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segunda-feira, 26 de setembro de 2016

"Lenin, Stalin e a paz"

"Lenin, Stalin e a paz"
por Victor Michaut, publicado na Revista Problemas, nº 18, abril/maio de 1949.

"Baseado na exploração do homem pelo homem e na busca ávida de lucro, o capitalismo conduz necessariamente ao emprego da força bruta, às espoliações, às guerras para a conquista de novos territórios, fontes de matérias primas e mercados para a exportação dos capitais e dos produtos fabricados. Na época do imperialismo, quando as principais potências capitalistas já dividiram entre si a dominação do mundo, toda modificação da relação de forças entre elas conduz à luta por uma nova divisão do mundo."

"Enquanto os social-democratas apresentam o capitalismo dos monopólios como uma "organização" da economia que favorece a introdução pacífica e progressiva do socialismo, os comunistas denunciam os trustes e associações capitalistas como os principais sustentáculos da reação e da guerra.

O comportamento dos homens e dos governos enfeudados aos trustes, ontem cúmplices da Alemanha hitlerista, hoje protegidos dos capitalistas americanos, torna claro este ensinamento de Lenin:

A ironia da história reservou um triste papel aos srs. Spaak e Bevin.

Eles ousaram reeditar na O. N. U. a calúnia clássica da reação, que atribui a Lenin e seus discípulos a idéia monstruosa de considerar a guerra e, segundo outros, a miséria também, como meio de acelerar a marcha para o comunismo.

Mas a grosseira falsificação de nossa doutrina, empreendida pelos lacaios social-democratas do imperialismo, só faz confundir a eles próprios e teve o mérito de provocar a brilhante resposta do camarada Vichinsky(1).

Ao mesmo tempo, um forte jato de luz foi lançado sobre os princípios fundamentais que guiam a ação dos comunistas em defesa da paz.

* * *

Em todas as épocas e em todos os países, os homens progressistas se levantaram sempre para condenar a guerra e sugerir meios pacíficos de solucionar os conflitos entre os Estados. Mas isso não eram apenas sonhos generosos e utópicos, em contato sério com a realidade.

A verdadeira doutrina da paz, científica e ativa, só pôde tomar corpo com a vitória do socialismo. com a edificação de uma sociedade capaz de abolir os antagonismos de classes no seu interior e baseando suas relações exteriores sobre a fraternidade entre os povos.

Não foi por acaso que o organizador do primeiro partido marxista de novo tipo, o fundador do Estado Soviético, tornou-se o criador e campeão de uma verdadeira política de paz, proletária e socialista.

A obra genial de Lenin foi continuada por Stalin, que a enriquece constantemente. Enquanto os imperialistas desejam lançar o mundo numa monstruosa destruição atômica e microbiana, um dos maiores méritos de Stalin é justamente o de se manter firme no leme, à frente das inúmeras forças que se reúnem e combatem em defesa da paz.

Da teoria e da prática de Lenin e Stalin, nesta matéria, podem ser destacados três princípios fundamentais:

— A guerra é um fenômeno social inerente, em nossos dias, ao imperialismo, e em cada caso concreto, é necessário revelar suas causas profundas e o seu verdadeiro caráter.

— O socialismo constitui a principal força de paz; a natureza socialista do Estado Soviético inspira toda a política exterior da URSS, colocando-a na vanguarda do campo da paz.

— A guerra não é inevitável, a despeito da vontade agressiva das potências imperialistas, a coexistência pacífica do socialismo e do capitalismo é possível; o estabelecimento de uma paz duradoura depende da capacidade das forças populares de amordaçar os incendiários de guerra e impossibilitá-los de causar danos.

A Guerra, Fenômeno Social

“Explicações" idealistas da guerra existem em profusão. Todas elas levam à aceitação resignada ou mesmo à justificação da guerra, considerada quer como manifestação da vontade divina, providencial, quer como consequência inelutável e necessária da "luta pela vida" transposta do plano biológico para o plano social.

Sabe-se como os Rosenberg e outros ideólogos do fascismo pretendiam encobrir as sangrentas agressões de Hitler e Mussolini com uma verborragia pseudo-científica tomada de empréstimo a diversas matérias. De uma biologia à sua maneira, tiraram o racismo; de sua geografia, a teoria do espaço vital, da economia política, o mito "sangue e ouro". Hoje os dirigentes americanos submetem seus operários à psicanálise para descobrir pseudo-tendências à agressividade, que não existem a não ser entre os reis do dólar e seus cúmplices e nada têm de "sub-consciente".

A redução da história a uma série de conflitos "naturais" entre os homens e entre os Estados é, sem dúvida, bem mais cômoda para os agressores. Essa teoria foi pulverizada por Lenin, que analisou a guerra como fenômeno social inseparável do capitalismo, sobretudo na sua última fase, na fase de decomposição, que é a do imperialismo.

Baseado na exploração do homem pelo homem e na busca ávida de lucro, o capitalismo conduz necessariamente ao emprego da força bruta,às espoliações, às guerras para a conquista de novos territórios, fontes de matérias primas e mercados para a exportação dos capitais e dos produtos fabricados. Na época do imperialismo, quando as principais potências capitalistas já dividiram entre si a dominação do mundo, toda modificação da relação de forças entre elas conduz à luta por uma nova divisão do mundo.

"No capitalismo, um crescimento igual do desenvolvimento econômico dos ramos da economia e dos Estados é impossível. No capitalismo, não há outros meios possíveis para restabelecer, de tempos em tempos, o equilíbrio desfeito, a não ser as crises na indústria, e as guerras, na política".

Esta lei da desigualdade do desenvolvimento do capitalismo — desigualdade que se vai acentuando na época do imperialismo — foi descoberta por Lenin e confirmada pelos fatos. Assim como a primeira crise da economia capitalista mundial conduziu à guerra de 1914 a 1918, a segunda crise nas relações internacionais foi a origem da segunda guerra mundial. 

Diz Stalin, a respeito:

"Não foi um acidente, mas o resultado inevitável da evolução das forças econômicas e políticas mundiais na base do capitalismo monopolista contemporâneo"(2).

Para compreender a análise staliniana das causas profundas da última guerra, é preciso não esquematizar em excesso. A evolução geral das diversas forças existentes em todos os domínios — econômico, político, diplomático, estratégico, militar — e a ruptura brusca do equilíbrio num momento dado, no interior do sistema capitalista, é que é preciso ter em conta.

Enquanto os social-democratas apresentam o capitalismo dos monopólios como uma "organização" da economia que favorece a introdução pacífica e progressiva do socialismo, os comunistas denunciam os trustes e associações capitalistas como os principais sustentáculos da reação e da guerra.

O comportamento dos homens e dos governos enfeudados aos trustes, ontem cúmplices da Alemanha hitlerista, hoje protegidos dos capitalistas americanos, torna claro este ensinamento de Lenin:

"O imperialismo é a época do capitalismo financeiro e dos monopólios que levam a toda parte a tendência à dominação e não a tendência à liberdade. Reação em toda a linha, seja qual for o regime político: exacerbação extrema das contradições nesta esfera também, tal o resultado dessa tendência. Intensifica-se particularmente a opressão nacional e a tendência às anexações, isto é, à violação da independência nacional (pois a anexação não é senão a violação do direito das nacionalidades à auto-determinação)"(3).

Quem quer que lute com eficácia contra a guerra, deve, pois, obrigatoriamente combater o imperialismo, que é o seu gerador.

O Socialismo, Força de Paz

Com a Revolução de Outubro começou a era da ruptura das cadeias do imperialismo. Ao mesmo tempo em que enfraqueceu o sistema capitalista em seu conjunto, a vitória do socialismo na União Soviética colocou, pela primeira vez, a serviço da paz, a potência de um grande Estado. De aspiração generosa, que era antes, do mundo trabalhador, a paz se transformou numa força ativa, dirigida pelo Poder dos Soviets. Tornou-se um movimento com base material sólida, um movimento que não pode deixar de ser levado em conta pelos incendiários de guerra.

É a própria natureza do Estado soviético, Estado de operários e camponeses, interessados em primeiro lugar na defesa da paz, que tem determinado os atos internos e externos da URSS, desde há trinta e um anos.

Nada mais de classes exploradoras, por consequência, não mais a sórdida corrida aos lucros, as sórdidas lutas para se apoderar dos territórios e das matérias primas dos outros países. Sem capitalistas, não há, portanto, nenhuma necessidade de exportar capitais para o exterior, com o fim de tirar da exploração do trabalho de outrem escandalosos lucros. A União Soviética, para viver e prosperar, conta antes de tudo com o trabalho e a energia de seus povos, com a superioridade do regime socialista, mais capaz do que qualquer outro, de assegurar a valorização de todas as riquezas naturais. O que ela não possui, adquire por meio do intercâmbio econômico normal.

Tendo abolido em suas fronteiras a opressão nacional, o racismo e toda forma de dominação de um povo sobre outro, a União Soviética baseia suas relações exteriores na cooperação e na fraternidade entre os povos, no respeito à independência e à soberania de cada país.

O Decreto de Lenin Sobre a Paz

O primeiro ato do poder soviético, após sua instauração, foi o decreto sobre a paz, adotado pelo II Congresso dos Soviets, por proposta de Lenin, na noite de 7 para 8 de novembro de 1917, algumas horas depois da vitória da insurreição proletária.

Denunciando a guerra imperialista como o maior crime contra a humanidade e apelando solenemente aos povos para iniciar de imediato as negociações em prol de uma paz democrática, esse documento histórico assume a mais alta significação. Foi uma manifestação palpável, visível aos olhos de todos, da política pacífica da jovem República Soviética, nascida na luta contra a guerra e apresentando aos olhos do mundo a primeira Declaração de Paz sobre a qual iria basear-se sua política exterior.

Não foi uma simples declaração de princípios "para a propaganda", como queriam fazer crer os miseráveis políticos a serviço do imperialismo, incapazes de imaginar nos outros uma perfeita sinceridade que lhes falta.

A unidade da teoria e da prática, a conformidade absoluta dos atos com as palavras — traço distintivo do método leninista — fizeram da diplomacia soviética uma diplomacia nova, de tipo desconhecido até então, que se apoia sobre a vontade do povo e serve sem desfalecimento à causa da paz.

Nem a intervenção estrangeira, nem o bloqueio, nem a política imperialista do "arame farpado", nenhuma "conspiração contra a Rússia", nenhuma provocação dos incendiários de guerra, nada pôde alterar a política exterior soviética da grande estratégia da paz, que constitui, graças a Lenin e Stalin a sua razão de ser.

A URSS jamais pegou em armas, a não ser para assegurar sua própria defesa, proteger suas fronteiras e salvaguardar as conquistas da Revolução de Outubro; não fez mais do que usar do direito legítimo de combater pela sua existência, sempre que esta foi ameaçada, seja de 1918 a 1920, quando quatorze potências se lançaram contra ela, seja de 1941 a 1945, contra a agressão hitlerista. E em cada uma dessas ocasiões os agressores foram bravamente repelidos e derrotados.

Do esmagamento dos intervencionistas à grande guerra pela sua independência e pela libertação dos povos escravizados pelo hitlerismo, a União Soviética praticou, com firmeza inquebrantável e desinteresse sem igual, uma ação pacífica de grande importância.

A Política Exterior da URSS

Cada um dos atos da política exterior da URSS se coloca no plano geral da luta consequente para a salvaguarda de suas fronteiras, para a colaboração com os outros países, quaisquer que sejam seus regimes internos, para a organização da segurança coletiva, para a denúncia e o isolamento dos incendiários de guerra.

Até a deflagração da segunda guerra mundial, esta política compreende:

- a anulação dos tratados desiguais impostos pela Rússia tzarista aos povos vizinhos, e a conclusão, entre 1919 e 1922, de novos acordos, baseados na igualdade e no respeito à soberania nacional, com o Afeganistão, o Iran, a Turquia, a Mongólia e a China;

- o estabelecimento de relações diplomáticas e comerciais com as potências capitalistas que tiveram de reconhecer, oficialmente, em 1924, a existência da União Soviética (principalmente a Inglaterra, a Itália e depois a França) e admitir assim a possibilidade de cooperação com ela;

- a formulação, pela URSS, de propostas práticas de desarmamento, enunciadas já em princípio nas Conferências Internacionais de Gênova e Haia, em 1922, e retomadas, em termos concretos, imediatamente realizáveis, em Genebra, em 1927 e em 1932;

- a adesão da URSS à Sociedade das Nações, em 1934, a despeito das fraquezas desta última, com o objetivo de estancar o desencadeamento de uma guerra e de isolar os provocadores fascistas que se mostravam cada vez mais agressivos;

- a conclusão de pactos de não agressão e de assistência mútua, com o objetivo de consolidar a segurança dos países ameaçados pelas tendências agressivas da Alemanha fascista (pactos com a França e depois com a Tchecoslováquia, em 1935) ou do Japão militarista (pacto de não agressão com a China, em 1937);

- a proposta de medidas gerais de segurança coletiva, capazes de barrar ainda os agressores no caminho da guerra, a denúncia do perigo da política muniquista de não-intervenção e de encorajamento dos fascistas provocadores de guerra, praticada então pelos dirigentes anglo-franceses com o apoio dos imperialistas americanos, de 1938 a 1939.

Vinte anos de esforços constantes, da União Soviética, para unir todas as forças interessadas na defesa da paz, chocaram-se com as intrigas das potências imperialistas; algumas destas constituíram, em torno aos países do Eixo, um campo fascista da guerra de agressão para uma nova repartição do mundo; as outras "deixavam fazer" e encorajavam, às escondidas, os agressores, atraiçoando os interesses nacionais dos povos, e sabotavam deliberadamente a organização da paz, em lugar de tratar de defender a si próprias com a ajuda decisiva da pátria do socialismo.

Entretanto, a ação perseverante da URSS, embora não pudesse evitar a segunda guerra mundial, causada pela ruptura de equilíbrio no próprio seio do sistema imperialista, permitiu que esta guerra tomasse desde o início, de modo diferente da de 1914 a 1918, o caráter de uma guerra antifascista e libertadora.

A Segunda Guerra Mundial e as Mudanças na Situação Internacional

A política exterior da União Soviética, realizada de acordo com as diretivas fundamentais de Lenin e de Stalin, pesou realmente nos assuntos mundiais e pôs em movimento as novas forças da democracia e da paz que cresciam de modo ininterrupto.

Pode-se colocar especialmente no ativo dessa política:

— O fato de que os agressores fascistas, malgrado o apoio que receberam dos muniquistas, se acharam isolados, e de que uma frente única de todas as potências imperialistas contra a URSS tornou-se impossível, desde o desencadeamento da segunda guerra mundial.

— Uma coalizão anti-hitlerista pôde ser constituída — não obstante o retardamento ocasionado pelas potências anglo-saxônicas na abertura da segunda frente e graças ao papel decisivo jogado nesta guerra pelo Exército Soviético — que chegou a esmagar o fascismo, abrindo assim perspectivas inteiramente novas à marcha progressiva dos povos libertados.

— Em lugar de uma consolidação geral do capitalismo, pretendida pela reação internacional, a segunda guerra mundial, terminando com a derrota do fascismo, levou à abertura de novas brechas no sistema imperialista, do qual se destacaram os países de democracia popular. A influência da União Soviética aumentou, sua autoridade internacional agigantou-se e permitiu a união, em torno do Estado socialista, das forças progressistas do mundo inteiro, em um campo da democracia e da paz, que constitui uma poderosa barreira levantada contra os imperialistas provocadores de guerra.

Esta não é uma política estreitamente nacional, mas uma política leninista-stalinista internacional, intransigente ao mesmo tempo na defesa da independência dos povos e no interesse da paz mundial, e por isso a política exterior do governo soviético se apoia tanto sobre o reforço contínuo da própria URSS, em todos os terrenos, como sobre a consolidação das democracias populares em marcha para o socialismo e sobre a participação cada vez mais ativa dos povos do mundo inteiro na luta por uma paz duradoura.

Tudo aquilo que reforça, no mundo, as posições do socialismo, aumenta as possibilidades de paz; tudo o que favorece a reação imperialista, traz o perigo de precipitar a guerra. E assim se estabelece o elo dialético profundo entre o interesse da URSS, Estado socialista, o interesse do movimento operário de todos os países, como de cada país tomado em separado, e o interesse geral da paz do mundo.

Esses interesses são inseparáveis, não podem jamais se opor: Maurice Thorez tem o mérito de havê-lo demonstrado sempre, em relação à França, e de ressaltar que todo francês esclarecido deve lutar (como patriota, como republicano, como trabalhador) em favor do reforçamento da aliança franco-soviética, elemento decisivo da nossa segurança e garantia de paz.

A Guerra Não é Inevitável

Uma das armas ideológicas mais perigosas, empregadas pelos incendiários de guerra, reside na campanha destinada a fazer crer que a guerra é inevitável, que totalmente deve se produzir um choque militar violento entre o mundo capitalista e o mundo socialista, ou mais precisamente, entre os Estados Unidos e a URSS.

Daí deriva o desenvolvimento sistemático de uma psicose de guerra, a especulação sobre o medo (exibido sem qualquer pudor e erigido em argumento político pelo "socialista" Spaak, na assembléia da O. N. U., com a intenção de justificar e encobrir os preparativos bélicos do imperialismo americano e de seus satélites marshallizados.

O camarada Vichinsky denunciou vigorosamente da tribuna da O. N. U. os provocadores de guerra, propagandistas dessa criminosa concepção, pois é bastante evidente que, desde o momento em que se considera o conflito como irremediável, nada mais resta do que se preparar para ele, azeitar suas armas e lançar-se na organização econômica, política, ideológica, estratégica e militar da guerra.

Assim é que o sr. J. J. Servan Schreiber vem procurando furiosamente convencer os leitores de Le Monde de que, diante do insucesso da "guerra fria", isto é, a paz incomoda para os imperialistas, e das dificuldades sempre maiores que encontra o Plano Marshall em sua execução, melhor seria recorrer à "guerra quente", se é que esta guerra é inevitável. E nos propõe um compromisso mais firme da França na engrenagem da máquina de guerra americana (Le Monde), de 16 de outubro e 22 de dezembro de 1948).

Isto é praticar, com um cinismo sem qualquer reserva, o jogo dos círculos mais reacionários, mais brutais do imperialismo americano. Mas, semelhantes intenções de envolver completamente na grande aventura antissoviética os círculos da alta finança e da grande indústria, tendem a encontrar entre os homens do povo, que são contra a guerra, um efeito diametralmente oposto.

A Social-Democracia a Serviço do Imperialismo

Agora intervém a social-democracia. Blum canta louvores a Marshall, exalta a "generosa iniciativa", dos trustes americanos e tece elogios ao "imperialismo da paz", preconizando a organização de uma "terceira força internacional" destinada a servir de lança e escudo para proteger os agressivos manejos antissoviéticos dos fomentadores americanos de uma terceira guerra mundial.

Já em 1941, no tempo em que o Exército Vermelho se empenhava no combate heróico às hordas hitleristas, conquistando a admiração do mundo, o mesmo Blum da "escala humana" empregava seu servilismo dourado forjando armas envenenadas contra o país do socialismo. Falava então do "desconhecido russo", o qual, segundo ele, "pesa de maneira estranha sobre a noção, ou melhor, sobre a esperança da Paz". E levanta perfeitamente a exigência de que a URSS:

"deixe de se colocar como um corpo estranho em frente ao resto das nações, através de uma espécie de rompimento provocador com todas as noções tradicionais da moralidade e da humanidade.(4)

Bevin teve apenas que se aproveitar do arsenal de Blum quando, na última assembleia geral da ONU, se lançou a um ataque antissoviético em grande estilo. Usando citações truncadas, o ministro trabalhista dos negócios estrangeiros da Grã Bretanha pretendeu em vão argumentar que, segundo Lenin, as relações da URSS com os países capitalistas se baseavam na perspectiva de um conflito armado inevitável entre os dois mundos. Daí para insinuar que o marxismo-leninismo se baseia na guerra para assegurar o triunfo universal da revolução proletária, não é preciso mais do que um passo, e Bevin se apressou em dá-lo. Em seguida, bastaria apenas vestir o manto da paz e apresentar os preparativos estratégicos e militares dos imperialistas ocidentais como simples medidas de "defesa" contra a URSS.

É preciso refutar energicamente essa deformação desonesta das teses leninistas referentes às relações entre o socialismo e o capitalismo, em escala internacional.

A idéia da guerra inevitável entre os dois mundos não é uma idéia leninista, mas uma idéia reacionária. É da mesma fonte da famosa tese anti-marxista de que quanto mais miséria sofre o povo, mais se aproximará a hora do desenlace revolucionário.

Este singular fatalismo, disposto a aceitar e mesmo a defender que os maiores males devem se abater sobre os trabalhadores, serve muito bem aos objetivos da pior reação, por ser insuspeito, mesmo quando se acoberta numa verborragia ultra-revolucionária.

Ele retoma a hipótese renaniana de Blum, cujo espírito invertido pôde admitir, mesmo por um instante,

"que por esses caminhos da história, que são talvez impenetráveis aos contemporâneos, o nazismo e o fascismo tenham vindo destruir a velha terra da Europa para que a humanidade socialista pudesse finalmente elevar-se e florescer."(5)

Contrariamente a esta funesta teoria, é próprio do marxismo apelar constantemente, não para o fatalismo, mas para a atividade consciente dos homens.

É Possível a Coexistência Pacífica Entre Regimes Diferentes

Lenin e Stalin, longe de contar com o acaso, a espontaneidade e o empirismo, se distinguem precisamente pela importância que atribuem ao papel do partido da classe operária, à sua teoria e à sua ação, concebidos como alavancas da transformação revolucionária da sociedade.

Em nenhum momento, nem Lenin nem Stalin encararam a guerra como um meio de fecundar a sociedade e de apressar a vitória do socialismo.

Melhor ainda. Quando Trotsky, Bukharin e os pretensos "comunistas de esquerda" preconizavam em 1918 a "guerra revolucionária" e sabotavam as conversações de paz de Brest Litovsk, foram asperamente combatidos por Lenin, que denunciou na expressão "guerra revolucionária" uma tática do desespero e do aventureirismo, tática inspirada na frouxidão do pequeno—burguês e não na verdadeira firmeza do proletário, conforme se vê no artigo "Coisa Estranha e Monstruosa", constante das obras escolhidas de Lenin, tomo II.

Em seguida, quando o poder soviético triunfou contra seus inimigos internos e externos, quando a intervenção estrangeira entrou em liquidação pela derrota dos imperialistas, Lenin insistiu, tanto nos seus conselhos à delegação enviada a Haia, como no seu informe ao XI Congresso do Partido, em 1922, sobre a necessidade de estabelecer relações econômicas estreitas com os países capitalistas. Nesse informe Lenin ressaltava:

"Pode-se dizer com bastante certeza que as relações comerciais regulares entre a República dos Soviets e o mundo capitalista continuarão necessariamente a se desenvolver".

Essa justa política pacífica da União Soviética não foi realizada sem choques, numa atmosfera de idílio. Muitas provocações, muitas manobras tiveram lugar com o objetivo de envenenar as relações da URSS com os demais países. Mas a serena firmeza do governo soviético superou todos os obstáculos.

A tese leninista da possibilidade e da utilidade das trocas comerciais entre o mundo socialista e o mundo capitalista foi desenvolvida e enriquecida por Stalin.

A vitória do socialismo na URSS e o reforçamento de suas posições internacionais permitiram formular-se a tese hoje famosa da coexistência e mesmo da colaboração pacífica possível entre regimes diferentes.

Na entrevista concedida a um dos grandes magnatas americanos, Roy Howard, a 1.° de Março de 1936, Stalin já havia demolido o argumento do "medo", levantado nos últimos tempos por Spaak.

Que se julgue pelo trecho seguinte: Howard perguntou: "Não pensais que os países capitalistas possam temer que a União Soviética, pense em impor pela força aos outros povos suas teorias políticos?"

A isso respondeu Stalin:

"Semelhantes temores são absolutamente sem fundamento: Se acreditais que os cidadãos soviéticos se dispõem a modificar, e ainda mais pelo força, a fisionomia dos Estados que os cercam, cometeis um cruel erro. Eles desejam sem dúvida que essa fisionomia se modifique, mas isso é questão dos próprios Estados interessados. Não percebo qual o perigo que podem ver os Estados que nos cercam nas idéias dos cidadãos soviéticos, se esses Estados estão realmente bem assentados".

Em sua entrevista com Harold Stassen, em abril de 1947, Stalin voltou, com precisão, a essa idéia. Não é exagero dizer que essa é uma das ideias-forças de nossa época.

Essa idéia significa que na medida em que dela dependa, a União Soviética está pronta a cooperar com qualquer Estado, com a única condição de que não alimente nenhuma intenção agressiva para com o país do socialismo e não procure de nenhum modo se imiscuir em seu regime interno.

É evidente que a cooperação real supõe a boa vontade recíproca e o respeito absoluto à soberania nacional de cada povo. É questão de cada povo introduzir em seu país as modificações que deseje.

A importância particular dessa tese, na presente situação, não escapa a ninguém.

— Essa tese mostra que do lado soviético nenhuma razão de princípio afasta a possibilidade de cooperação com os Estados capitalistas, sendo a cooperação considerada, ao contrário, desejável o útil, no interesse dos povos e da paz.

— Ela guia a política exterior permanente do governo soviético e leva à consolidação e à ampliação das relações comerciais, diplomáticas e culturais entre a URSS e os outros países, deixando sempre a porta aberta a novos acordos, economicamente vantajosos para os dois contratantes e sem nenhuma condição política, contrariamente ao que ocorre com o Plano Marshall.

— Sem cessar, apela para a vigilância e à ação das forças democráticas e populares para barrar o caminho aos provocadores de guerra e transformar a possibilidade de cooperação dos países capitalistas com a URSS numa certeza real, numa vitória das forças de paz sobre as forças de guerra.

Como todas as grandes idéias de Lenin e de Stalin, a teoria da colaboração pacífica dos dois sistemas não é, pois, uma simples afirmação; ela vai desde a constatação até a ação, no sentido de transformar o estado de coisas existente.

Afastou-se tanto do fatalismo reacionário, que conclui pela inevitabilidade da guerra, como da passividade oportunista, que alimenta uma falsa tranquilidade e fecha os olhos à agressividade do campo imperialista — as duas tendências favorecendo, uma e outra, os forjicadores de guerra.

As Forças de Paz Vencerão as Forças de Guerra

A guerra não é inevitável. Mas para evitá-la é preciso agir com resolução e perseverança contra aqueles que evidentemente a preparam, ao abrigo do Plano Marshall.

No mundo em que os aventureiros do imperialismo jogam com o desespero e mergulham na política do "mal maior", os comunistas adotam a política de confiança no progresso crescente das forças de paz, política que se exprimiu nas declarações e entrevistas de Stalin de 1945 a 1948.

A Paz amedronta os capitalistas porque:

"a política de cooperação com a URSS compromete as posições dos provocadores de guerra e torna inútil a política desses senhores", disse Stalin na entrevista ao "Pravda", em 28-10-1948.

As provocações de guerra, que criam o perigo iminente, mostram contudo a fraqueza do campo imperialista. Ao contrário, a consideração racional da possibilidade de coexistência pacífica entre sistemas econômicos e políticos diferentes é uma prova de força do campo democrático. A concorrência pacífica entre socialismo e capitalismo não pode ser repelida senão pelos que não têm fé no valor do seu próprio sistema.

Convencidos que estamos da superioridade do sistema socialista, não receamos a competição; lutamos para evitar ao mundo a prova sangrenta de uma nova guerra que faria inúmeras vítimas entre as massas trabalhadoras e destruiria riquezas materiais, culturais e morais insubstituíveis.

O Socialismo, para triunfar definitivamente no mundo, não necessita de uma monstruosa apocalipse; seu melhor aliado não é a guerra, mas a Paz.

A Declaração do Bureau Político, Arma de Luta Pela Paz

O Partido Comunista Francês se colocou no terreno experimentado do marxismo-leninismo, ao mesmo tempo interpretando com segurança os sentimentos profundos de nosso povo, quando solenemente declarou:

"O povo da França não fará, não fará jamais a guerra à União Soviética".

As diversas manifestações que se seguiram à declaração do Bureau Político mostraram ao mesmo tempo que a direção de nosso Partido, guiada por Maurice Thorez, compreendeu e agiu de plena conformidade com os princípios de Lenin e Stalin.

1.°) — A declaração do Bureau Político obriga os fomentadores de guerra a se desmascararem e a confessor abertamente que querem fazer guerra à União Soviética.

Esta é uma declaração oportuna, inspirada no conselho de Lenin, que recomenda revelar "o mistério que cerca o nascimento da guerra", conforme se lê nas "Notas sobre as tarefas da nossa delegação a Haia", constante de suas Obras Escolhidas, tomo II.

2.°) — A declaração do Bureau Político denuncia os preparativos reais de guerra, a que se dedicam os imperialistas e seus lacaios na França.

Pois não se pode lutar efetivamente contra a guerra, se se limita a "suspirar pela paz" e se não se combate enérgica e especialmente os provocadores de guerra.

3.°) — A declaração do Bureau Político destrói a mentira de uma guerra pretensamente "defensiva" alardeada pelos governantes a soldo de Washington, nos vários países, que se esforçam dessa maneira por camuflar as intenções agressivas dos imperialistas.

Com efeito, o que importa é considerar se a guerra é justa ou injusta, e não aparentemente ofensiva ou defensiva; que toda guerra "tendo por objetivo conquistar e submeter os outros povos"(6) é uma guerra injusta, imperialista (como é o caso da guerra que preparam os dirigentes dos Estados Unidos e seus subordinados ocidentais).

4.°) — O mérito da declaração do Bureau Político está em mostrar ao povo que depende de nós impedir a guerra; formular uma palavra de ordem que una as massas populares e as conclame a não ceder nem pela intimidação nem pela chantagem.

Em resumo, "que há muita distância entre o desejo dos imperialistas de desfechar uma nova guerra e a possibilidade de organizar uma tal guerra", conforme observou Zhdanov.

Assim, a declaração do Bureau Político esclarece e estimula a ação das forças de Paz que enfrentam em nosso país as forças de guerra. Constitui uma arma, sobre cuja importância não se enganaram os homens do governo para os quais a palavra Paz se tornou subversiva.

Essa declaração permitirá aos comunistas franceses participar de toda manifestação da vontade pacífica de nosso povo, mesmo que essa vontade se exprima em termos ainda contaminados de confusão e de incompreensões. É na ação que serão liquidadas as dúvidas e as hesitações.

"O combate pela paz é o mais sagrado dos combates", dizia Jean Jaurés, e a tarefa dos comunistas em nossa época é a de lutar por Pão, por Liberdade e pela Paz — como combatentes resolutos da independência nacional, do internacionalismo proletário e da causa universal do socialismo, sob a bandeira de Lenin e de Stalin.


Victor Michaut, publicado na Revista Problemas, nº 18, abril/maio de 1949.





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