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quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

"A Questão Palestina e as Relações Internacionais"

"A Questão Palestina e as Relações Internacionais"
por Marcelo Buzetto

"É de causar indignação ver os símbolos dos EUA e da UE em projetos sociais e escolas dos territórios palestinos, pois os mesmos que hoje enviam alguns punhados de dólares e euros como forma de compensar a destruição causada por 62 anos de ocupação militar sionista, são os que nunca tiveram vontade ou coragem para barrar a máquina assassina israelense, que continua ceifando vidas de crianças e civis todos os dias, desfrutando de uma impunidade e de uma cumplicidade dos governos imperialistas e da ONU, que só sabe redigir Resoluções que nunca saem do papel, a não ser que seja contra países como Irã e Coréia do Norte.

Que o povo palestino possa construir nos próximos anos uma gigantesca e poderosa força social e política de massas, capaz de traduzir a justiça de sua causa e de unir todos aqueles movimentos e organizações que são as legítimas representantes das aspirações nacionais e sociais dos trabalhadores e trabalhadoras desta pátria que um dia há de ser verdadeiramente livre, independente e soberana. "

No Brasil temos hoje entre 15 e 20 mil palestinos. Desde o início dos anos oitenta tem crescido em nosso país um movimento de solidariedade com a causa palestina que atravessa as barreiras ideológicas, políticas, partidárias e religiosas. É possível encontrar sindicatos filiados a diversas centrais sindicais (Central Única dos Trabalhadores-CUT, Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil - CTB, Central Geral dos Trabalhadores do Brasil – CGTB, Central Sindical-Popular Coordenação Nacional de Lutas – CSP-CONLUTAS, INTERSINDICAL, Força Sindical, entre outras) assinando manifestos e participando da organização de atos e mobilizações de apoio a luta pela criação do Estado Palestino. 

Desde os anos 1980 a Organização para a Libertação da Palestina (OLP) possui escritório de representação diplomática em Brasília, que hoje já tem status de Embaixada, é a Embaixada da Palestina no Brasil, que foi uma ação concreta de reconhecimento de vários governos brasileiros à legitimidade dessa luta por independência e libertação nacional. 

Também entre os diversos partidos políticos brasileiros o apoio aos palestinos é grande, principalmente entre os partidos de centro-esquerda, progressistas e de esquerda. A defesa da criação de um Estado Palestino consta nos programas partidários ou aparece em discursos e manifestos das lideranças. 

Se fizermos um levantamento entre parlamentares brasileiros, certamente também encontraremos deputados estaduais e federais, senadores e vereadores em todos os Estados que, de alguma maneira, expressam ou já expressaram sua solidariedade contra as arbitrariedades que são cometidas pelo Estado de Israel nesses 62 anos de ocupação militar estrangeira. 

A verdadeira face dos psicopatas assassinos Israelenses

Também percebemos a existência de vários Comitês de Solidariedade à Luta do Povo Palestino, em vários Estados do Brasil. Em São Paulo, nos últimos anos, foi criada a Frente de Defesa do Povo Palestino, com a participação de movimentos populares, partidos, movimento sindical, movimento estudantil, etc. 

Os estudantes brasileiros e suas organizações, seja a União Nacional dos Estudantes (UNE) ou a Associação Nacional de Estudantes Livre (ANEL), apesar de divergirem em vários temas da política interna, estão unidos neste tema da política internacional. Entre os movimentos de trabalhadores, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e a Via Campesina (movimento internacional de trabalhadores rurais e camponeses) tem enviado delegações em missões humanitárias na Palestina. Inúmeros religiosos, judeus, cristãos (das mais diversas denominações) ou muçulmanos também no Brasil se encontram para homenagear este povo e denunciar o constante desrespeito aos direitos humanos praticado pelos sucessivos governos israelenses. 

Nos últimos anos o governo brasileiro abriu uma Embaixada junto a Autoridade Nacional Palestina (ANP), com sede em Ramalá, na Cisjordânia. Todas essas iniciativas demonstram que existe no povo brasileiro e em suas organizações políticas e sociais a disposição de fortalecer a luta pelo estabelecimento do Estado Palestino. 

Escrevemos este pequeno texto para estimular a reflexão crítica sobre a questão palestina, deixando de lado o preconceito contra um povo que busca de maneira legítima a sua libertação. Infelizmente, neste início de século 21, ainda somos obrigados a nos defrontar com essa situação injustificável, que é a negação dos direitos nacionais a um povo que vive há séculos naquela região. 

Esperamos contribuir com o debate ao mesmo tempo que reforçamos a necessidade de ações concretas de solidariedade, pois ser internacionalista é lutar, como já foi dito, contra toda e qualquer forma de injustiça, cometida contra qualquer cidadão, em qualquer lugar do mundo (Ernesto Che Guevara).

Os meios de comunicação de massa (ou de desinformação em massa) costumam tratar a Questão Palestina como um conflito entre “judeus e muçulmanos” ou entre “árabes e israelenses”. 

Os árabes-palestinos sempre aparecem nos grandes veículos de comunicação como terroristas, pessoas sanguinárias, fanáticos religiosos que se explodem cometendo atentados em várias partes do Oriente Médio.

Quais são os verdadeiros motivos que fazem com que a Palestina, região onde nasceram as três grandes religiões monoteístas (judaísmo, cristianismo, islamismo), seja palco de uma guerra onde as vítimas são crianças, idosos e demais membros da população civil que enfrentam todos os dias as agressões de um exército invasor que desrespeita os direitos humanos e as resoluções da ONU desde 1948?

A localização estratégica

A Palestina é um território de 27.000 quilômetros quadrados que se localiza entre o Egito, Líbano, Síria e Jordânia, tendo um vasto litoral com saída para o Mar Mediterrâneo. Pelo sul da Palestina chega-se ao Golfo de Ácaba, que levará qualquer navegante ao Mar Vermelho, Golfo de Áden, Mar da Arábia, golfo de Omã e Oceano Índico.

Do ponto de vista econômico, político e militar, sua localização é estratégica. A Palestina fica no centro do mundo, na divisa entre a África e a Ásia, e bem próxima da Europa. Por isso tal território sempre foi alvo de invasões ao longo de sua história. A região também sempre foi importante rota comercial terrestre e marítima.

As origens do conflito atual: sionismo e imperialismo invadem a Palestina

Durante o final do século 19 a Palestina estava sob o domínio do Império Turco-Otomano. Na Europa e na Rússia cresce o número e a força de grupos que perseguiam os judeus (“pogroms”). Também nesse período surge um movimento nacionalista judaico chamado Sionismo, que adota esse nome em referência a uma colina de Jerusalém (Sion) onde havia sido construído o Templo de Salomão.

Um dos fundadores do movimento sionista foi Theodor Herzl[1](1869-1904). Herzl nasceu em Budapeste e estudou em Viena, duas cidades importantes do então Império Austro-Húngaro. Vinha de uma família de banqueiros, e elaborou sua concepção nacionalista judaica num livro chamado O Estado Judeu, publicado em 1896. 

Em 1897, Herzl e outros adeptos do Sionismo se reúnem no 1º Congresso Sionista, em Basiléia, na Suíça. A resolução final do Congresso falava da criação de um “lar nacional para os judeus”, algo que já estava presente no livro de Herzl, apontando a Argentina ou a Palestina como os locais mais favoráveis para a realização de tal empreendimento. 

A partir daí os sionistas correram o mundo para angariar recursos financeiros e apoio político para sua proposta. Herzl e seus seguidores vão estabelecer contatos com os governos da Inglaterra, da Alemanha, com o Império Turco-Otomano, com banqueiros, industriais e comerciantes judeus e não-judeus, visando fortalecer a idéia da necessidade de um Estado Judeu. A comunidade judaica européia se divide, e nem todos apóiam a idéia sionista, mas esse movimento consegue o apoio da burguesia judaica e de setores importantes da burguesia não-judaica européia.

Em seu livro Herzl já afirmava sua preferência pela Palestina, que chamava de “pátria histórica” dos judeus, e dizia que o Estado Judeu seria, “para a Europa, um pedaço de fortaleza contra a Ásia, seríamos a sentinela avançada da civilização contra a barbárie” (O Estado Judeu, p.66).

Tal afirmação comprova o vínculo entre sionismo e imperialismo, pois o objetivo de Herzl era obter o apoio das potências imperialistas que dominavam o mundo, e em especial o Oriente Médio, para que a Palestina fosse entregue à burguesia judaica, para que a mesma transformasse esse território numa fortaleza militar contra o avanço do nacionalismo árabe e de possíveis movimentos antiimperialistas que cresciam no Oriente Médio do período pós-Primeira Guerra Mundial.

Com a derrota do Império Turco-Otomano na Primeira Guerra Mundial (1914-1918), França e Inglaterra invadem o Oriente Médio e dividem entre si a região, ficando a Palestina sob o domínio britânico de 1918 a 1948. 

Nesse período o movimento sionista está consolidado, e sua ambição de construir um “lar nacional para os judeus” na Palestina ganha ainda mais apoio, devido ao massacre de judeus pelos nazistas na Europa da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Criam-se, então, as condições favoráveis para a realização da profecia que Herzl e seus seguidores elaboraram em 1897: criar o “Estado Judeu” em cinqüenta anos.

Durante vários séculos os judeus haviam passado por um processo de assimilação, ou seja, haviam se integrado na comunidade nacional de vários países. Trabalhavam, estudavam, participavam da vida política, econômica, social e cultural de onde viviam, e muitos também se envolviam nas lutas por justiça, democracia, igualdade e em defesa dos trabalhadores contra a exploração do capital e do capitalismo.

O movimento Sionista divide a comunidade judaica e vai iniciar uma propaganda em defesa de um nacionalismo burguês conservador e com um conteúdo racista e anti-democrático. Basta ver a proposta de organização política do Estado Judeu defendida por Herzl. Diz ele: “Considero a monarquia democrática e a república aristocrática como as mais belas instituições políticas (...) Sou amigo convencido das instituições monárquicas porque elas tornam possível uma política permanente e representam o interesse ligado a conservação do Estado de uma família historicamente ilustre, nascida e educada para reinar (HERZL, 1998, p.111 e 112)”. 

Sua posição elitista e anti-democrática considera “o referendum como absurdo, pois, em política, não há questões simples que possamos resolver por um sim ou por um não. Aliás, as massas são ainda piores do que os parlamentos (grifo nosso) (...) Diante de um povo reunido, não podemos fazer nem política exterior nem política interior (...) A política deve ser feita do alto” (Idem, p.112).

Essa ideologia conservadora serviu de base para a instauração do Estado de Israel. Compreender o conteúdo racista e conservador do sionismo é fundamental para que possamos explicar a posição atual do governo de Israel em relação ao povo palestino. 

Três idéias foram fundamentais para convencer milhares de judeus a emigrar para a Palestina: 
que a Palestina era uma “terra sem povo” e os judeus eram um “povo sem terra”;

que a Palestina é a “pátria histórica” dos judeus;

que os judeus são o “povo eleito” por Deus.
Essas idéias fizeram com que banqueiros e grandes empresários judeus contribuíssem para a criação da Companhia Judaica, empresa de colonização com o objetivo de comprar terras para instalar colônias judaicas na Palestina. Durante os anos 20 e 30 do século 20 o crescimento dessas colônias deu início a uma série de conflitos entre judeus sionistas e árabes-palestinos. Nos anos 40 o movimento sionista começa a organizar grupos terroristas como o Irgun, Stern e Haganah, que fazem ações armadas e atentados contra a população árabe-palestina, com a intenção de intimidá-los através da violência, fazer com que abandonem seus lares, suas propriedades e suas aldeias.

O Sionismo se organiza de quatro maneiras:
politicamente: através de várias organizações nacionais e internacionais que visam buscar apoio político de governos para seu projeto colonialista;

economicamente: buscando recursos financeiros de empresários e banqueiros judeus e não-judeus para a instalação de colônias na Palestina;

militarmente: organizando grupos terroristas/paramilitares para espalhar o pânico entre a população árabe-palestina, grupos que, depois de 1948, se transformam nas Forças Armadas de Israel;

culturalmente: através da difusão, pela indústria cultural, de idéias que buscam justificar a dominação territorial da Palestina e o direito “histórico e sagrado dos judeus” de ocupar aquela região.
Em 1947, como resultado de uma articulação política internacional dirigida por representantes das potências imperialistas (EUA, Reino Unido e França) e do sionismo internacional, e com o apoio da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e das recém criadas “repúblicas socialistas” do Leste Europeu, a Organização das Nações Unidas (ONU) aprova a Partilha da Palestina, que deveria criar naquela região dois Estados, um Judeu e um Palestino. 

O Estado Judeu ficaria com 56,4% do território, o Estado Palestino ficaria com 42,9%, e 0,7%, correspondente à cidade de Jerusalém, seria administrado pela ONU, por ser local sagrado para cristãos, judeus e muçulmanos. Além de receber a maior parte do território palestino, o Estado Judeu ficou com as terras mais férteis. No ano da partilha (1947), a população árabe-palestina era maioria absoluta em 15 dos 16 subdistritos existentes. 

Somente em Jaffá a maioria da população era formada por judeus. Eram 1.310.000 de árabes-palestinos-muçulmanos e 630.000 judeus. Quem coordenou a votação na Assembléia Geral da ONU foi o diplomata brasileiro Oswaldo Aranha, ex-Ministro das Relações Exteriores. 

Orientado pelo governo brasileiro para acompanhar o voto dos EUA, Aranha adiou por dois dias a votação, para que o lobby sionista e estadunidense pudessem convencer outros países sobre a necessidade da criação do Estado Judeu. No dia 29 de novembro de 1947 a votação foi a seguinte:

Favoráveis: África do Sul, Austrália, Bélgica, Bolívia, Brasil, Bielo-Rússia, Canadá, Costa Rica, Dinamarca, Equador, Estados Unidos, Filipinas, França, Guatemala, Haiti, Holanda, Islândia, Libéria, Luxemburgo, Nicarágua, Noruega, Nova Zelândia, Panamá, Paraguai, Peru, Polônia, República Dominicana, Suécia, Tchecoslováquia, Ucrânia, União Soviética, Uruguai e Venezuela.

Contra: Afeganistão, Arábia Saudita, Cuba, Egito, Grécia, Iêmen, Índia, Irã, Iraque, Líbano, Paquistão, Síria e Turquia.

Abstenções: Argentina, Chile, China, Colômbia, El Salvador, Etiópia, Honduras, Iugoslávia, México, Reino Unido. (GATTAZ, 2002, p. 94 e 95).

Em 14 de maio de 1948 os britânicos deixam a Palestina e é fundado o Estado de Israel. Desde os primeiros dias de sua existência, o governo sionista impediu a criação do Estado Palestino, desrespeitando com isso a resolução 181 da ONU, que previa a constituição de dois Estados. 

Tem início a Guerra da Palestina, onde de um lado está o Exército Sionista-Colonialista de Israel e, de outro, a população palestina, que desde esta época luta pela sua libertação, pela criação de um Estado Laico e Democrático, onde possam viver em paz judeus, cristãos e muçulmanos, onde seja garantido aos indivíduos o direito de decidir e manifestar livremente suas posições políticas e/ou religiosas.

Portanto, desde 1948 o povo palestino vive uma tragédia: foram expulsos de suas terras e de suas casas, e tiveram suas propriedades roubadas ou destruídas pelo chamado Exército de Defesa de Israel. Vilas e cidades palestinas vêm sendo constantemente destruídas durante os 62 anos da Nakba (“A tragédia”). 

Milhares de pessoas seguiram o caminho do exílio e os refugiados palestinos já chegam a 5 milhões. E, ainda assim, milhares seguem resistindo dentro dos territórios ocupados por Israel. 

Em 1967, o expansionismo israelense se intensifica. Novas colônias e assentamentos judeus-sionistas são criados em Gaza, Cisjordânia e Jerusalém, agora tomada militarmente pelo exército colonialista, em mais um desrespeito às resoluções da ONU sobre a questão palestina. Além disso, Israel ocupa militarmente as colinas de Golan, que são da Síria, e a Península do Sinai, do Egito. A única resolução da ONU que Israel respeitou até o momento foi a da sua própria criação. 

Israel segue hoje como o único país do Oriente Médio com armas nucleares, ou seja, armas de destruição em massa. Fala-se de 200 ogivas. Mordechai Vanunu, físico nuclear israelense, que denunciou o programa nuclear de Israel, comprovando sua finalidade bélica, ficou 18 anos na prisão, sendo 16 na solitária, depois foi para a prisão domiciliar, com proibição de se comunicar com qualquer estrangeiro por quaisquer meios. Em 2010 voltou para a cadeia, acusado de tentar fazer contato com membros do Movimento pelo Fim das Armas Nucleares no Oriente Médio.

A ofensiva de 1964 a 1988 e o legítimo direito do povo palestino à resistência diante do colonialismo israelense

A resistência palestina já desenvolveu as mais diversas formas de luta. Mas foi nos anos sessenta do século 21 que o movimento de libertação nacional palestino adquiriu importância internacional, conquistando espaços junto a organismos internacionais, governos e representações diplomáticas de vários países, sendo apoiado pelo bloco de países socialistas do Leste Europeu (Alemanha Oriental, Polônia, Hungria, Bulgária, Tchecoslováquia, Iugoslávia, Romênia), pela Albânia, pela China, pelo Vietnã, pela Coréia do Norte, pela URSS, pelo Movimento dos Países Não-Alinhados[2] e pela Liga Árabe[3]. 

Todo esse apoio internacional à causa palestina produziu inúmeras resoluções da ONU e condenações ao Estado de Israel, e gerou uma conjuntura favorável para que a Organização para a Libertação da Palestina (OLP) fosse convidada a falar na Assembléia Geral da ONU em 1974, quando Iasser Arafat fez um discurso histórico para um plenário majoritariamente a favor do cumprimento das várias Resoluções sobre a Questão Palestina. 

Arafat afirmava que o mundo necessita de esforços tremendos para que se realize as suas aspirações de paz, liberdade, justiça, igualdade e desenvolvimento para que a sua luta seja vitoriosa contra o colonialismo, imperialismo, neocolonialismo e racismo em todas as suas formas, inclusive o sionismo(...) 

"Nossa revolução é também para os judeus, como seres humanos. Lutamos para que judeus, cristãos e muçulmanos possam viver em igualdade, gozando os mesmos direitos e assumindo as mesmas responsabilidades, livres da discriminação racial e religiosa (...) 

"Sou um rebelde e a liberdade é a minha causa. Bem sei que muitos dos presentes aqui hoje se ergueram na mesma posição de resistência que ocupo hoje e de onde devo lutar. Um dia vocês tiveram que converter sonhos em realidade em sua luta. Portanto, agora vocês devem compartilhar o meu sonho, o nosso sonho de um futuro de paz na terra sagrada da Palestina (...) 

"Apelo a todos vocês que permitam que o nosso povo estabeleça soberania nacional independente sobre a sua própria terra. Hoje eu venho portando um galho de oliveira e uma arma dos lutadores pela liberdade. Não permitam que o galho de oliveira caia de minha mão (...)" (ARAFAT, 2007, p. 87, 105 e 107.)

Em novembro de 1974 a Resolução da ONU 3237 convida a OLP para participar, na condição de observadora, dos trabalhos e sessões da Assembléia Geral, se transformando numa imensa vitória diplomática daquela que seria reconhecida como a única e legítima representante do povo palestino.

Entre 1964 e 1988, a OLP conduziu o processo de mobilização anti-colonialista e desencadeou uma incrível luta de libertação nacional que deu esperanças para as massas populares de todo o mundo árabe. 

Criada pela Liga Árabe, a OLP vai adquirindo autonomia/independência deste organismo, até conquistar plenamente o direito de decidir sobre muitas questões relacionadas à luta palestina sem consultar e/ou concordar com as posições dos governos de países árabes. 

Essa maior autonomia ampliou o apoio e garantiu mais legitimidade da OLP entre a classe trabalhadora e as massas populares palestinas e árabes. Enquanto uma frente de cerca de 10 partidos políticos (nacionalistas laicos/nasseristas[4] e comunistas/socialistas), a OLP seguia como a única e legítima representante do povo palestino. 

Sem dúvida é a organização política mais antiga e mais importante na história do movimento de libertação nacional palestino. Dentro desta frente estão os partidos da esquerda palestina, como a Frente Democrática pela Libertação da Palestina (FDLP), a Frente Popular de Libertação da Palestina (FPLP) e o Partido do Povo Palestino (PPP). 

Mas o partido político que sempre ocupou o espaço de força política hegemônica no interior da OLP foi o aL-Fatah (ou simplesmente Fatah), ou Movimento de Libertação Nacional, agrupamento nacionalista laico sob a liderança de Iasser Arafat.

Já o Hamas (Movimento de Resistência Islâmica), que governa e que tem mais força política na atualidade em Gaza, nunca fez parte da OLP. 

Criado em 1987 com apoio da burguesia árabe-islâmica, de governos do Oriente Médio e de organizações como a Irmandade Muçulmana, o Hamas representa uma das principais forças do nacionalismo islâmico, corrente política em franca ascensão nos diversos países árabes. 

Além do apoio de setores importantes da burguesia árabe-islâmica e governos como o do Irã, esse partido político possui hoje uma base social muito forte entre trabalhadores empregados, subempregados e desempregados dos territórios palestinos de Gaza e Cisjordânia. Nos anos noventa do século 20 surgem outros atores no interior do movimento de libertação nacional palestino, como a Jihad Islâmica, partido político que também está fora da OLP. 

Além de partidos políticos e organizações político-militares, os palestinos tem organizações de juventude, camponeses, trabalhadores, operários, mulheres, entre outros.[5]

Nos últimos vinte e dois anos o movimento da resistência palestina tem priorizado a luta de massas, a mobilização social enquanto principal forma de luta contra as arbitrariedades e a violência praticada pelo governo do Estado de Israel. 

Toda sexta-feira, em várias cidades da palestina ocupada, o povo palestino sai em marcha das mesquitas ou praças até o muro que foi construído para separar os palestinos, muro que foi construído ilegalmente por Israel. 

Esse muro tem hoje cerca de 500 quilômetros de extensão e dez metros de altura. Nessas marchas há sempre confronto com o Exército e a polícia israelenses, pois a manifestação pacífica é sempre reprimida e resulta em grande número de palestinos feridos ou mortos, como nos episódios na cidade de Ni´lin, uma comunidade no interior da Cisjordânia conhecida pela sua disposição de luta e pela organização de atos semanais em repúdio ao que chamam de “o Apartheid de Israel”.[6]

No entorno de Ni´lin foram construídos assentamentos judeus em terras palestinas, e parte do território que era utilizado pelos camponeses palestinos para cultivar oliveiras foi ocupado pelos colonos sionistas com apoio da polícia e do exército israelenses. 

Esses colonos recebem treinamento militar e autorização para usar armas de fogo e organizar suas próprias milícias que, com pistolas automáticas e fuzis, ameaçam constantemente a população de Ni´lin e de outras cidades e vilas vizinhas aos assentamentos. 

É comum encontrar nas cidades e regiões sob o controle do Estado de Israel jovens, homens e mulheres, com roupas civis, às vezes vestidos até com bermudas, camiseta e sandália, e com um fuzil pendurado no ombro e uma mochila com munição. Nas ruas, nos ônibus, nas escolas, etc.

A Questão Palestina e o fim da URSS e do Bloco Socialista: início de um período de defensiva

De 1988 a 1994, novos personagens surgem e o fim da URSS e do Bloco Socialista desencadeia uma crise também no interior da esquerda palestina. A al-Fatah empurra a resistência palestina para a mesa de negociação, mas em condições bastante desfavoráveis para o povo palestino. 

A existência de um bloco de países “socialistas” foi fundamental para fortalecer a posição dos palestinos no cenário internacional, pois essa aliança entre URSS e Bloco Socialista com o Movimento dos Países Não-Alinhados e a Liga Árabe era a garantia de vitória em muitos embates no interior da ONU, fato que contribuiu para que a legitimidade desta luta de libertação nacional fosse acumulando cada vez mais força, resultando em sucessivas condenações do Estado de Israel. 

Infelizmente, as centenas de decisões contrárias à política expansionista/colonialista de Israel não se transformaram em ações concretas e contundentes da ONU, o que só fortaleceu a idéia de ineficiência e desinteresse dos que controlam essa instituição quando o assunto é fazer com que um grande aliado das potências imperialistas cumpra as resoluções aprovadas pela Assembléia Geral ou pela Comissão de Direitos Humanos. 

O empenho de países como EUA, França, Reino Unido, Espanha, Itália e Alemanha (só para falar de alguns) para que se cumpram Resoluções da ONU muda de acordo com o réu. Se for Israel, total cumplicidade, morosidade e inaplicabilidade da lei, mas sé é o Iraque de Saddam Hussein após distanciamento deste governante dos EUA, então, faça-o cumprir rigorosamente as determinações da ONU, nem que para isso seja preciso matar 100 mil civis iraquianos, como ocorreu em 1991 no ataque militar contra Bagdá.

O fim da URSS e do chamado “Bloco Socialista” tem um profundo impacto nas relações internacionais e no movimento nacional de resistência palestina. A força da esquerda no interior da OLP advinha também das relações e do apoio que esse setor tinha com o “mundo socialista”, e da intervenção conjunta desses países nos diversos organismos da ONU. 

Além disso, os palestinos tinham, até 1991, dois grandes aliados de sua causa no Conselho de Segurança da ONU: URSS e China. As condições eram muito mais favoráveis para aqueles que defendiam a imediata construção do Estado Palestino.

Com o argumento de que precisa adquirir maior credibilidade e dar mais uma demonstração de que está disposta a fazer concessões em seu programa original se isso, de fato, for contribuir para o avanço do processo de paz, a OLP altera seu estatuto em 1988, e reconhece o direito do Estado de Israel existir, ao lado de um Estado Palestino, conforme a Resolução 181, de 1947. Ou seja, a OLP reconhece pela primeira vez a legitimidade do Plano de Partilha da Palestina, antes apresentado pela organização como sendo um instrumento da aliança do sionismo com o imperialismo para ampliar sua influência e exercer a dominação territorial de uma parte estratégica do Oriente Médio.

Esta posição da OLP encontrou resistência entre os próprios palestinos, mas as forças que se opuseram a tal mudança de posição se encontravam em situação de minoria, e não conseguiram impedir a vitória dessa proposta, que parte de Yasser Arafat e da direção majoritária de seu partido, a al-Fatah. 

Mesmo dentro desse partido surgem posições contrárias as de Arafat, o que prova que precisamos observar, no estudo do caso palestino, as contradições e conflitos não só entre o Estado de Israel e as organizações árabes-palestinas, mas também entre as próprias organizações da resistência palestina.

Os “acordos de paz” firmados com Israel em 1994 alimentam ilusões e ignoram a natureza expansionista/imperialista deste Estado, que negocia e, ao mesmo tempo, faz crescer o número de colônias judias nos territórios palestinos ocupados em 1948 e 1967. 

Além disso, Israel aplica até hoje uma política de assassinatos seletivos de lideranças políticas palestinas, e de perseguição e prisão em massa. Um resultado dessa política de repressão intensa e permanente são os 8 mil presos políticos palestinos, alguns vivendo nos cárceres israelenses há pelo menos 20 anos. Desses 8 mil, mais de 700 estão condenados a prisão perpétua. 

Entre 1993 e 2005, apesar de inúmeras reuniões, conferências e acordos firmados entre a Autoridade Nacional Palestina (ANP) e o governo do Estado de Israel, e apesar das expectativas de uma paz duradoura apresentadas pelo presidente palestino eleito em 1996 com 87% dos votos, Iasser Arafat, o que se viu foi uma continuada violação dos direitos humanos e dos direitos fundamentais do povo palestino, assim como a negação do direito nacional à independência e à soberania, deixando ainda mais distante o sonho do Estado Palestino Laico e Democrático. 

Os dois signatários dos acordos de Oslo de 1993 morreram. Yitzhak Rabin, pelo lado israelense, assassinado por fundamentalistas judeus-sionistas em 1995 e Iasser Arafat, pelo lado palestino, morre em 2004 resultante de problemas de saúde (mas surgem denúncias que afirmam ter sido conseqüência de envenenamento gradativo). 

Esses acordos livraram os palestinos do controle militar israelense em algumas cidades e vilarejos de Gaza e Cisjordânia, criando para a população uma situação melhor do que a anterior, com melhores condições para se desenvolver o comércio, a indústria, a agricultura, educação, a saúde, a cultura e o esporte, enfim, para que seja possível construir/reconstruir uma vida cotidiana com um mínimo de dignidade, mas essa nova situação não resolve plenamente grande parte dos problemas econômicos, sociais e políticos da ampla maioria do povo palestino. 

Os resultados pífios dos acordos e o não cumprimento da quase totalidade dos termos dos mesmos por Israel levam a uma nova situação de impasse que coloca em xeque as posições da direção da OLP e da agora chamada Autoridade Palestina (AP). O não cumprimento de diversas cláusulas dos acordos, entre elas a suspensão da construção de novos assentamentos judeus e da demolição de casas palestinas ajudam a diminuir a credibilidade que parcela do povo palestino depositava na al-Fatah, ainda mais com as constantes denúncias – que muitas vezes são comprovadas – de corrupção de líderes e membros desta organização.

É nessa conjuntura complexa que ganha projeção como uma alternativa política o partido Hamas. A crise política, ideológica e organizativa dificulta a ascensão da esquerda palestina (FPLP, FDLP,PPP e outros) como força majoritária no movimento de libertação nacional. As denúncias de corrupção e de enriquecimento de muitos dos dirigentes demonstram um processo de degeneração em setores importantes da al-Fatah. 

As eleições de 2006 contribuem para acirrar as disputas internas no movimento da resistência palestina, com Hamas vitorioso em Gaza e al-Fatah na Cisjordânia. A esquerda palestina tem procurado convocar todas as forças progressistas, populares, democráticas e socialistas a se unir num grande movimento nacional de resistência para desencadear novamente uma ofensiva contra as medidas do governo de Israel que visam a acelerar o processo de expropriação de terras do povo palestino, mas parece que todo esse esforço ainda tem sido insuficiente para alterar a correlação de forças dentro e fora da OLP. 

Quando do ataque militar israelense a Gaza, entre dezembro de 2008 e janeiro de 2009, essa idéia de unidade nacional das forças da resistência palestina adquiriu grande importância, mas até agora parece que existem muitos fatores que ainda impedem que tal proposta volte a ser transformada em realidade. 

A impressão é que uma unidade política e programática mínima, em torno de alguns pontos de consenso amplamente discutidos com o povo palestino, seria fundamental para tentar se desencadear uma nova ofensiva política, popular e de massas contra o Estado de Israel. 

A ação unitária de forças como a al-Fatah, FPLP, FDLP, PPP, Hamas, Jihad Islâmica e demais organizações e partidos políticos palestinos poderia fazer ressurgir nas amplas massas populares do mundo árabe – e no interior de Gaza, Cisjordânia e Jerusalém – a esperança e a disposição necessárias para uma nova retomada da ofensiva deste que é, sem dúvida, um dos mais importantes movimentos de libertação nacional deste início de século 21. 

O que temos certeza para afirmar é que, por mais justo, combativo, corajoso e coerente que seja um partido ou uma organização da resistência palestina, de maneira isolada não terá capacidade para impor nenhuma derrota contra o sionismo israelense.

Talvez essa unidade entre as três correntes políticas da resistência nacional palestina (nacionalismo laico, nacionalismo islâmico e socialistas/comunistas) possa construir uma frente anti-sionista/antiimperialista que obrigue o Estado de Israel a sentar na mesa de negociação numa outra correlação de forças, fazendo surgir daí as condições mais favoráveis para se apresentar propostas mais ousadas que as atuais, que privilegiam o debate de dois Estados, menosprezando a experiência histórica dos últimos 62 anos que indica que o sionismo não irá recuar um único milímetro em suas conquistas militares de 1948 e 1967.

É possível perceber que sobre este tema existem pelo menos três posições:
Os que defendem a criação imediata de um Estado Palestino Laico e Democrático na chamada Palestina Histórica (em todo o território considerado Palestina antes do Plano de Partilha de 1947): nossa impressão é que tal opinião desconsidera a atual correlação de forças no interior do movimento nacional palestino e entre os palestinos e o Estado de Israel, fazendo de tal proposta mais um instrumento de agitação e propaganda do que uma possibilidade real no momento. É a defesa da estratégia, do objetivo principal a ser atingido sem a mediação das táticas, dos meios e caminhos que levarão até esse objetivo final. E os palestinos sabem que agitação e propaganda são insuficientes para fazer com que triunfem posições que possam levar a profundas transformações econômicas, sociais e políticas naquela região. Organizações nacionalistas islâmicas também defendem tal proposta, com a ressalva de que não se utilizam da expressão Estado Laico, mas simplesmente Estado Palestino.

Os que defendem a posição de dois estados existindo um ao lado do outro, ou seja, o cumprimento do Plano de Partilha da Palestina elaborado pela ONU em 1947. Essa opinião defende que o Estado de Israel já se consolidou, e agora, portanto, é necessário construir o Estado Palestino. Tal posição abandona o programa original da OLP e os princípios que orientaram a resistência palestina de 1947 a 1994. Entre 1993 e 2005 esta tem sido a proposta da al-Fatah e outras organizações palestinas. É o abandono da estratégia, é a transformação do meio em fim;

Os que defendem que é preciso acumular forças no atual período da luta nacional palestina. Que é necessário se organizar melhor para defender e fazer avançar as conquistas já obtidas como resultado das lutas e mobilizações sociais e populares, tentando fortalecer tudo aquilo que tem de positivo nos acordos firmados até agora, criticar e denunciar aquilo que não é de interesse do povo palestino e, ao mesmo tempo, tentar consolidar o controle palestino sobre todo o território de Gaza e da Cisjordânia. Nesse sentido seria importante intensificar as lutas: pela libertação dos presos políticos, pelo direito ao retorno dos refugiados, pela destruição do “Muro da Vergonha”, pelo cumprimento das Resoluções da ONU sobre a Questão Palestina, em especial sobre o estatuto de Jerusalém, pelo direito dos palestinos de resistir à ocupação militar israelense por todos os meios de que dispõem, para barrar as construções de novos assentamentos judeus-sionistas, para impedir as demolições de casas de palestinos, etc. Essa posição política procura fazer destas e outras lutas parte de um processo de acúmulo de forças que vai construindo no cotidiano as condições mais favoráveis para colocar o movimento nacional palestino na direção do rumo estratégico indicado: um Estado Palestino Laico e Democrático em toda a Palestina Histórica.
Muitos líderes históricos do Estado de Israel já manifestaram no passado o objetivo do movimento sionista em conquistar todo o território da Palestina. Alguns pronunciamentos confirmam esta finalidade:

“Jerusalém é o berço do judaísmo e a legítima capital de Israel (...) A partir de hoje, Telavive deixa de ser nossa capital. Jerusalém será sede de nossa nação” – Ben Gurion (foi Primeiro Ministro e Ministro da Defesa de Israel), criticando a Resolução da ONU de 7 de dezembro de 1949, que reafirmava que Jerusalém deveria estar sob o controle desta organização internacional, como previa o Plano de Partilha de 1947 (NIMITZ, 1974, p. 110).

“Eu sou a favor da partilha do país porque quando nós nos tornarmos uma grande potência, depois do estabelecimento do Estado, iremos abolir a partilha e nos espalhar pela Palestina” – Ben Gurion (Gattaz, 2002, p. 104).

“O Estado judeu que agora é oferecido para nós não é o objetivo sionista. Dentro desta área não é possível resolver a questão judaica. Mas pode servir como uma etapa decisiva em direção à implementação do sionismo. Irá consolidar na Palestina, no menor tempo possível, a real força judaica que irá nos levar a nosso objetivo histórico” – Ben Gurion (Idem, 2002, p.104).

“Tal como existe atualmente, Israel é apenas uma parte do ‘Grande Israel’ (Eretz Israel), e a missão sionista permanece incompleta até que Israel recomponha suas ‘fronteiras históricas’ (...) O mapa de Israel precisa ser modificado. Cabe a vocês lutarem sem trégua a fim de estabelecer, por invasão ou diplomacia, o Império de Israel” – Ben Gurion, em discurso para estudantes da Universidade Hebraica (ALENCASTRE, 1968, p. 149 e 150).

“Entre o Mediterrâneo e as fronteiras do Iraque, no que foi outrora a Palestina, existem agora dois países, um judeu e um árabe, e não há espaço para um terceiro. Os palestinos devem encontrar a solução para seu problema junto com aquele país árabe, Jordânia, porque um Estado Palestino entre nós e a Jordânia só pode se tornar uma base da qual será ainda mais conveniente atacar e destruir Israel” – Golda Meir (foi embaixadora de Israel na URSS, Ministra do Trabalho, Ministra das Relações Exteriores e Primeira-Ministra de Israel), demonstrando sua completa oposição à criação de qualquer “Estado Palestino”, inclusive o sugerido pela ONU (MEIR, 1982, p. 299).

“Nosso povo está incumbido de preparar a guerra, e o exército israelense de dirigir o combate com o fim de construir o império israelense” – Mosche Dayan (foi Ministro da Defesa e Ministro das Relações Exteriores de Israel) (ALENCASTRE, 1968, p. 149).

Tais declarações de figuras bastante influentes do movimento sionista demonstram as intenções dos sucessivos governos do Estado de Israel. Orientados por idéias colonialistas e racistas, que acreditam num suposto “povo eleito” para governar toda a Palestina histórica, não fazem concessões quando o tema diz respeito ao direito do retorno dos refugiados palestinos expulsos em 1948 e 1967, ou quando se exige o fim de novos assentamentos judeus em território palestino, ou ainda a desocupação e desmonte de assentamentos que estão em situação irregular e ilegal de acordo com a Resolução 181 da ONU (Plano de Partilha de 1947). 

Impressões de uma viagem à Palestina 

Entre maio e junho deste ano (2010) estive conhecendo várias cidades na Palestina. Junto com Dafne Melo, jornalista do periódico Brasil de Fato, fomos para Telavive, Jerusalém e Haifa, cidades atualmente sob o controle do Estado de Israel, e Ramalá, El-Bireh, Belém, Ni´lin, Bil´in, Beat-Sahour, Hebron e vários vilarejos na Galiléia (Sakhnin, Al Abbasiyah e outras), todas cidades e vilarejos concentrados na Cisjordânia, considerada na atualidade como território palestino com certa autonomia em relação ao Estado de Israel. 

Nossa viagem foi resultado de um processo de diálogo e cooperação com organizações sociais e políticas que defendem o direito do povo palestino de construir seu Estado. 

Fomos convidados para participar da 2ª. Conferência de Haifa (organizada por movimentos da esquerda árabe-israelense e palestina, por intelectuais progressistas e professores e estudantes da Universidade de Haifa e outras instituições acadêmicas). 

As principais resoluções desta conferência foram:
Criar uma comissão para dar seqüência aos debates e encaminhamentos aprovados;

Elaborar um documento final da Conferência;

Organizar a 3ª. Conferência de Haifa em 2011, na Turquia, para facilitar a participação dos refugiados palestinos;

Organizar encontros de solidariedade com o povo palestino em todos os países das delegações presentes, com sugestão de data para a semana do dia 29 de novembro, dia internacional de solidariedade ao povo palestino;

Fortalecer a luta pelo boicote aos produtos israelenses;

Fortalecer a luta contra a manutenção do bloqueio à Gaza;

Fortalecer a luta pela libertação dos presos políticos palestinos;

Defender a constituição de um Estado Palestino Secular e Democrático na Palestina Histórica. Durante o encontro, aproveitamos para conhecer melhor o trabalho de organizações como a União dos Comitês de Trabalhadores Agrícolas, a União dos Comitês de Mulheres Palestinas, o Comitê de Acompanhamento e Apoio aos Presos Políticos, a União dos Comitês de Saúde Palestinos, o Comitê Popular da Comunidade de Silwan (Jerusalém Oriental), o movimento de esquerda árabe-israelense-palestino Abnaa Al Balad Movement (Movimento Filhos da Terra), etc.
Os Palestinos em Jerusalém Oriental: o caso das demolições de casas em al Bustan-Silwan

Em Jerusalém Oriental conhecemos a comunidade de al Bustan-Silwan. Neste bairro, onde vivem 50 mil pessoas, a prefeitura iniciou um movimento de demolições de casas com o argumento de que por ali andava, no passado, o Rei Davi e, por isso, o governo e a prefeitura estão emitindo ordens de despejo e demolição de casas para a construção do Parque Rei Davi. 

Cerca de mais de 20 casas já foram demolidas, mas no projeto que tem serão pelo menos 88 moradias, de famílias que vivem lá desde antes de 1948. Vimos uma casa que foi construída em 1850. Serão prejudicadas por esse projeto cerca de 1500 pessoas. Visitamos a sede do Comitê Popular de Silwan, instrumento de organização da resistência popular, com militantes de diferentes organizações e experiências de luta. 

É uma ferramenta que está sendo construída em várias cidades e comunidades palestinas: os Comitês Populares. Na sede do comitê as faixas dizem: “Não vamos a lugar nenhum, continuaremos em Al-Bustan!”, “Não à judaicização, não à indenização!”, “Por nossa vida, lutaremos por nossa terra, símbolo de nossa dignidade e nosso orgulho!”. 

Segundo a prefeitura, todo o bairro é ilegal, apesar dos moradores apresentarem testemunhos e documentos comprovando que suas famílias vivem ali desde antes de 1948. A prefeitura tem um plano, Plano 20-20, para “limpar” Jerusalém dos palestinos-árabes-muçulmanos. É o que na atualidade as organizações de direitos humanos chamam de política deliberada de “judaicização de Jerusalém”.

O Comitê Popular não é contra judeus, nem contra parques, dizem as lideranças. Só querem viver em paz com suas famílias. Falaram das conseqüências sociais, humanas, econômicas e psicológicas que as demolições trazem para as pessoas.

A maioria das pessoas só tem como patrimônio suas casas. Procuram melhorar suas condições de moradia, reformam e ampliam suas casas e, depois, vem o oficial de justiça, o funcionário da prefeitura, com apoio da polícia e do exército, e expulsam as famílias, dão o prazo de 48 horas para a família sair da casa. 

As crianças crescem nesse ambiente de destruição, de repressão, de conflito, e crescem se perguntando “por que os judeus querem nos expulsar? Expulsaram meus avós, e agora querem expulsar meus pais?”. 

No dia que estávamos lá as crianças e jovens tinham acabado de entrar em confronto com a polícia, e o bairro estava cercado por barricadas da resistência popular de Silwan. Foi impressionante ver a participação ativa e organizada das crianças e jovens, com o apoio dos pais e familiares, que incentivam a participação política deles nas lutas sociais por terra e pela independência. Percebemos que na Palestina é um orgulho para uma mãe ou para um pai ver seu filho participando e se destacando nas lutas populares contra a ocupação militar sionista.

Conversamos com moradores desse bairro que relataram que não podem sair de Jerusalém Oriental, que estão presos nessa região, pois não tem autorização para ir até o outro lado da cidade, não podem ir rezar na Mesquita de al-Aqsa, por exemplo, um dos templos mais sagrado do islamismo. 

Eles podem até ver o lado Ocidental de Jerusalém, e até olhar à distância para a Esplanada das Mesquitas, mas não podem entrar lá. Vivem a poucos minutos da cidade velha, mas não podem circular por lá. A prefeitura vive reafirmando que o bairro é ilegal, mas cobra impostos dos moradores pelo tamanho da casa. 

Essa insegurança e incerteza permanentes, sobre a possibilidade de sua casa ser destruída, tem um grave efeito psicológico, pois ninguém pode viajar, ninguém quer se ausentar por dois dias ou mais, com medo de que, quando retorne, sua casa esteja demolida. 

Um morador nos relatou um caso concreto: um aluno muito estudioso começou a diminuir seu rendimento escolar, começou a ficar desanimado, perdeu o interesse pelo estudo. Um dia o pai foi chamado à escola, e a professora disse que encontrou na bolsa do aluno vários brinquedos e jogos, que ele levava todos os dias para escola. 

O pai chegou em casa e foi conversar com seu filho, perguntou o por que estava levando jogos/brinquedos para a escola? A criança respondeu que ouviu os pais falando que receberam uma intimação e que poderiam destruir sua casa a qualquer momento, e o menino entrou em pânico, ficou preocupado/angustiado, com medo, e disse que levava os brinquedos para que não fossem destruídos pelos tratores. 

Outra situação que se repete no bairro é o seqüestro de crianças pela polícia. Como este bairro se tornou um exemplo de luta e resistência, a polícia iniciou um processo de prisão/seqüestro de crianças e jovens, que gerou pânico e indignação entre as famílias. 

Os carros de polícia andam pelo bairro, pegam um jovem, levam para a delegacia, fazem um interrogatório, intimidam, querem nomes de lideranças, de organizações, pressionam, fazem uma tortura psicológica num primeiro momento, aí este jovem já fica conhecido, se for pego mais uma vez, pode ser indiciado, ser processado, ficar na cadeia. 

Muitos jovens desta comunidade são presos políticos. Alguns não ficam na cadeia, mas são monitorados e ficam em prisão domiciliar. Ouvimos também depoimentos de familiares de uma criança de 10 anos, um menino, que já havia sido preso pela polícia 3 vezes.

Nas terras palestinas da Galiléia: ocupação militar, demolição de casas e construção de novos assentamentos judeus

No dia 30 de maio fizemos uma viagem por várias comunidades na Galiléia, por terras onde as famílias palestinas foram expulsas entre 1948 e 1967. Fomos até a cidade de Sakhnin, onde conhecemos uma obra do artista plástico Gershon Knispel (que atualmente vive no Brasil) num cemitério muçulmano, em homenagem aos mártires que foram assassinados por Israel durante a Intifada Palestina (rebelião popular, “o levante”). 

Fomos acompanhados por Ali Zbeidat, membro do Comitê Popular, uma ferramenta de luta e de organização da comunidade onde participam militantes de várias organizações palestinas. Sua casa está sob ameaça de demolição. Várias famílias já foram várias vezes advertidas pela polícia e muitos de seus membros presos por resistirem à ordem de demolição. 

Com o apoio da comunidade, Ali e sua família se mantém no local onde viveram seus pais e avós. A comunidade está sendo sitiada/cercada por assentamentos judeus ilegais, pois o governo de Israel assumiu o compromisso com a comunidade internacional de não expandir determinadas áreas de assentamento, mas tal medida não vem sendo cumprida. 

Observamos muitas obras de expansão, muitas máquinas e novas construções de assentamentos, avançando à toda velocidade contra terras palestinas. Também visitamos uma vila árabe-palestina destruída em 1948, al Abbasiyah, onde o povo foi sendo expulso e assassinado por terroristas da Haganá (organização terrorista sionista-judaica), que explodiram todas as casas do vilarejo. 

O povo que ficou na região foi tentando resistir, mas em 1967 aumenta a repressão contra esse vilarejo, chegando ao ponto de fecharem a Mesquita e proibir os palestinos de rezar. Várias manifestações foram feitas para garantir o direito de rezarem nessa Mesquita, mas foram reprimidas. 

Além disso, como forma de “estimular” a migração da população palestina que vivia em al Abbasiyah, o exército israelense destruiu toda a plantação de oliveiras, arrancando as árvores com as raízes e plantando no lugar onde antes era o vilarejo com as oliveiras eucalipto e pinus, duas árvores que destroem toda a biodiversidade do local onde são plantadas. 

A Mesquita foi fechada, com cimento nas portas e janelas, com arame farpado e uma grade em torno dela, para impedir a entrada de pessoas. E toda a área do vilarejo pertence hoje a uma colônia judaica/ a um assentamento sionista. 

Na Galiléia também visitamos um acampamento de beduínos, que virou um vilarejo no alto de um vale, onde vivem cerca de 100 famílias, bem em frente a um assentamento judeu-sionista em expansão. Muitos se dedicam à agricultura e à pecuária (criação de cabras), ou procuram trabalho na cidade mais próxima (Sakhnin).

Em Hebron (al-Khalil): palestinos proibidos de visitar o túmulo de parentes num cemitério muçulmano na cidade velha

Hebron (al-Khalil em árabe) existe há 4 mil anos. Possui cerca de 167 mil habitantes, entre árabes e judeus. A cidade foi ocupada por tropas israelenses em 1967, e assim teve início a construção de assentamentos judeus-sionistas. 

Em 1994, enquanto ocorriam as negociações de paz entre a OLP, colonos judeus-sionistas dos assentamentos invadiram a Mesquita de Abraão e atiraram no povo, dentro da Mesquita, enquanto todos rezavam. 

Dezenas de palestinos foram mortos neste dia. Na Mesquita de Abraão tomamos contato direto com um símbolo e um exemplo da tolerância muçulmana diante de outras religiões, pois visitamos a “Tumba de Abraão”, onde estão os restos mortais do profeta que foi o fundador da religião judaica. 

Para nossa surpresa, este monumento sagrado dos judeus foi preservado e protegido pelos palestinos durante a expansão do islamismo na região. Quem cuida e preserva esse patrimônio histórico-cultural são árabes-palestinos muçulmanos. 

Durante a visita a esta cidade vivemos uma situação de causar indignação. Fomos andando pela parte mais antiga de Hebron. Chegamos num determinado local e o palestino que nos acompanhava disse: “Sigam por ali, entrem no bairro onde está hoje um assentamento judeu e nos encontramos do outro lado”. 

Seus familiares vivem há séculos na cidade, mas ele não pode ir para o outro lado da cidade por aquele caminho, tomado por tropas israelenses em 1967. É uma rua que começa com muito movimento e comércio, muita gente andando tranquilamente com suas famílias, como em qualquer cidade do mundo. 

Então andamos uns 150 metros adiante e vemos um check-point (posto de controle) do exército de Israel, dentro do centro da cidade, que faz parte do território palestino da Cisjordânia. A rua vai ficando vazia. Os soldados exigem documentos, revistam bolsas e pessoas, impedem a livre circulação, por determinação do governo do Estado de Israel. 

Muitos militares patrulham essa “fronteira” que separa o lado árabe-palestino do lado judeu-sionista da cidade velha de Hebron. Somos atentamente observados e acompanhados pela patrulha. Entramos no território onde hoje está o assentamento judeu-sionista. Andamos uns 500 metros e nos deparamos com um cemitério árabe-muçulmano abandonado, praticamente destruído após a ocupação militar israelense de 1967. 

Desde essa data cidadãos palestinos de Hebron não podem mais visitar seus parentes enterrados neste cemitério. Neste lado controlado por soldados e por colonos armados vivem cerca de 500 famílias judias, onde antes viviam cerca de 5 mil famílias palestinas. 

Parecia uma cidade fantasma. Vazia, com casas e lojas fechadas, abandonadas, destruídas. Desde 1967, nesta parte da cidade, qualquer família judia têm autorização de ocupar qualquer casa ou comércio que ainda esteja vazio. Detalhe: casas e comércio nessa área são de propriedade dos palestinos, que foram expulsos em 1967 e nunca nem forem indenizados pelo governo israelense.

O bloqueio econômico e militar de Israel contra Gaza: mais uma violação dos Acordos de Paz e das Resoluções da ONU

Gaza é uma região onde vivem aproximadamente 1,5 milhões de pessoas, e se encontra numa situação difícil, pois é controlada militarmente por Israel. O Exército impõe um bloqueio econômico. Os soldados israelenses impedem a chegada de alimentos, remédios, mantimentos, materiais para infra-estrutura e controla Gaza por céu, terra e mar. 

Sufocam economicamente Gaza, tentam matar de fome os palestinos. Mas a impressão que temos é que essa postura ofensiva e agressiva de Israel só tem feito aumentar a solidariedade internacional com o povo palestino. 

A violência do Estado de Israel acabou obrigando que os palestinos desenvolvessem uma economia auto-sustentável. Nos territórios palestinos existe uma série de pequenas indústrias, comércios, pequena agricultura se desenvolvendo, tanto em Gaza como na Cisjordânia. 

São iniciativas para minimizar o sofrimento da população e tentar produzir o máximo de mercadorias dentro do seu território, para depender o menos possível de Israel e da importação de produtos dos países árabes.

Durante nossa viagem um grupo de internacionalistas vindos da Turquia, com uma pequena frota de barcos conhecida como “Frota da Liberdade”, que traziam remédios, alimentos e brinquedos, tentavam entrar no litoral de Gaza, território autônomo palestino desde 1994, após os acordos de paz firmados entre o governo israelense e a Autoridade Nacional Palestina. 

Composta por três navios que levavam 750 ativistas e três outros com 10 mil toneladas de carga para Gaza, foram interceptados em águas internacionais. Imagens e relatos de testemunhas mostraram a violência e intolerância dos soldados israelenses, que atiraram contra civis desarmados de dentro dos helicópteros e dos barcos que usavam para reprimir a missão humanitária de apoio ao povo de Gaza. 

Quando fizeram a abordagem e ingressaram no interior dos navios, novos disparos foram vistos e ouvidos por testemunhas que estavam a bordo.

Segundo a ONU, Israel não poderia impedir a livre circulação de pessoas e/ou mercadorias nessa região, já que não existe nenhuma lei ou resolução que permita que o Estado de Israel exerça o controle militar do litoral de Gaza. 

O ataque das Forças Armadas israelenses à frota humanitária que levaria ajuda aos palestinos da Faixa de Gaza só explicitou mais uma vez a desobediência e o completo menosprezo dos sucessivos governos de Israel perante todas as resoluções da ONU relacionadas a este conflito e perante todos os tratados inspirados nos princípios do Direito Internacional Humanitário. 

Fica evidente, mais uma vez, a absoluta falta de compromisso e de interesse do governo israelense com uma solução política, pacífica e diplomática para a Questão Palestina. 

Também a repressão contra os barcos que tentam entrar e sair desse território palestino se constitui em mais uma ação arbitrária e ilegal por parte das autoridades militares israelenses. Em 30 de maio uma operação das forças armadas de Israel contra os barcos que se dirigiam à Gaza resultou no assassinato de 9 pessoas, além de 16 feridos e vários presos. 

Tentamos entrar em Gaza, mas o rigoroso e ilegal controle militar israelense nos impediu de cumprir esse objetivo humanitário, pois nossa intenção era ver com os próprios olhos a destruição e o massacre promovido por Israel contra a população civil, que vem sofrendo inúmeras privações desde a última grande ofensiva militar israelense, entre dezembro de 2008 e janeiro de 2009. 

O fracasso dos Estados Unidos e da União Européia (UE) nas negociações de paz e a necessidade de novos interlocutores no cenário internacional

Enquanto EUA e UE estiverem no comando das negociações de paz entre palestinos e governo de Israel não existe possibilidade alguma de uma paz justa e da construção do Estado Palestino, pois eles representam os interesses do imperialismo e do sionismo, são os mais interessados na divisão de todos os povos que hoje vivem no chamado Oriente Médio e no mundo árabe-muçulmano. 

As potências imperialistas que sempre trouxeram dor e sofrimento para os povos daquela região estão incapacitadas de dar uma resposta progressista e humanitária à Questão Palestina.

É urgente construir uma articulação internacional que passe pelo Movimento dos Países Não-Alinhados, pela Liga dos Estados Árabes (Liga Árabe), pela União Africana, pela União das Nações Sul-Americanas (UNASUL), pela Alternativa Bolivariana dos Povos da América – Tratado de Cooperação entre os Povos (ALBA-TCP) e pela Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos – CELAC, pois assim é possível tentar formar um grupo de países mais sensíveis aos problemas do povo palestino. 

Não podemos mais permitir que os representantes do colonialismo/imperialismo, responsáveis pelos conflitos e guerras que ocorreram - ou que ainda ocorrem – na região do Oriente Médio sejam os mesmos que vão ter o direito de continuar intervindo em questões fundamentais relacionadas aos direitos inalienáveis do povo palestino. 

É de causar indignação ver os símbolos dos EUA e da UE em projetos sociais e escolas dos territórios palestinos, pois os mesmos que hoje enviam alguns punhados de dólares e euros como forma de compensar a destruição causada por 62 anos de ocupação militar sionista, são os que nunca tiveram vontade ou coragem para barrar a máquina assassina israelense, que continua ceifando vidas de crianças e civis todos os dias, desfrutando de uma impunidade e de uma cumplicidade dos governos imperialistas e da ONU, que só sabe redigir Resoluções que nunca saem do papel, a não ser que seja contra países como Irã e Coréia do Norte. 

Que o povo palestino possa construir nos próximos anos uma gigantesca e poderosa força social e política de massas, capaz de traduzir a justiça de sua causa e de unir todos aqueles movimentos e organizações que são as legítimas representantes das aspirações nacionais e sociais dos trabalhadores e trabalhadoras desta pátria que um dia há de ser verdadeiramente livre, independente e soberana. 



Notas:

Um livro interessante sobre a influência do sionismo na cultura e nas idéias é “A indústria do Holocausto – Reflexões sobre a exploração do sofrimento dos judeus”, do intelectual de origem judaica Norman Finkelstein (Editora Record).

O Movimento dos Países Não-Alinhados é resultado da Conferência de Bandung, que ocorreu em 1955 na Indonésia. É um agrupamento de países que se uniram para defender o respeito à soberania, à autodeterminação das nações e a defesa de uma política externa independente, sem se submeter às imposições da URSS ou dos EUA, potências que disputavam o controle do mundo durante a Guerra Fria (1945-1991). Se reunem em torno deste movimento aproximadamente 115 países dos diferentes continentes.

Criada em 1945 no Cairo, Egito, a Liga Árabe congrega 22 países, e tem se posicionado sempre favoravelmente à criação de um Estado Palestino.

O nasserismo é uma corrente política que expressa as posições de um nacionalismo laico, inspirado no exemplo e nas idéias de Gamal Abdel Nasser (1918-1970), que foi presidente do Egito entre 1954 e 1970.

Destacamos a Union of Agricultural Work Committees (UAWC), a Palestinian Progressive Youth Union (PPYU), a Union of Palestinian Women Committees (UPWC), a Defence for Children Internatinal - Palestine Section, a ADDAMEER-Prisioners Support and Human Rights Association, o Palestinian Centre for Human Rights, etc.

Sobre este tema do apartheid, sugerimos o livro “O apartheid de Israel”, do jornalista de origem judaica Nathaniel Braia (Editora Alfa-Ômega).



Bibliografia:

ALENCASTRE, Amílcar (1968). O desafio de Israel, Rio de Janeiro, Editora Leitura.
ARAFAT, Yasser e outros(2007). Soberania e Autodeterminação – A luta na ONU: discursos históricos, São Paulo, Expressão Popular.
BRAIA, Nathaniel (2002). O Apartheid de Israel – Racismo, agressão e usurpação: os focos do conflito atual, São Paulo, Alfa-Ômega.
GATTAZ, André (2002). A Guerra da Palestina – Da criação do Estado de Israel à Nova Intifada, São Paulo, Usina do Livro.
HERZL, Theodor (1998). O Estado Judeu, Rio de Janeiro, Garamond.
NIMITZ, Oscar (1974). Ben Gurion, Rio de Janeiro, Editora Três.
MEIR, Golda (1974). Minha Vida, Rio de Janeiro, Bloch Editores.

Artigo publicado na Revista de Ensaios dos Cursos de Relações Internacionais e Economia – RECRIE, n. 01, dezembro/2010, Centro Universitário Fundação Santo André-CUFSA/Editora Porto de Idéias.


Marcelo Buzetto, diretor de Relações Internacional do MST. Doutor em Ciências Sociais pela PUC/SP, professor no curso de Relações Internacionais do Centro Universitário Fundação Santo André (CUFSA), professor da Escola Nacional Florestan Fernandes, coordenador do Núcleo de Estudos Latino-Americanos (NELAM/CUFSA).



Fonte: Nova Cultura




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