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sábado, 5 de dezembro de 2015

O iminente colapso do Brasil e da América Latina

O iminente colapso do Brasil e da América Latina 
por Alejandro Acosta


"As economias dos países latino-americanos se encontram sufocadas pelo parasitismo imposto pelos monopólios. Um dos principais mecanismos da espoliação é o pagamento da ultra parasitária e corrupta dívida pública, que hoje consome mais de 45% do orçamento público federal."

"O sistema capitalista mundial se encontra num beco sem saída. A cada nova crise ganha uma nova ponte safena. E para o próximo período está colocado um colapso de ainda maiores proporções. Esta é a base que colocará em movimento a classe operária mundial, o agente social que tem como tarefa histórica derrubar o capitalismo, implantar a propriedade social sobre os meios de produção e acabar de vez com a exploração do homem pelo homem."

A Reserva Federal (banco central) norte-americana deverá aumentar os juros em dezembro ou, no máximo, em março, deixando para trás o longo período de taxas de juros a quase 0%.

EUA: as altas taxas dos juros

Desde 2007, a Reserva Federal aumentou os títulos podres que possui de US$ 1 trilhão para mais de US$ 4,5 trilhões e apenas US$ 57 bilhões nos chamados ativos não podres (“equities”) que são títulos financeiros que poderão se tornar podres no próximo período. Para salvar os monopólios da bancarrota, o Estado lhes repassou enormes volumes de recursos públicos. Por meio do chamado quantitative easing (ou alívio quantitativo) a Reserva Federal comprou trilhões em títulos altamente podres pelo valor cheio. De acordo com o relatório de uma comissão do Congresso dos Estados Unidos, somente entre 2007 e 2010 foram repassados US$ 16 trilhões. De lá para cá, os repasses têm sido gigantescos.

Um novo mercado de títulos podres cresceu a partir de 2008, movimentando volumes que chegaram a superar os US$ 7 trilhões, com taxas de lucros que bateram nos 15%. Conforme os mecanismos de contenção da crise de 2008 se enfraqueceram, a partir de 2012, as taxas de lucro caíram para os menos de 4% atuais, em grande medida impactadas pela política da Reserva Federal de comprar esses títulos em grandes volumes.

Para o próximo período, está colocado um colapso capitalista de proporções ainda maiores que o colapso de 2008. Enorme volumes de capitais fictícios deverão se tornar pó e entrar no mercado dos títulos podres. Esses são os fatores que estão por trás da pressão da alta dos juros, independentemente da cortina de fumaça criada pela imprensa burguesa. Não há recuperação da economia e muito menos a recuperação do emprego. O que há é o maior parasitismo da história mundial.

O impacto da alta dos juros sobre o Brasil

Uma vez as taxas de juros aumentando nos Estados Unidos, o Brasil será impactado em cheio imediatamente, assim como acontecerá nos demais países latino-americanos. O capital procura o lucro, e a volatilidade se torna ainda maior quanto mais especulativo esses capitais sejam.

Com a alta dos juros, haverá um fluxo de capitais na direção dos Estados Unidos buscando o porto seguro da dívida pública. A perda do grau de investimento pelo Brasil, os problemas com os “fundos abutres” na Argentina, a crise do orçamento público na Venezuela, farão com que os capitais pressionem por maiores taxas de lucro para emprestarem para esses governos pagarem as respectivas e ultra parasitarias dívidas públicas.

As economias dos países latino-americanos se encontram sufocadas pelo parasitismo imposto pelos monopólios. Um dos principais mecanismos da espoliação é o pagamento da ultra parasitária e corrupta dívida pública, que hoje consome mais de 45% do orçamento público federal.

Colaterais, mercado de recompras e a especulação financeira

A política das taxas de juros se encontra submetida à especulação financeira, que hoje representa o grosso do capitalismo mundial por causa da escalada do parasitismo, principalmente a partir do esgotamento do chamado “neoliberalismo”.

A compra e venda de títulos financeiros, empacotados a partir de várias fontes especulativas, está na base dos nefastos derivativos financeiros que hoje movimentam em torno de 15 vezes o volume total da economia real mundial, que já é muito parasitária. Sobre esses derivativos financeiros se estabelecem apostas e contra-apostas, sobre as quais são instrumentados seguros, fianças e outros mecanismos para garantir os lucros dos grandes capitalistas. Esses mecanismos transformaram o mundo numa espécie de casino, ou “Banco Imobiliário”, onde os especuladores sempre quebram, mas sempre ganham, pois vivem dos repasses de recursos públicos. Hoje nenhuma grande empresa dá lucro. Os lucros têm como origem as divisões financeiras, principalmente.

Quando em 2008 quebrou a AIG, a maior aseguradora do mundo, eram justamente esses tipos de operações de aposta e contra-apostas que ela assegurava. Todos os mecanismos que levaram ao colapso de 2008 se encontram hoje mais ativos do que nunca e os Estados burgueses, por sua vez, se encontram muito mais endividados e enfraquecidos por causa dos trilhões que repassaram para resgatar os monopólios.

As fianças das operações especulativas, ou “colaterais”, contam com as recompras (“repos”) ou os colaterais de câmbio, como os títulos do Tesouro norte-americano, os títulos hipotecários (financiamento imobiliário), os títulos das dívidas das empresas e outros títulos financeiros de diversos tipos (“equities”).

Os grandes fornecedores de colaterais são os fundos hedge, as asseguradoras, os fundos de pensão, os bancos centrais e os fundos relacionados às reservas soberanas. A taxa de recompra desses títulos financeiros colaterais é um indicador da “saúde” do mercado e evolui em linha com a taxa dos fundos federais.

Em 2007, o mercado de títulos colaterais alcançou os US$ 10 trilhões. Hoje soma aproximadamente US$ 6 trilhões, mas somente a Reserva Federal acumula em torno de US$ 5 trilhões, além de que, para o próximo período, se espera o rebaixamento das qualificações dos títulos das grandes empresas e, portanto, a disparada desse mercado, os chamados “high yields”, ou títulos podres. Se a taxa de juros não for aumentada, a única maneira de salvar os lucros dos monopólios será manter os programas quantitative easing, o que aumentará os volumes de capital fictício detidos pelo banco central, elevando o chamado “alavancamento” e a necessidade de “imprimir” maiores volumes de dinheiro para lhes repassar. Essa política somente pode conduzir à hiperinflação nas condições de paralisia industrial.

Os mecanismos que o governo tenta usar para evitar a disparada da inflação não passam de medidas monetaristas ultra limitadas. Uma delas passa pela expansão do programa de “recompras reversas”, que hoje já movimenta US$ 300 bilhões diários. Este programa tenta atrair dinheiro de fora dos grandes bancos, como os fundos, mas está longe de conseguir a redução do volume de capital fictício acumulado pela Reserva Federal. Outra política é o aumento das vendas de títulos públicos que são usados como colaterais. Quem compra esses títulos, além da Reserva Federal, são, principalmente, a China, a Arábia Saudita, a Rússia e o Brasil. O problema é que a base da ditadura mundial do dólar está se enfraquecendo, o que aumenta a dificuldade para repassar a crise dos Estados Unidos para o mundo.

O sistema capitalista mundial se encontra num beco sem saída. A cada nova crise ganha uma nova ponte safena. E para o próximo período está colocado um colapso de ainda maiores proporções. Esta é a base que colocará em movimento a classe operária mundial, o agente social que tem como tarefa histórica derrubar o capitalismo, implantar a propriedade social sobre os meios de produção e acabar de vez com a exploração do homem pelo homem.




Alejandro Acosta é cientista social, colaborador do Diário Liberdade e escreve para seu blog pessoal.



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