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domingo, 24 de janeiro de 2016

Crise do capitalismo - Continuam as réplicas do «sismo» de 2007/2008

Crise do capitalismo - Continuam as réplicas do «sismo» de 2007/2008
por CARLOS CARVALHAS

"Todos querem sair da crise pelas exportações, procurando ganhos de competitividade através da desvalorização salarial e da liquidação de direitos laborais, a que chamam, eufemisticamente, desvalorização interna.

Mas diminuindo o poder aquisitivo das massas ficam com os mercados cada vez mais restringidos, retomando a desvalorização das moedas através das taxas de câmbio – «as guerras das moedas». Deixam à rédea solta os mercados financeiros apoiados na liquidez e apoio dos Bancos Centrais, que se encontram cada vez mais ultrapassados pelos acontecimentos."

"A fabulosa concentração de riqueza e as enormíssimas desigualdades e injustiças sociais vão acentuar os confrontos e a luta de classes, mesmo num quadro geral de grandes dificuldades para os povos e trabalhadores."

Aqueles que afirmaram que a crise iniciada em 2007/2008 estava definitivamente arrumada interrogam-se agora sobre as perspectivas da evolução da economia mundial e perguntam onde está o motor do crescimento?

Houve quem pensasse que o motor estava nos chamados países emergentes, nos países asiáticos, mas a quebra no crescimento da China e na generalidade dos países exportadores de matérias-primas e a continuação da longa estagnação no Japão (apesar dos estímulos monetários – Abenomics) frustraram todas essas expectativas.

O sistema capitalista continua enredado nas suas agudas contradições, a economia não arranca sustentadamente e a finança continua atolada em activos tóxicos e fundos especulativos.

Os chamados bancos sistémicos, que foram identificados no G20 de 2011, detêm hoje um nível de «produtos derivados» a que pertencem os «sub primes» que já ultrapassam o nível anterior à crise. Estima-se que estes atinjam os 710 biliões de dólares, cerca de 10 anos do PIB mundial.

Embora se trate de um montante nominal, o que é certo é que a detenção massiva de produtos derivados pelos megabancos é uma bomba-relógio pronta a deflagrar em propagação sistémica. Por outro lado a banca paralela (Shadow Bank – banca sombra) não tem parado de crescer e não tem praticamente qualquer fiscalização.

Os povos continuam a pagar, através dos seus impostos, reformas e pensões, a capitalização e o desendividamento da banca.1

A banca e os bancos sistémicos conseguiram travar o essencial da regulamentação avançada pelos reguladores a seguir à crise, submetendo o poder político ao seu poder económico e financeiro, e continuam a ser responsáveis pela maioria da criação monetária, sabendo-se que a moeda é um «bem público». Não só criam moeda como lhe fixam o preço, bem evidenciado no escândalo da manipulação do mercado da taxa de referência Libor.

Christine Lagarde, em Maio de 2014, afirmou: «o comportamento do sector financeiro não mudou depois da crise».

Os ditos reguladores, como a autoridade europeia dos mercados financeiros (ESMA), são, no essencial, uma fachada para permitir que tudo continue como nos bons velhos tempos. O argumento da banca é que é proibido proibir, para não matar a «criatividade financeira».

Fala-se em volatilidade e liquidez que não consegue impulsionar a actividade económica e o que se questiona é onde e quando surgirá a próxima crise financeira.

Os banqueiros que estavam em pânico e submissos em 2008, recuperaram a sua força, o seu domínio e a sua arrogância à medida que os Estados, com o dinheiro dos contribuintes, os iam amparando, isto é, à medida que a crise bancária se foi transformando em crise das finanças públicas, designadamente na União Europeia, com a prestimosa acção do Banco Central Europeu. A banca ficava com os títulos de empréstimo dos Estados (títulos de dívida pública) a juros sempre superiores a 3, 4 e 5 pontos percentuais ao que obtinha no BCE, dando por garantia esses mesmos títulos. Agora esses financiamentos a taxas próximas do zero são em montantes muito mais elevados!

Os bancos centrais detêm nos seus activos cada vez mais «lixo tóxico» e debatem – bancos centrais japonês, chinês e europeu – a necessidade e oportunidade de maiores intervenções monetárias. Mas, ao fazê-lo, injectam massas cada vez maiores de liquidez que não conseguem controlar e que alimentam as actividades especulativas.

O Banco Central dos EUA, a FED, pôs fim às injecções massivas de dinheiro, no final de 2014, reduzindo a circulação de dólares, ao mesmo tempo que vai, sucessivamente, dando a entender que aumentará as taxas de juro, com a mais que provável valorização do dólar. Esta política levou à retirada massiva de fundos dos países emergentes que, com a queda do preço do petróleo e das matérias-primas, se confrontaram com crescentes problemas orçamentais, levando os Estados e as empresas a substanciais endividamentos em dólares. Com a valorização do dólar as dívidas tornaram-se mais pesadas e os títulos de dívida pública e das empresas desvalorizaram, levando os investidores especulativos a retirarem as suas aplicações.

Nos últimos tempos, a FED tem dado a entender, com mais insistência, que vai aumentar as taxas de juro em Dezembro, embora tenha, no passado recente, adiado por várias vezes essa decisão.

Tal aumento tenderá a criar ainda mais dificuldades aos países e empresas endividadas em dólares. Se a FED ainda não o fez foi porque a economia americana continua confrontada com a ameaça da deflação, com grandes debilidades e dificuldades, apesar da melhoria apresentada nas estatísticas do emprego e do crescimento, e porque as ondas de choque, internas e externas, não são claras nem lineares quanto às suas consequências. Não atingiriam apenas os países «hostis» mas toda a economia mundial, razões pelas quais o FMI se tem oposto a tais aumentos.2

Se a FED aumenta a taxa de juro nos EUA, o dólar ficará mais atractivo, tornando mais procurados os títulos do tesouro. Com o dólar mais atractivo os capitais fugirão ainda mais rapidamente das economias emergentes e da China.

Esquemática e simplificadamente pode dizer-se o seguinte:

.1º – As moedas destes países desvalorizarão, obrigando os países a defender as suas moedas, para que estas não se afundem, através dos seus bancos centrais, delapidando milhões em divisas, muitas vezes sem sucesso, como já se verificou no passado.

2.º – Os «investidores» procuram libertar-se das acções e obrigações dos países emergentes para escaparem às perdas resultantes da desvalorização monetária.

3.º – Os «investidores», «especuladores», temendo um abrandamento destas economias e da economia mundial, vão procurar valores «refúgio», designadamente o dólar, contribuindo para a sua valorização.

4.º – À medida que o dólar se reforçar em relação às moedas dos países emergentes um círculo vicioso auto-alimenta-se. Quanto mais o dólar sobe, mais os capitais fogem, o que faz cair ainda mais as moedas nacionais, o que obriga a uma maior liquidação de títulos em moedas que se desvalorizaram...

Grandes dificuldades e debilidades que atingem a generalidade dos países

Todos querem sair da crise pelas exportações, procurando ganhos de competitividade através da desvalorização salarial e da liquidação de direitos laborais, a que chamam, eufemisticamente, desvalorização interna.

Mas diminuindo o poder aquisitivo das massas ficam com os mercados cada vez mais restringidos, retomando a desvalorização das moedas através das taxas de câmbio – «as guerras das moedas». Deixam à rédea solta os mercados financeiros apoiados na liquidez e apoio dos Bancos Centrais, que se encontram cada vez mais ultrapassados pelos acontecimentos.

A questão que se coloca é a de se é possível, a prazo, relançar o crescimento sustentado obtendo ganhos de produtividade e de inovação, sabendo-se que a inovação em que mais se investe, «robotização e inteligência artificial», tem como características criar poucos empregos e destruir muitos mais. Por isso, a luta pelos direitos, pela melhoria do poder aquisitivo das massas, pela redução dos horários de trabalho, vai estar crescentemente na ordem do dia.

A fabulosa concentração de riqueza e as enormíssimas desigualdades e injustiças sociais vão acentuar os confrontos e a luta de classes, mesmo num quadro geral de grandes dificuldades para os povos e trabalhadores.

Por agora, as estimativas vão para a travagem do crescimento mundial e as perspectivas são as de um crescimento medíocre e estagnação por um período longo de tempo.

A estratégia dos Estados Unidos na desestabilização dos países «emergentes» progressistas

Wall Street, o complexo militar industrial dos EUA, a CIA e a Casa Branca delinearam a estratégia. A Administração americana acordou com a Arábia Saudita, principal produtora da OPEP, em aumentar a sua produção de crude, diminuindo os preços para atingir os países que, de uma maneira ou outra, avançaram com medidas que ameaçam os privilégios do dólar e a dominação dos EUA.

Tal medida, no quadro de uma crise que já tinha abrandado o consumo de produtos petrolíferos, afundou os preços e criou sérias dificuldades a países para quem o petróleo era, e é, a principal fonte de rendimento, mas até à data em que escrevemos este artigo tal estratégia ainda só conseguiu alterações na Argentina, do grupo principal de governos «hostis»: Rússia, Venezuela, Irão, Brasil, Argentina, Bolívia,… Mas é uma evidência que as acções de desestabilização e provocação contra estes países por parte dos EUA, CIA e NATO não vão acabar!

No Brasil, Dilma tem conseguido aguentar-se. A Rússia fez um acordo com a China, escoando o seu petróleo e abastecendo-se neste país sem necessidade de divisas. Com os problemas que os EUA criaram na Síria, Iraque, Líbia, e a formação do Estado Islâmico, o Irão, com o apoio da Rússia e da China, forçou os EUA a levantar as sanções que impediam a venda do seu petróleo, e na Venezuela, apesar da CIA e da imprensa internacional andarem há vários meses a desestabilizar o país e a preparar o terreno para uma derrota do Chavismo, ainda não o conseguiram. Concentram os seus esforços nas eleições de Dezembro, que na grave situação de abastecimento e social do país poderá colocar Maduro em minoria no Parlamento.

A Arábia Saudita pensou que mataria dois coelhos de uma só cajadada, fazer capitular o Irão e alargar e consolidar a sua quota de mercado mundial.

Segundo as suas contas, o país poderia aguentar dois a três anos com os preços baixos.

Mas a Arábia Saudita, para além das perdas fantásticas com a baixa de preço do crude, aumentou substancialmente as despesas militares, com a guerra no Iémen e, na Síria, o apoio ao Egipto... E a China, um dos seus principais clientes, diversificou as fontes de aprovisionamento, designadamente com a Federação Russa.

A situação começa a agravar-se e já há quem afirme que o «feitiço está a virar-se contra o feiticeiro».

Não deixam de ter significado as recentes declarações da Arábia Saudita de querer colaborar com os outros produtores para estabilizar os preços.

Se a baixa do preço do petróleo é a arma para atingir um conjunto significativo de países progressistas, designadamente na América Latina, a verdade é que a baixa do crude é extremamente favorável para a China, grande importador.

Mas em relação à China e a outros países «emergentes», os EUA utilizam também outras armas de pressão e desestabilização, como o dólar, as taxas directoras da FED, a manipulação dos mercados, o FMI, as grandes campanhas de opinião pública, procurando criar o pânico nos «investidores».

O anúncio da FED de que iria diminuir as injecções monetárias nos «mercados», terminando tais injecções em 2014, e ainda o anúncio de que iria subir as taxas directoras, foi, como já se referiu, o pretexto para a retirada de milhões de fundos de investimento dos países «emergentes», atingindo também a China.

Michel Chossudovsky, no seu artigo «Desestabilização econômica, afundamento financeiro e manipulação da bolsa de Shangai», afirma que «de maneira amplamente documentada, os megabancos manipulam os mercados financeiros».

Segundo este autor, o afundamento do índice bolsista na China este Verão não tem nada a ver com as forças espontâneas do mercado ou com os actores da «economia real». Tem todas as aparências de um assalto especulativo cuidadosamente elaborado para fazer subir ao máximo as cotações, e logo de seguida fazê-las cair.

A imprensa financeira ocidental procurou desde logo difundir a ideia que foram os «investidores» chineses e não os bancos estrangeiros que estiveram por detrás da manipulação do mercado financeiro, acrescentando que os activos financeiros têm um acesso limitado ao mercado chinês. Mas, como lembra Chossudovsky, esta análise escamoteia o facto de que grandes actores financeiros, como a Goldman Sachs, JP Morgan Chase, HSBC e outros estão muito presentes e activos na China, negociando por intermédio de mandatários financeiros chineses com quem têm importantes parcerias.

«Os mercados financeiros podem ser manipulados com a ajuda de computadores utilizando programas de transacções de alta frequência (HFT), que constituem actualmente 70% das transacções.»

«Goldman Sachs é o campeão incontestado desta nova técnica» (…)

«Enquanto o Pentágono e a NATO coordenam as operações militares contra os países estrangeiros soberanos, Wall Street põe em prática acções de desestabilização sobre os mercados financeiros, compreendendo a manipulação sobre o preço do petróleo, do ouro, assim como o mercado de câmbios, visando a Rússia e a China». Concluindo, o autor interroga: «A manipulação “possível” da Bolsa de Shangai faz parte do conjunto de medidas dos EUA dirigidas à China para enfraquecer o seu sistema econômico e financeiro?».

Washington, com os seus lobbies mediáticos à escala do globo, tem desenvolvido não poucas campanhas de descrédito da economia chinesa, e não só. Acusação de «espionagem cibernética», de «manipulação de taxas de câmbio», tiveram grande repercussão na imprensa internacional.

Quando a China anunciou que a taxa de crescimento será este ano de 6,8%, e não 7%, os títulos e os comentários inundaram os media.3

«O crescimento chinês arrefece», «O crescimento chinês é bem inferior aos dados publicados», «A China falsifica os dados econômicos para aguentar a pressão política», «A China está endividada até ao pescoço».

Os EUA talvez não estejam interessados no afundamento da economia chinesa, que é um dos países que compra dívida pública americana, e um dos principais mercados compradores de muitos produtos americanos. A China representa, por exemplo, 30% das vendas mundiais da Apple.

Mas se não estarão interessados para já no afundamento da economia, estarão interessados em condicionar e vir a meter a China debaixo da sua asa, e a pressioná-la quando os seus interesses estiverem em jogo.

É o que têm feito em relação à moeda chinesa, jogando com «o pau e a cenoura» em relação à entrada da sua moeda como «moeda de reserva» no FMI. Existem quatro moedas de reserva agregadas pelo FMI, dólar, euro, libra e iene, sendo o dólar a principal. O estatuto de «moeda de reserva» permite aos países emissores pagar a crédito com uma moeda que eles controlam. O que lhes dá uma grande autonomia e vantagem, especialmente aos EUA.

A resposta da China ao adiamento, mais uma vez, do FMI em admitir a sua moeda como moeda de reserva não se fez esperar. A 11 de Agosto o Banco Central da China abandonou a paridade fixa do iene em relação ao dólar, em vigor desde 2005, deixando flutuar a sua moeda que, ao desvalorizar, tornou as suas exportações para os EUA mais baratas e as exportações dos EUA mais caras para entrarem na China.

Os EUA foram, aparentemente, apanhados de surpresa e manifestaram-se negativamente. Acusaram a China de «criar uma vantagem comercial desleal».

A China, neste contexto, procurou aproveitar-se das dificuldades econômicas de vários países propondo uma cooperação econômica e investimentos de grande dimensão, como é o caso da Inglaterra, que declarou o apoio à sua pretensão, prosseguindo a sua estratégia de fazer da sua moeda uma moeda de reserva. Em finais de Novembro, o FMI acabou por decidir que a moeda chinesa fizesse parte do cabaz dos DSE (Direitos de Saque Especial).4

Está muita coisa em movimento com alcance estratégico.

Qual vai ser a evolução da China, do Vietname (que assinou o acordo de parceria transpacífico – TPP, dominado pelos EUA e Japão), quais vão ser as sínteses das agudas contradições com que se debate uma Arábia Saudita e países do Golfo, um Egipto, os EUA... e a União Europeia.

Uma União Europeia que continua sem conseguir arrancar, mantendo-se enredado em sucessivas crises das dívidas públicas, apesar da baixa das taxas de juro, da baixa do preço do petróleo, da desvalorização do euro, favorecendo as suas exportações e das injecções sistemáticas de liquidez do BCE.

A política ditada pela Alemanha, o euro, o Tratado Orçamental e a oposição às renegociações das dívidas são verdadeiras amarras a tentarem perpetuar um neocolonialismo de fachada democrática, com toda a retórica do rigor, do não há outro caminho, do não há alternativa.

Mas a luta dos trabalhadores e dos povos, as contradições entre os países do «norte e do sul», a não resolução das dívidas públicas e as consequências da destruição do Iraque, da Líbia, da Síria, do Iémen, da grave situação da Palestina, que se expressa na chamada crise dos refugiados, os brutais ataques terroristas, a não resposta aos problemas do desemprego, designadamente do desemprego jovem e de longa duração, vão desfazendo os mitos da «Europa solidária», da «coesão econômica e social», do «nivelamento por cima» e criando significativas fissuras nos defensores dos dogmas do Tratado Orçamental e das políticas neoliberais.


CARLOS CARVALHAS




Notas


(1) Philippe Legrain, que foi conselheiro econômico independente de Durão Barroso, declarou ao Público que uma boa parte da explicação da crise está em que «o sector bancário dominou os governos de todos os países e as instituições da zona euro». Quando rebentou a crise «foram todos a correr salvar os bancos» e as «ajudas a Portugal e Grécia foram resgates ao bancos alemães» (Público, 11 de Maio de 2014). Por sua vez, o Banco Central Europeu estimou que os apoios dos Estados da zona euro para salvar os bancos foram de 800 mil milhões de euros! Mas este valor astronômico é ainda e só uma parte da verdade.

(2) Desde o início do ano (2015) o FMI reviu em baixa, por quatro vezes, o crescimento mundial. A economia mundial deverá atingir em 2015 um crescimento de apenas 3,1%, o mais baixo valor depois de 2009.

(3) O crescimento à volta de 7% é o mais baixo dos últimos vinte e tal anos. Há quem considere que, para além das consequências da crise mundial, tratar-se também da transição do seu modelo mais virado para o consumo interno e serviços.

(4) A China prosseguiu durante vários anos a estratégia de integrar a sua moeda no cabaz dos direitos de saque especial [em inglês, Special Drawing Rights (SDR)], que é, simplificando, uma espécie de moeda do FMI. Esta inclusão não faz do yuan automaticamente uma moeda da reserva mas é um passo decisivo.







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