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segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Os Sindicatos e a Ditadura do Proletariado

Os Sindicatos e a Ditadura do Proletariado1
por Georgi Mikhailovich Dimitrov*

"A maior parte destes sindicatos estava tão profundamente enredada no mar do oportunismo, tão afastada da concepção da sua missão histórica de classe, que permaneceu surda a tudo isso, não vendo mais do que os magros proveitos que teria podido obter pela vitória da política de conquista das classes burguesas nos seus próprios países, ainda que isso não tenha sido apenas obtido pelo preço da exterminação em massa das classes operárias e pela exploração e opressão do proletariado de outros países e sobretudo das colónias."

Os sindicatos operários viram a luz do dia e desenvolveram-se durante os anos do desenvolvimento do capitalismo, como organizações para a defesa dos interesses operários, na própria produção e no quadro do sistema capitalista. 

De início, englobando apenas os operários qualificados, os sindicatos exerceram, no decurso do seu desenvolvimento, uma tão forte influência sobre as massas operárias, nos países capitalistas avançados, que se tornaram nos seus respectivos países um factor poderoso da produção capitalista. 

Renegados e perseguidos com animosidade desde o seu aparecimento, foram reconhecidos em seguida pela própria burguesia e pelos seus ideólogos como organizações indispensáveis para o bom desenvolvimento da produção, para a manutenção da paz e da estabilidade indispensáveis a esta produção e para as relações trabalho-capital, num sistema capitalista mantido e consolidado. 

Por intermédio da influente burocracia sindical 2, limitada e muitas vezes venal, assim como por concessões e vantagens insignificantes, feitas aos operários, os capitalistas conseguiram colocar, sob a direcção imediata da sua política de exploração, os grandes e poderosos sindicatos operários, assinando com eles contratos colectivos a longo prazo; também lhes ofereceram garantias para longos anos de trabalho normal nas empresas, se se desviassem das frequentes e espontâneas greves, tão prejudiciais para eles, capitalistas.

Os factos tomaram tal dimensão que, muito tempo depois da guerra imperialista, a maior parte dos sindicatos operários, sobretudo em Inglaterra e na Alemanha, tinham perdido completamente o aspecto e o conteúdo de organizações proletárias de classe e tinham-se transformado num instrumento para a manutenção da quietude dos capitalistas na produção, assim como para garantir as fontes dos seus recursos fabulosos.

Durante a guerra, como resultado lógico deste estado de coisas, os países capitalistas mais desenvolvidos – tanto os que se encontram sob a influência dos social reformadores burgueses (Alemanha e Áustria) como as organizações profissionais anarco-sindicalistas (França) – puseram-se completamente ao lado dos seus mestres imperialistas, trouxeram o seu mais activo auxílio à sua política imperialista de conquista, ofereceram ao mundo o espetáculo infame da exterminação recíproca, durante quatro anos, destas mesmas massas proletárias, cujos representantes proclamam insistentemente, nos congressos e conferências internacionais, «a solidariedade internacional do proletariado do globo terrestre».

É em vão que Marx, desde 1848, redigindo o Manifesto Comunista e, em seguida, no momento da fundação da I Internacional, em 1864, mostrava o caminho revolucionário aos sindicatos operários, sublinhava o seu trabalho como escolas de socialismo e comparava o seu papel para o proletariado ao papel das comunas urbanas do passado para a burguesia revolucionária.

É igualmente em vão que, antes e durante a guerra, os socialistas, permanecendo fiéis ao socialismo revolucionário de Marx, deram sem cessar o alerta contra a degenerescência e o emburguesamento dos sindicatos operários, etc. A maior parte destes sindicatos estava tão profundamente enredada no mar do oportunismo, tão afastada da concepção da sua missão histórica de classe, que permaneceu surda a tudo isso, não vendo mais do que os magros proveitos que teria podido obter pela vitória da política de conquista das classes burguesas nos seus próprios países, ainda que isso não tenha sido apenas obtido pelo preço da exterminação em massa das classes operárias e pela exploração e opressão do proletariado de outros países e sobretudo das colônias.

Mas a guerra imperialista provocou profundas mudanças na situação. Levou à catástrofe completa da produção capitalista. A circulação fiduciária desorganizou-se.

O custo de vida atingiu uma subida fantástica. O valor real dos salários operários voltou a proporções irrisórias. As conquistas sociais e as reformas, conseguidas ao preço de esforços e lutas de muitos anos, foram absorvidas para sempre. As tentativas de voltar, pelo menos, à situação anterior à guerra, mostraram-se ilusórias. A fraqueza e a impotência dos antigos sindicatos — esses grandes factores da produção no passado — fez-se sentir num grau ainda mais elevado.

Por outro lado, a revolução vitoriosa dos operários e dos camponeses russos inaugurou a época da revolução proletária mundial. Um dilema fatal se põe ao proletariado de todos os países — ou perecer conjuntamente com o capitalismo agonizante, ou, pela revolução e pela ditadura do proletariado, organizar a vida sobre princípios comunistas, criar a nova produção sem capitalistas, sem lucro capitalista e sem exploração do trabalho de outrem.

A antiga doutrina e prática sindical, segundo a qual era necessário garantir a boa existência dos operários no quadro do regime capitalista, trazendo-lhe reformas, FALHOU COMPLETAMENTE. O seu tempo já passou. A vida impôs novos caminhos, ou seja, caminhos já traçados por Marx e tão obstinadamente sustentados, há muito tempo, sobretudo pelos bolchevistas russos e pelos socialistas de esquerda búlgaros.

E vãos são hoje os esforços dos defensores do capitalismo e dos seus agentes social patriotas para manter os sindicatos operários no seu estado de mendicidade, no seu antigo papel, e de os desviar do caminho da revolução proletária, por intermédio da Federação Sindical Internacional de Amesterdão e do chamado Bureau Internacional do Trabalho, junto da Sociedade das Nações.

A Federação de Amesterdão, à semelhança da própria Sociedade das Nações imperialista, desagrega-se pelas contradições internas insuperáveis, dividindo os imperialistas dos diferentes países, e constitui em si uma repetição moderna da lenda da Torre da Babel e da confusão das línguas.

As massas operárias organizadas nos sindicatos ligam-se cada vez mais ao caminho mostrado pelo proletariado russo vitorioso na luta pela liquidação do capitalismo, pela instauração da ditadura do proletariado. Juntam-se rapidamente na Internacional Comunista e no Conselho Internacional dos Sindicatos Operários de Moscovo e mobilizam as suas forças para o assalto decisivo contra o capitalismo.

Sem renunciar à possível defesa dos operários contra a exploração capitalista desenfreada, os sindicatos operários ligados a Moscovo, ou em vias de ligação, trazem o peso dos seus esforços e da sua actividade no domínio da luta de classe revolucionária e nos preparativos desenvolvidos para a conclusão do seu importante papel histórico, a desempenhar nas revoluções proletárias dos seus próprios países.

Facilmente se compreende que, sob este aspecto, em consequência da natureza do trabalho que as suas massas efectuam, é às organizações dos transportes que incumbe um trabalho tão pesado como importante.

Não é em vão que, ultimamente, um comunista americano disse:
«No momento em que os sindicatos dos Transportes e dos Mineiros estiverem definitivamente colocados do lado da revolução, a ditadura do proletariado triunfará entre nós, nos Estados Unidos».
Isto, embora em menor grau, é válido também para os países ainda não completamente desenvolvidos sob o ponto de vista industrial, como é o caso do nosso país.

Não temos razões para recear que o proletariado búlgaro dos transportes possa falhar no seu papel crucial para a revolução proletária no nosso país. Pelo contrário. A experiência amarga dos acontecimentos de Janeiro e de Fevereiro de 1920 e os preciosos ensinamentos que daí tirou, são mais uma garantia de que estará nas primeiras filas da luta de classe revolucionária, pela ditadura do proletariado entre nós.

A união do proletariado dos transportes, que se opera nas fileiras da União dos Operários dos Transportes e sob a bandeira do comunismo, mostra mais claramente que, entre outras coisas, está perfeitamente consciente das grandes obrigações e responsabilidades que lhe impõe o momento histórico actual.



* Georgi Mikhailovich Dimitrov (1882-1949): Líder sindical e um dos fundadores do Partido Comunista Búlgaro em 1919. Em 1921 foi eleito para o Comitê Executivo do Comintern. Liderou em 1923 uma fracassada revolta dos trabalhadores brutalmente reprimida pelo governo capitalista. Na ocasião foi condenado à morte mas escapou para a Alemanha. 

Em 1929 foi eleito para chefiar a secção da Europa Central do Comintern. Em 1933 foi acusado pelo regime nazista de ter incendiado o prédio do parlamento alemão o Reichstag. Dimitrov fez uma defesa enérgica e saiu da posição de acusado para a de acusador, dando um exemplo para todos os revolucionários do mundo de como o revolucionário deve fazer sua defesa e comportar-se perante um tribunal fascista e burguês. Foi então considerado inocente. Mudou-se para a União Soviética tendo sido eleito Secretário-geral do Comintern.

Em 1945, com a derrota dos nazistas e a vitória da Revolução na Bulgária, Dimitrov retornou ao país e assumiu o cargo de Primeiro-ministro e em 1946 proclamou a formação da República Popular da Bulgária. - http://www.marxists.org/portugues/dimitrov/index.htm



Notas:


1 Primeira edição: “Transport” n.° 1, de 20 de dezembro de 1920. Assinado: G. Dimitrov. Fonte: “Dimitrov e a Luta Sindical”. Edições Maria da Fonte, Tradução: Ana Salema e Carlos Neves;nBiografia e notas: Manuel Queirós.
Transcrição: João Filipe Freitas
HTML: Fernando A. S. Araújo.

2 Esta é hoje uma das atitudes típicas dos revisionistas modernos. Os partidos revisionistas, como partidos da burguesia que são, não têm linha de massas, linha de condução política dos grandes sectores do proletariado e dos trabalhadores em geral para a conquista dos objectivos estratégicos do proletariado. O que defendem é uma pseudo linha de massas que consiste em pôr os grandes contingentes trabalhadores ao serviço da sua política burguesa. Por isso mesmo, receiam as massas, a iniciativa das massas, o que se traduz, do ponto de vista organizativo, na criação de quadros preparados para as dominarem, para fazerem aceitar uma orientação ao serviço da burguesia. 

Assim, a sua técnica consiste em conquistar as direcções sindicais, para daí dirigirem os trabalhadores contra os seus interesses de classe, na obtenção de reformas burguesas que não ponham em dúvida as maravilhas do capitalismo. Tais «dirigentes» sindicais custam dinheiro, mas isso pouco importa aos revisionistas, pois a mais-valia roubada aos operários dá para as compras de homens que é necessário fazer. Esta atitude de corrupção, de que os revisionistas modernos são responsáveis, tem, por sua vez, conduzido a duas atitudes errôneas. Por um lado, cria a ideia de que o mal revisionista pode ser emendado desde que essas direcções sindicais tenham à frente pessoas honestas. É a técnica revisionista em nova embalagem, o mesmo receio das massas, o caminho directo para novas corrupções. 

Por outro lado, gera a ideia de que a luta sindical não interessa, o que é preciso é politizar todas as lutas, sobretudo fora dos sindicatos, confundindo a autuação política da vanguarda com a autuação das massas. Se a primeira atitude aponta ao revisionismo, se é uma característica do neo revisionismo, marxismo-leninismo nas palavras com idêntica prática revisionista, a segunda aponta ao trotskismo (substituição da vanguarda proletária pelos sectores estudantis e intelectuais radicalizados) e ao anarquismo (substituição da vanguarda proletária pelo lumpen). (N. P.).






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