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quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Síria: uma clássica e perversa operação com pinças

Síria: uma clássica e perversa operação com pinças 
por Miguel Ángel Ferrer

"A estas breves reflexões de lógica elementar não pode ser alheio o presidente Al Assad. Certamente, ele compreende que enfrenta uma perversa operação com pinças: de um lado, os Estados Unidos e, do outro, o Estado Islâmico. E são muitas as evidências de que o punho que aperta essas pinças se encontra em Washington. Ou não é verdade que o Estado Islâmico é uma criação do imperialismo ianque, como o foi e ainda é a Al-Qaeda? "

Os bombardeamentos aéreos e o lançamento de mísseis Tomahawk em território sírio, nas últimas horas, são o mais recente elo de uma cadeia de agressões militares, diplomáticas e políticas contra este país milenar, por parte dos Estados Unidos, visando o derrube do presidente Bashar Al Assad e a destruição do seu regime, ou seja, do seu governo e instituições. 

Certamente, os bombardeamentos não foram dirigidos contra Damasco, capital da Síria, nem contra instalações militares ou do governo. Foram dirigidos contra as forças do chamado Estado Islâmico, uma organização insurreta em oposição a Al Assad. Mas, está claro, tal fato não deve distrair-nos sobre o objectivo central dos Estados Unidos nesse país, que é a eliminação física absoluta do governo sírio, tal como Washington procurou e conseguiu no Afeganistão, Iraque e Líbia. 

E a Casa Branca, há muito tempo, anda também à procura do mesmo no Irão e na Palestina. Tal como pretende a mesma coisa no que respeita à resistência libanesa contra a ocupação israelita da Palestina, consubstanciada na milícia Hezbollah. 

À primeira vista e sem muita reflexão, pode parecer que os ataques norte-americanos contra o Estado Islâmico favorecem o governo sírio de Al Assad. Mas esta é uma tese que esquece ou ignora o objetivo de longo prazo de Washington, que é a destruição do regime sírio e a sua substituição por um governo que vá de encontro aos anseios de conquista e domínio desse país pelos Estados Unidos e, mais do que isso, dessa região do planeta. 

Pode ser que, momentaneamente, Al Assad se veja aliviado da pressão e assédio bélico do Estado Islâmico. Mas é evidente que, mesmo no caso da improvável derrota dos insurretos, o objetivo central dos Estados Unidos, que é o derrube e a morte de Al Assad, não terá mudado assim de repente. E tampouco mudará se, como pode esperar-se, a situação se tornar um pântano e não for possível a Washington destruir o grupo rebelde. 

Em ambas as circunstâncias o presidente sírio permanecerá sob a constante agressão norte-americana, acrescentada com a insurreição jihadista, impedindo-o de governar plenamente e sujeitando-o a um contínuo processo de desestabilização. 

Assim, uma interpretação menos ilusória dos bombardeamentos ianques contra o Estado Islâmico leva à conclusão de que não há razões para acreditar que tais ações signifiquem um benefício para Al Assad e o seu regime. 

Esta forma de olhar para as coisas pode ir mais longe: na verdade, os Estados Unidos são o único beneficiário dos ataques aéreos contra o Estado Islâmico, pelo menos, pelas seguintes duas razões. 

Em primeiro lugar, violando a legalidade internacional, conseguiu iniciar a sua ansiada presença e atuação militar em território sírio. E se já conseguiu entrar, porque haveria de sair? 

É verdade que os bombardeamentos aéreos, apenas, não implicam a ocupação de terreno. Mas (e está aqui uma segunda razão) é igualmente verdade que a preparam e antecipam. Digamos que esses ataques aéreos são a primeira fase de uma intervenção militar mais ampla, que, como ensina a experiência, inclui necessariamente a posterior implantação de tropas terrestres nessa parte do território sírio. E tudo isso, se as condições o permitirem ou possibilitarem. 

A estas breves reflexões de lógica elementar não pode ser alheio o presidente Al Assad. Certamente, ele compreende que enfrenta uma perversa operação com pinças: de um lado, os Estados Unidos e, do outro, o Estado Islâmico. E são muitas as evidências de que o punho que aperta essas pinças se encontra em Washington. Ou não é verdade que o Estado Islâmico é uma criação do imperialismo ianque, como o foi e ainda é a Al-Qaeda? 




Rebelião publicou este artigo com a permissão do autor, através de uma licencia Creative Commons, respeitando sua liberdade para o publicar noutros lugares.




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