Há razões para recear que as condições sejam hoje mais favoráveis à eclosão de uma guerra nuclear do que no passado recente. Daí a importância e actualidade do Apelo de Estocolmo e a necessidade de lembrar a razão por que surgiu, há 65 anos, recolhendo o apoio de centenas de milhões de mulheres e homens em todo o Mundo.

Importa trazer à luz do dia informação factual sobre os acontecimentos que vivemos, sobre a sua natureza e motivações, dando conta também dos múltiplos sinais de resistência que se manifestam, por vezes subterrâneos, sistematicamente ocultados e frequentemente deturpados, pela corrente dominante dos meios de comunicação social – os mainstream media – «democraticamente» controlados pelos poderes instalados, na posse e ao serviço do grande capital e dos monopólios de que são eficaz porta-voz.

Com a queda do «muro de Berlim», há um quarto de século, e a dissolução da União Soviética, sucessivas administrações norte-americanas – desde Bill Clinton a Barack Obama – entenderam estarem reunidas condições para pôr em causa o equilíbrio de forças que se verificava. Com o correr do tempo foram sendo dados passos tendentes a criar e progressivamente consolidar um «mundo unipolar». Tal corresponderia à emergência de um poder económico e financeiro global com um comando central. Teríamos um poder imperial e províncias de «estados vassalos». Os representantes da direita conservadora mais retrógrada – os chamados neocons – têm hoje uma posição de grande influência nas políticas nacionais das principais potências imperialistas do chamado «Ocidente», com especial relevo na administração norte-americana. Há – sempre houve – nos EUA, movimentos de cidadãos que se manifestam a favor da Paz e pela abolição geral e completa dos armamentos nucleares. Nesses grupos contam-se e sempre se contaram, académicos e intelectuais de primeiro plano. A situação de que hoje damos conta é de que as posições defendidas pelos opositores da linha geral definida nos círculos dominantes «(…) não têm apoio político efectivo na administração, nem no Congresso, nem nos partidos políticos, nos «think tanks» ou nos campi universitários. Esta é uma situação sem precedente na política americana. Não há um tratamento ou reflexão séria sobre a situação, não há debate e isto traduz a falência da democracia americana.»1

A imposição de soluções militares é privilegiada pelos neocons para alcançar os objectivos que se propõem atingir. Observadores bem colocados denunciam a existência de uma «porta rotativa» que permite a destacados neocons transitar para lugares altamente remunerados do complexo militar-industrial, o que, naturalmente, explica a inclinação dos neoconservadores para favorecer a abertura de novos focos de conflito militar. O sucesso das «indústrias de defesa» depende da existência de um mercado consumidor dos seus produtos.

«Se a Síria cair, restará apenas o Irão, e então Washington encontrar-se-á em confronto directo com a Rússia e a China. (…) Se na Rússia e na China não puderem ter sucesso «revoluções coloridas», é improvável que essas duas potências nucleares se submetam ao poder hegemónico de Washington. O mundo tal como o conhecemos poderá aproximar-se do fim.»2 

O futuro está nas nossas mãos 

Ao contrário do que aconteceu em anteriores aventuras militares, sempre trágicas e mal terminadas, o «inimigo», real ou suposto, não possuía armamentos nucleares nem os meios para os dirigir até alvos predeterminados. A situação muda radicalmente quando os adversários em presença, novamente, reais ou supostos, possuem a arma atómica. É esse o caso da China e da Rússia. Esta última dispõe de um poderio nuclear ofensivo equivalente ao dos EUA, que, entretanto, denunciaram unilateralmente o tratado ABM assinado em 1972 pela União Soviética e pelos EUA, que proibia o ensaio e a instalação no terreno de sistemas nacionais de defesa contra mísseis balísticos de longo alcance.3 A expansão da OTAN para Leste iniciada em 1999 traduziu-se na adesão à aliança de novos membros após a dissolução da União Soviética. A OTAN nasce em 1949 com doze estados fundadores. Seis anos mais tarde é criado o chamado «Pacto de Varsóvia» que é extinto em 1991. A expansão da OTAN teve lugar em seis fases entre 1952 e 2009. Hoje agrupa 28 estados membros, dos quais os três estados bálticos e a Polónia têm fronteiras comuns com territórios da Federação Russa. Nesses têm estado a decorrer importantes exercícios militares com activa e preponderante participação das Forças Armadas norte-americanas.

Também as Forças Armadas da Federação Russa têm desenvolvido actividades militares significativas fora do território da Rússia. Entretanto, essas movimentações de meios militares russos têm tido lugar exclusivamente em águas e espaço aéreo internacionais.

As autoridades russas têm repetidamente dado a entender, de forma mais ou menos explícita, que as manobras militares da OTAN; a implantação de novas bases e o reforço dos meios afectos a bases já existentes na Europa, Ásia e África, reflectem uma intenção hegemónica global dos EUA, e dispõem-se geograficamente de modo a criar à volta da Rússia e da República Popular da China uma cintura de contenção que permitiria em momento oportuno desencadear acções militares ofensivas contra aquelas potências.

Dmitry Medvedev, na altura presidente da Federação Russa, acusou o Ocidente de ter renegado afirmações feitas a seguir à dissolução da União Soviética, segundo as quais a «expansão da OTAN para a o Leste da Europa violava os compromissos a que se chegara no decurso das negociações sobre a unificação da Alemanha»4. «Documentos recentemente descobertos em arquivos ocidentais dão razão à posição russa». Entretanto, sabe-se que no intenso processo negocial que antecedeu a reunificação da Alemanha as promessas ficaram-se por palavras: nada foi passado a escrito. Os responsáveis que intervieram do lado da ex-URSS terão mostrado nessa ocasião excessiva «candura».

A crescente agressividade nas palavras de altos membros da administração norte-americana e uma campanha de diabolização da direcção russa, sem precedentes mesmo nos tempos mais sombrios da «guerra fria», é legítima fonte de preocupação. O destino dos povos, a salvaguarda da Paz e a oposição a uma nova guerra mundial em que as armas nucleares poderão ser utilizadas, até por simples erro de cálculo ou falsa manobra, chamam todas as mulheres e homens, em qualquer parte do mundo, a mobilizar-se para uma luta que, sendo pacífica, é necessária e indispensável, e será decisiva para o nosso futuro colectivo. Futuro que está nas mãos de todos e de cada um de nós.


__________

1 Professor Steve Cohen, «War between NATO and Russia a Real Possibility», Round Table on "Defining a new security architecture for Europe that brings Russia in from the cold", Brussels, March 2, 2015.( http://russia-insider.com/en/2015/03/20/4761

2 Paul Craig Roberts, «The 11th Anniversary of 9/11», Journal of 9/11 Studies, September 11, 2012 (http://www.paulcraigroberts.org/2012/09/11/the-11th-anniversary-911-paul-craig-roberts/


4 Uwe Klußmann, Matthias Schepp and Klaus Wiegrefe, «NATO's Eastward Expansion: Did the West Break Its Promise to Moscow?», Spiegel.Online International, November 2009 (http://www.spiegel.de/international/world/nato-s-eastward-expansion-did-the-west-break-its-promise-to-moscow-a-663315.html )



Fonte: Avante


Nenhum comentário:

Postar um comentário