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terça-feira, 27 de setembro de 2016

O que é o imperialismo?

O que é o imperialismo?
por Viktor Chapinov
"Assim, é precisamente o carácter monopolista do capitalismo que conduz à fusão do capital bancário com o capital industrial. São precisamente os lucros monopolistas que geram o capital excedentário, que é escoado através da exportação de capitais. São precisamente os monopólios que se unem em associações para a partilha do mundo e submissão dos países menos desenvolvidos. É precisamente o monopólio que constitui o traço marcante da fase descendente do desenvolvimento do modo de produção capitalista e dos fenômenos que Lenine designou de parasitismo e decomposição."
Nos círculos de esquerda ouve-se com frequência a tese sobre o atraso do capitalismo russo, o seu carácter periférico, e por vezes mesmo sobre o estatuto colonial da Rússia. Estas teses levam pessoas de esquerda à conclusão táctica absolutamente definida da necessidade senão de uma «revolução de libertação nacional», então pelo menos de uma aliança patriótica com uma das fracções da burguesia – ou seja da classe governante. 

Podia parecer que a expansão dos monopólios russos ocorrida nos últimos anos deveria colocar uma cruz sobre semelhantes teorias, porém, elas continuam vivas nos meios da esquerda, ganhando novo terreno fértil no período da crise. 

Se tomarmos a teoria marxista, e lermos em particular a obra de Lenine, O Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo, não será difícil compreendermos que se formou na Rússia precisamente esse capitalismo de tipo superior, o que significa que a Rússia está perante a revolução socialista, sem necessidade de qualquer etapa intermédia «democrática» ou de «libertação-nacional». E aqueles que falam de tal etapa, simplesmente ou não querem ou têm medo da revolução socialista, sendo assim defensores indirectos do mundo da propriedade privada e do capital. Como é possível que os patriotas de esquerda não vejam o imperialismo russo? Acontece que eles só vêem factos isolados, não compreendendo a essência do processo em si. É lógico que tal método apenas conduz a conclusões falsas e oportunistas.

«O empirismo limitado»– escreve o proeminente marxista, Georg Lukács – «contesta, com efeito, que os factos só se tornem propriamente factos depois de uma elaboração metodológica – diferente consoante o objectivo do conhecimento. Crê que pode encontrar em cada dado, em cada indicador estatístico, em cada facto em bruto da vida econômica um facto importante para ele. Não vê que a mais simples enumeração de “factos”, que a justaposição mais despida de comentários é já uma “interpretação”, que mesmo a este nível os factos são apreendidos a partir de uma teoria, de um método, que eles são retirados do contexto da vida, no qual se encontravam originalmente, e introduzidos no contexto de uma teoria».2

Por isso, primeiro deve-se prestar mais atenção não aos «factos», que são retirados em abundância do processo econômico vivo pelos teóricos nacionais-patrióticos, mas à teoria, à interconexão teórica dos factos, que deve ser o reflexo real das suas conexões no organismo social da Rússia. 

O que é o imperialismo? 

Platão definiu da seguinte maneira o homem: o homem é um animal de duas pernas, sem penas. Em resposta, Demócrito levou-lhe um galo depenado e disse: Isto é um homem! 

Este é o destino de todas as definições descritivas – elas não captam a essência. O mesmo se passa com o imperialismo – a maioria das pessoas de esquerda entende o imperialismo como uma política externa agressiva, de preferência apoiada num poderoso exército. (A propósito, Kautsky tinha um entendimento semelhante do imperialismo, e apesar de ninguém da esquerda ousar concordar com ele em palavras, na prática muitos estão bastante mais próximos das suas teorias do que do marxismo-leninismo). 

Mas o que é então o imperialismo, na essência e não nas suas manifestações externas, que podem ou não verificar-se num determinado momento? Lenine, na clássica investigação sobre este tema destaca os seguintes traços da fase imperialista do desenvolvimento capitalista:

1. A concentração do capital levada a um grau tão elevado que criou os monopólios, que dominam a vida econômica; 

2. O surgimento do capital financeiro por via da fusão do capital bancário com o capital industrial. O surgimento da oligarquia financeira. 

3. A exportação de capitais, diferentemente da exportação de mercadorias, adquire uma importância particularmente grande. 

4. A formação de associações internacionais monopolistas de capitalistas, que partilham o mundo entre si. 

5. O termo da partilha territorial do mundo entre as potências capitalistas mais importantes. 

«O imperialismo é o capitalismo na fase de desenvolvimento em que ganhou corpo a dominação dos monopólios e do capital financeiro, adquiriu marcada importância a exportação de capitais, começou a partilha do mundo pelos trusts internacionais e terminou a partilha de todo o território da Terra entre os países capitalistas mais importantes.»3

O entendimento da metafísica apresenta o problema como se estes traços do imperialismo tivessem uma importância igual e a ausência de um deles significasse a ausência do próprio imperialismo. (Mais ou menos como na definição de Platão, segundo a qual, aparentemente, um homem com uma só perna já não seria um homem).

No entanto, a ausência patente do quinto traço do imperialismo destacado por Lenine (após a falência do sistema colonial na segunda metade do século XX) não conduziu de longe ao desaparecimento do imperialismo. Pelo contrário, os demais traços tornaram-se ainda mais fortes: a concentração do capital atingiu um tal grau que as corporações transnacionais se tornaram a força dominante da vida econômica do planeta, etc. Na realidade, os traços destacados por Lenine não são de todo «iguais em direitos». Há um traço essencial do imperialismo em relação ao qual todos os restantes são secundários.

A concentração da produção e os monopólios são o traço essencial do imperialismo. 

Todos os restantes são uma decorrência deste, são consequências desta alteração fundamental na estrutura da produção capitalista. Assim, é precisamente o carácter monopolista do capitalismo que conduz à fusão do capital bancário com o capital industrial. São precisamente os lucros monopolistas que geram o capital excedentário, que é escoado através da exportação de capitais. São precisamente os monopólios que se unem em associações para a partilha do mundo e submissão dos países menos desenvolvidos. É precisamente o monopólio que constitui o traço marcante da fase descendente do desenvolvimento do modo de produção capitalista e dos fenômenos que Lenine designou de parasitismo e decomposição.

Não admira que os teóricos do movimento de esquerda, que negam a existência do imperialismo russo, simplesmente ignorem este traço fundamental do imperialismo. 

Este erro teórico, no qual se toma pela essência do imperialismo os seus traços derivados, e mesmo exteriores, manifesta-se também na questão de saber qual o lugar que a Rússia ocupa no sistema mundial do imperialismo. Esse erro consiste em que o teórico que pensa de modo metafísico não pode compreender a contradição na unidade dialéctica concreta:

A Rússia, sendo um país imperialista, está ao mesmo tempo parcialmente subordinada no plano econômico aos países imperialistas mais importantes. 

Para a metafísica ou o imperialismo existe na sua forma pura, como o é o imperialismo norte-americano, ou não existe imperialismo. «Sim, sim, não, não; porque o que disto passa, de mal procede».4 Naturalmente, esta teoria revela-se deficiente na sua base, tal como toda a aplicação do bom senso metafísico neste domínio, onde é necessário o pensamento dialético. 

Claro que a difusão do ponto de vista que supõe, como Lenine escreveu, que o imperialismo constitui «um defeito próprio de um povo determinado»,5 mas de modo algum do nosso próprio povo, encontra determinados fundamentos na pertença de classe dos próprios teóricos da «ausência de imperialismo russo». Enquanto representantes da pequena burguesia, dependem objectivamente e estão ligados por milhares de filamentos à burguesia imperialista da Federação Russa. A grandeza dos preços mundiais do petróleo – principal mercadoria das corporações russas – reflecte-se directamente nos seus bolsos e, quer estejam ou não cientes disto, na pureza da sua consciência de classe. O imperialismo, naturalmente, não é um defeito próprio do povo norte-americano ou do povo alemão – é uma fase do capitalismo, cujo surgimento na Rússia muito dificilmente será «notado» pelo teórico pequeno burguês. Este aspira a fundamentar o seu nacional-patriotismo («…a pequena burguesia, devido à sua posição econômica, é mais patriótica do que a burguesia e do que o proletariado.»6) e a sua união com a burguesia nacional; ora o reconhecimento da Rússia como país imperialista torna impossível essa união, isto claro está se se for marxista.



1 Viktor Chapinov é jornalista e membro do Conselho Coordenador da Organização dos Marxistas (Ucrânia). Texto publicado em 25 de Março de 2009. (N. Ed.) 

2 Georg Lukács, História e Consciência de Classe (1922). Citação traduzida da edição francesa Histoire et conscience de classe. Essai de dialectique marxiste, Éditions de Minuit, Paris, 1960, (disponível em http://classiques.uqac.ca/classiques/Lukacs_gyorgy/histoire_conscience/Histoire_conscience.doc). (N. Ed.) 

3 V.I. Lénine, O Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo(Junho 1916), Obras Escolhidas em seis tomos, Ed. Avante! – Progresso, Lisboa –Moscovo, 1984, t. 2, pp. 367-368. (N. Ed.)

4 «Evangelho segundo S. Mateus», 5:37, Bíblia Ilustrada, tradução de João Ferreira Annes d’Almeida, ed. Círculo dos Leitores e Assírio e Alvim, t. 7, p.12. (N. Ed.) 

5 V.I. Lénine, O Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo, ed. cit, p. 331. (N. Ed.)

6 «As Preciosas Confissões de Pitirim Sorókine» (Novembro de 1918), V.I. Lénine, Obras Escolhidas em três tomos, Ed. Avante! – Progresso, Lisboa – Moscovo, 1981, t. 2, p. 684. (N. Ed.) 




Fonte: Para a História do Socialismo



Mafarrico Vermelho

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