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sábado, 26 de dezembro de 2015

Chomsky desnuda a “Guerra ao Terror”

Chomsky desnuda a “Guerra ao Terror”
por “C.J. Polychroniou, em Truthout ”


"O alvo da guerra de Bush era a Al-Qaeda. Uma série de intevenções militares — no Afeganistão, Iraque, Líbia, entre outros – conseguiu difundir o terror jihadista, antes restrito a uma pequena área tribal no Afeganistão, a praticamente todo o mundo, do oeste da África ao Oriente Médio e seguindo até o sudeste da Ásia. Foi um dos feitos políticos mais notáveis da História… Paralelamente, a Al-Qaeda foi substituída por elementos muito mais cruéis e destrutivos. Atualmente, o ISIS (Estado Islâmico) é o recordista em brutalidades monstruosas, mas os outros candidatos ao título não ficam muito atrás. Essa dinâmica, que vem já de vários anos, foi estudada em um importante trabalho do analista militar Andrew Cockburn, em seu livro Kill Chain [“Cadeia de Mortes”]. Ele documenta como, ao matar um líder sem resolver a raiz e as causas do fenômeno, essa figura costuma ser substituída muito rapidamente por alguém mais jovem, mais competente e mais cruel."

A “guerra ao terror” agora se transformou em uma implacável campanha bélica global. 

Enquanto isso, as verdadeiras causas do surgimento e da expansão de organizações assassinas como o ISIS continuam sendo convenientemente ignoradas.

Após o massacre de Paris, em novembro, importantes países ocidentais, como França e Alemanha, estão se unindo aos Estados Unidos na luta contra o terrorismo fundamentalista islâmico. A Rússia também se prontificou a se juntar ao clube, por ter suas próprias preocupações quanto à propagação do fundamentalismo islâmico. Na verdade, os russos vêm travando sua própria “guerra ao terror” desde o colapso do Estado soviético. 

Paralelamente, alguns dos fortes aliados dos EUA, como a Arábia Saudita, o Catar e a Turquia, estão apoiando direta ou indiretamente o ISIS, porém esta realidade também é convenientemente ignorada pelas forças ocidentais que combatem o terrorismo internacional. Só a Rússia ousou recentemente classificar a Turquia de “cúmplice dos terroristas” por ter abatido um caça russo que teria violado o seu espaço aéreo. (Vale lembrar que os caças turcos violam o espaço aéreo grego frequentemente há anos: 2.244 vezes somente em 2014.)

A “guerra ao terror” faz sentido? É uma política eficaz? E qual é a diferença entre a sua fase atual e as duas anteriores, ocorridas durante os mandatos de Ronald Reagan e George W. Bush? Além disso, quem realmente se beneficia com a “guerra ao terror”? E qual é a relação entre o complexo militar-industrial americano e a produção da guerra? 

Noam Chomsky, crítico mundialmente renomado à política externa dos Estados Unidos, expôs seus pontos de vista sobre essas questões em uma entrevista exclusiva com C.J. Polychroniou.

Obrigado por conceder esta entrevista. Gostaria de começar escutando sua opinião sobre os últimos acontecimentos na guerra contra o terrorismo, uma política que vem desde os anos do governo Reagan e que foi transformada subsequentemente em uma doutrina de “cruzada” [islamofóbica] por George W. Bush, com um custo inestimável de vidas inocentes e efeitos profundos no direito internacional e na paz mundial. A guerra contra o terrorismo parece estar iniciando uma fase nova e talvez mais perigosa, à medida que outros países entram na briga com agendas e interesses políticos distintos daqueles dos EUA e de alguns de seus aliados. Em primeiro lugar, você concorda com essa avaliação da evolução da guerra contra o terrorismo e, se sim, quais são as prováveis consequências econômicas, sociais e políticas de uma guerra global e permanente ao terror, especialmente para as sociedades ocidentais? 

Noam Chomsky: As duas fases da “guerra ao terror” são bem diferentes, exceto em um aspecto crucial. A guerra de Reagan degenerou rapidamente em conflitos terroristas e homicidas, e essa é precisamente a razão pela qual foi “desaparecida”. Suas guerras terroristas tiveram consequências terríveis na América Central, no sul da África e no Oriente Médio. A América Central, o alvo mais direto, até hoje não se recuperou, e essa é uma das principais razões – raramente mencionada – para a atual crise de refugiados. O mesmo vale para a segunda fase, redeclarada por George W. Bush 20 anos depois, em 2001. Os ataques diretos devastaram grandes regiões e o terror tomou novas formas, especialmente com a campanha global de execuções (com drones) de Obama, que rompe novos recordes nos anais do terrorismo e — assim como outros exercícios similares — provavelmente mais gera terroristas devotos do que mata suspeitos.

A opinião pública mundial vê os Estados Unidos como a maior ameaça à paz por uma ampla margem.

O alvo da guerra de Bush era a Al-Qaeda. Uma série de intevenções militares — no Afeganistão, Iraque, Líbia, entre outros – conseguiu difundir o terror jihadista, antes restrito a uma pequena área tribal no Afeganistão, a praticamente todo o mundo, do oeste da África ao Oriente Médio e seguindo até o sudeste da Ásia. Foi um dos feitos políticos mais notáveis da História… Paralelamente, a Al-Qaeda foi substituída por elementos muito mais cruéis e destrutivos. Atualmente, o ISIS (Estado Islâmico) é o recordista em brutalidades monstruosas, mas os outros candidatos ao título não ficam muito atrás. Essa dinâmica, que vem já de vários anos, foi estudada em um importante trabalho do analista militar Andrew Cockburn, em seu livro Kill Chain [“Cadeia de Mortes”]. Ele documenta como, ao matar um líder sem resolver a raiz e as causas do fenômeno, essa figura costuma ser substituída muito rapidamente por alguém mais jovem, mais competente e mais cruel.

Uma das consequências dessas façanhas é que a opinião pública mundial vê os EUA como a maior ameaça à paz por uma ampla margem. Muito atrás, em segundo lugar, está o Paquistão, provavelmente engrandecido pela opinião dos indianos. Outros acontecimentos desse tipo já registrados podem até mesmo criar uma guerra mais generalizada com um mundo islâmico inflamado, enquanto as sociedades ocidentais se sujeitam à repressão interna e à redução dos seus direitos civis e se colocam sob o fardo de enormes gastos, realizando assim os maiores sonhos de Osama Bin Laden e agora do ISIS.

Nas discussões sobre as políticas norte-americanas relacionadas à “guerra ao terror”, a diferença entre as operações oficiais e as operações clandestinas quase desapareceu. Enquanto isso, a identificação de grupos terroristas e a seleção de atores ou Estados que apoiam o terrorismo não só parece ser totalmente arbitrária; em alguns casos, os acusados identificados questionam se a “guerra ao terror” é realmente uma guerra contra o terrorismo ou se, na verdade, é uma cortina de fumaça para justificar políticas de conquista global. Por exemplo, embora a Al-Qaeda e o ISIS sejam indiscutivelmente organizações terroristas e assassinas, o fato de que alguns aliados dos EUA, como a Arábia Saudita e o Catar, e até mesmo países-membros da OTAN, como a Turquia, tenham apoiado ativamente o grupo é ignorado ou muito minimizado tanto pelos decisores políticos quanto pela grande mídia dos EUA. O que você opina sobre isso?

Tudo isso também se aplica às versões de Reagan e Bush da “guerra ao terror”. Para Reagan foi um pretexto para intervir na América Central, no que o bispo salvadorenho Rivera y Damas, sucessor do arcebispo assassinado Oscar Romero, descreveu como “uma guerra de extermínio e genocídio contra uma população civil indefesa”. Foi ainda pior na Guatemala e muito grave em Honduras. A Nicarágua era o único país que contava com um exército para se defender dos terroristas de Reagan; nos outros países, as próprias forças de segurança pública eram os terroristas.

No sul da África, a “guerra ao terror” foi o pretexto para apoiar crimes do regime de Pretória em seu país e no resto da região, com um saldo de vítimas terrível. Afinal, tínhamos que defender a civilização contra o que chamávamos de “um dos principais grupos terroristas” do mundo, o Congresso Nacional Africano de Nelson Mandela… O próprio Mandela permaneceu até 2008 na lista de terroristas criada pelos EUA. No Oriente Médio, o conceito de “guerra ao terror” levou ao apoio à invasão assassina do Líbano por Israel e muito mais. Com Bush, foi o pretexto para invadir o Iraque. E assim por diante.

O que está acontecendo na “história de horror síria” é indescritível. As principais forças de oposição ao ISIS em terra parecem ser os curdos, assim como no Iraque, onde figuram na tal lista americana de terroristas. Em ambos os países, eles são o principal alvo dos ataques da aliada norte-americana da OTAN, a Turquia, que também apoia a célula da Al-Qaeda na Síria, a Frente Al-Nusra. Isso tudo parece ser quase igual para o ISIS, embora eles estejam empreendendo uma disputa de território. O apoio dos turcos à Al-Nusra é tão extremo que, quando o Pentágono enviou algumas dezenas de soldados que havia treinado, a Turquia teria alertado a Al-Nusra, que os aniquilou instantaneamente. A Al-Nusra e seu íntimo aliado, o Ahrar al-Sham, também recebem apoio da Arábia Saudita e do Catar, aliados dos EUA, e, ao que parece, é possível que estejam recebendo armamento de última geração da CIA. Há registros de que eles usaram armas antitanque TOW, fornecidas pela agência norte-americana de inteligência, para causar importantes derrotas ao exército de Assad, possivelmente incitando os russos a intervirem. Além disso, a Turquia parece continuar permitindo que os jihdistas transitem por suas fronteiras com a Síria.

A Arábia Saudita, particularmente, é uma das maiores apoiadoras dos movimentos jihadistas extremistas há anos, não só financiando-os, mas também difundindo suas doutrinas islâmicas radicais com escolas corânicas, mesquitas e clérigos wahhabistas. Com muita imparcialidade, Patrick Cockburn descreve a “wahhabização” do islamismo sunita como um dos aspectos mais perigosos desta era. A Arábia Saudita e os Emirados têm forças militares imensas e sofisticadas, porém quase não se envolvem na guerra contra o ISIS. Atuam no Iêmen, onde estão gerando uma enorme catástrofe humanitária e, muito provavelmente, como dito antes, estão gerando futuros terroristas para serem nossos alvos na “guerra ao terror”. Enquanto isso, essa região e sua população estão sendo dizimadas.

Para a Síria, a única pequena esperança parecem ser as negociações entre os vários elementos envolvidos, exceto o ISIS. Isso inclui pessoas muito terríveis, como o presidente do país, Bashar al-Assad, que não vão cometer suicídio político espontaneamente e, portanto, deverão estar envolvidas nas negociações, caso a espiral rumo à autodestruição nacional seja contida. Em Viena, passos estão sendo dados – embora com hesitação – nessa direção. Há mais coisas que podem ser feitas em terra, mas, para isso, é fundamental a mudança para o caminho da diplomacia.

O papel da Turquia na chamada guerra global contra o terrorismo deve ser visto como um dos gestos mais hipócritas nos anais modernos da diplomacia. Vladimir Putin não mediu palavras depois que o caça russo foi abatido, taxando a Turquia de “cúmplice dos terroristas”. O petróleo é a razão pela qual os EUA e seus aliados ocidentais fazem vista grossa ao apoio de certas nações do golfo pérsico a organizações terroristas como o ISIS, mas qual é a razão para não questionar o apoio da Turquia ao terrorismo fundamentalista islâmico?

A Turquia sempre foi um importante aliado da OTAN, de enorme relevância geoestratégica. Durante os anos 1990, quando realizou algumas das maiores atrocidades de que se tem conhecimento em sua guerra contra a população curda, tornou-se o principal receptor de armas norte-americanas (além de Israel e Egito, uma categoria à parte). Essa relação passou por alguns momentos de conflito, especialmente em 2003, quando o governo acatou a posição de 95% da população e se recusou a se juntar aos EUA no ataque ao Iraque. A Turquia foi energicamente condenada



Fonte: O Diário



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