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quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Ser e não ser: eis a questão dialética!

Ser e não ser: eis a questão dialética!
por Daniel Henrique

"O próprio capitalismo não foge à regra, vejamos, dentre as várias contradições nas quais o capitalismo encontra ele têm no socialismo sua contradição antagônica, mas antes mesmo de destinar – se ao enfrentamento dialético contra o socialismo, o capitalismo já se contrapunha ao feudalismo, assim como o feudalismo se contrapunha ao modelo social anterior e assim sucessivamente. É perceptível dentro do próprio capitalismo essas contradições, representadas pela luta de classes que ao subdividirem se, tomam para e entre si relações de contradição/contraposição."

Através dos tempos, o ser humano buscou das mais diversas maneiras entender o mundo que o cerca impondo certos mecanismos para isso. Um deles é a lógica, que nada mais é que a forma pela qual o homem busca validar determinados modos de raciocínios, que por sua vez, buscam explicar de forma material o mundo real, a realidade em si com tudo que a mesma engloba, desde o objetivo ao subjetivo.

E ao explicar a Lógica, chegamos a abordar o cerne do presente texto que procura validar a dialética como uma lógica dinâmica, a qual não procura negar a lógica formal aristotélica, mas fugir da binaridade: Verdade absoluta ou Verdade relativa, colocando um patamar transitório entre as duas.

O pensamento dialético, não busca imputar à lógica aristotélica uma “falsidade” epistemológica, e sim apontar o caráter unilateral da mesma, que cristaliza o ser ao não enxergar as relações que o mesmo tem consigo e com o que o cerca. O método dialético supera essa insuficiência quando entende o ser como um processo, como puro movimento, realizando esta façanha sem cair no relativismo de uma suposta negação da lógica formal, negação esta que não existe.

O cerne da ontologia dialética é a compreensão de que tudo é dotado de contrários e contradições, tanto internamente, quanto em relação as diversas e infindas partes da realidade, chegando a uma máxima que pode ser exprimida pela frase: A possibilidade de algo ser lógico implica necessariamente no devir contraditório de tal objeto. Logo entende se a priori que a dialética trata do movimento da matéria, da sua constante mudança, da inerente condição ser/ não ser de todas as coisas. Mas mesmo o uso da lógica dialética, não ocorre necessariamente na negação da lógica formal aristotélica. 

É axiomático o uso da lógica formal aristotélica na compreensão das contradições, afinal, assim como o ser deixa de ser, primeiramente ser, é uma condição sine qua non para que ele venha a não ser, ou seja, para que ocorra o pensamento dialético, o ser que é e que deixa de ser, há de haver um ser que é propriamente a priori. Por exemplo, peguemos o átomo e o subdividamos em suas partes constituintes: O próton, o nêutron e o elétron. Um próton é um próton, um elétron é um elétron, assim como um nêutron é um nêutron, todos iguais a si mesmo, e ao mesmo tempo, mesmo estes sendo iguais a si mesmos, possuem entre si e em si, relações de dependência e contradição. Por exemplo, o próton e o nêutron constituem o núcleo do átomo, compartilhando o mesmo número de unidades, com o intuito de manter a estabilidade dentro do átomo, os prótons agindo na atração dos elétrons e os nêutrons atuando dialeticamente na repulsa de tais elétrons, e ainda há a contraposição do núcleo ser formado por dois elementos distintos: O próton e o nêutron que por sua relação de contraposição e contradição em relação a si mesmos e à eletrosfera mantêm a estabilidade do átomo. Ou seja, a dialética não atua negando a lógica formal aristotélica, mas complementando o caráter unilateral da mesma. A dialética não “atola” a concepção da verdade como faz a lógica formal, ela a dinamiza, toma para si a máxima de ir do simples a complexo, onde o que é sempre se utiliza do que se foi, substitui o que ele nega, superando – o de maneira dialética.

Tudo o que existe “morre”, trazendo consigo os elementos de sua própria destruição, ou melhor dizendo, de sua alocação da matéria de determinada coisa em outra, afinal, justamente a condição de ser implica inexoravelmente na condição de não ser. Mencionando outro exemplo, Einstein é bastante dialético quando explica a existência de uma relação espaço-tempo, quando ele a faz, ele menciona que a massa interage neste processo, e que além disso, que a massa e a energia envolvidos no processo, são estados diferentes do mesmo, já que as mesmas apresentam uma relação de igualdade, diferenciando – se na temporalidade na qual as unidades hora se dão como massa, hora como energia. Dizendo de outra formas: Toda massa é em potência energia, assim como toda energia é em potência massa.

Retomando a questão da lógica formal, a insuficiência da lógica aristotélica em tratar das questões do plano ontológico é ponto pacífico a todos, pois até o próprio Aristóteles concebia as limitações de sua lógica. Ao mesmo tempo este ponto pacífico, inicia uma geração de paradoxos e aporias ( De salientar que a aporia mencionada remete única e exclusivamente ao significado clássico atribuído por Aristóteles de igualdade de conclusões contraditórias, em nenhuma parte a aporia aqui referida se submete ao significado pós moderno de Indecidibilidade).

E na percepção da insuficiência da lógica formal, os críticos atacam a dialética, a descredenciando como ciência devido a impossibilidade da mesma em ser exprimida em todas as áreas da ciência. Mas ora, tomemos a questão da identidade entre lógica e realidade, a mesma também não pode ser exprimida em todos os campos da ciência humana, mas somente a suposição de sua existência é que permite uma compreensão objetiva do universo das coisas, a objetividade do conhecimento depende desta relação lógica – realidade, sem a mesma teríamos de pensar no método transcendental como método válido, aí uma compreensão de mundo correta seria difícil, para não dizer impossível.

Mas a grande problemática que afeta a compreensão da dialética, no séc XXI principalmente, é a facilidade de passagem de uma visão realista, que pode entender se também como dogmática ( A exemplo á visão da lógica formal refutando a dialética ) para uma visão Hiper relativizadora, o relativismo absoluto, já que o padrão objetivo do conhecimento é desprezado e tudo acaba por cair num reducionismo abstrato onde tudo é opinião e discurso.

Tomemos Henri Lefebvre, um marxista radical neta área de transpor a dialética a todo reino das coisas. O mesmo desenvolvia um projeto de fundamentação de todo o saber sob a tutela da lógica dialética, desde a música até à física. Ele pretendia compilar este feito em 11 volumes, mas acabou por parar em sua introdução. Lefebvre usa para justificar este ” fracasso” uma afirmação de uma oposição entra a Lógica Formal e a Lógica dialética, mas não colocando como uma oposição de negação de uma pela outra, mas uma oposição de esferas, tal qual, tomando uma analogia com a física, em certas esferas a Lei de Newton deve ser utilizada, em outros a Teoria da Relatividade de Einstein. O que apreende – se desta problemática de Lefebvre é a compreensão de que a dialética não é a negação da lógica aristotélica, muito pelo contrário, a lógica formal é a base de sua fundamentação, o exemplo elucida bem isto a partir da compreensão de Lefebvre de que há uma certa objetividade do princípio de identidade e não contradição de Aristóteles.

Muitas destas confusões que derivam em torno da dialética se pautam na obscuridade que muitos têm para com 3 planos da Ciência da Lógica que são: O Conceito, a Essência e o Ser. A visão dos que advogam pela lógica formal coloca o plano do conceito como sendo puramente lógico e o plano do ser sendo puramente ontológico, com isso cai – se no erro de colocar como uma impossibilidade a identificação entre lógico e ontológico (O que leva a uma negação da ontologia) que é o que Hegel, desmistifica ao identificar o Real e o Racional. Tais acepções formalísticas caem no erro ao, pela cosmovisão cristalizada das coisas, não enxergar a realidade como um processo, separando erroneamente, como colocado acima, a lógica do plano ontológico, adotando assim um posição positivista/neopositivista que ao abordar a realidade sem a cosmovisão ontológica, cai num espelhamento parcial da realidade, ocasionando assim em concepções errôneas do real.

O que Hegel tenta fazer é propriamente pensar o movimento, o próprio devir do real com as categorias e instrumentos teóricos que ele forja para isso. Não se trata de uma simples relativização da lógica Aristotélica, pelo contrário ele a mantém. Ela é um momento na formação do conceito, ela é ferramenta do plano lógico, da subjetividade para pensar a realidade, para identificar racional e real.

Outra grande falácia bem recorrente sobre a dialética é a de que “Contradição é uma coisa conceitual que existe apenas no nível discursivo”. Engels é certeiro quando diz que ” O que falta a estes senhores é a dialética!”, já que tal afirmação atesta a ignorância acerca da totalidade do conceito hegeliano. Quando falamos de dialética, há de se ter o entendimento de que a mesma não trata somente a possibilidade de contradição no discurso, já que está inserido na dialética hegeliana o sentido de contraposição também. Um algo que se contrapõe a outro, é e está internamente constituído de contradição/contraposição, seja consigo mesmo, seja com algum outro “algo”.

O próprio capitalismo não foge à regra, vejamos, dentre as várias contradições nas quais o capitalismo encontra ele têm no socialismo sua contradição antagônica, mas antes mesmo de destinar – se ao enfrentamento dialético contra o socialismo, o capitalismo já se contrapunha ao feudalismo, assim como o feudalismo se contrapunha ao modelo social anterior e assim sucessivamente. É perceptível dentro do próprio capitalismo essas contradições, representadas pela luta de classes que ao subdividirem se, tomam para e entre si relações de contradição/contraposição. Logo percebe -se que esta visão da contradição como sendo algo apenas conceitual só é possível para quem observa a realidade como algo sem contraposição, sem contradição, o que, frente a dinâmica dos processos que regem a realidade, torna- se um discurso vazio. Os “advogados de Aristóteles” remetem uma incoerência a quem adota uma visão dialética do universo das coisas, mas a incoerência não estaria em adotar um discurso de que a partir de um real cheio de contradições haveria uma “realidade” discursiva que não represente esta contradição? Remeter a dialética como se a mesma fosse algum tipo de lógica pós moderna relativista é o ápice da ignorância acerca da mesma, dizer que o ser é e não-é ao mesmo tempo não pressupõe cair no relativismo. O que se exige é a percepção da transformação daquilo que é visto positivamente como dado e que, neste sentido, é um dado em transformação. A negação deste pensamento se dá a partir da visão cosmológica da cristalização da realidade, da insuficiência da lógica formal em tratar das problemáticas de forma eficaz, sejam elas ontológicas ou até mesmo lógicas, já que a mesma as aborda de modo superficial.

Olhemos em um exemplo. Uma porta é uma porta, estando aberta ou fechada. A contraposição de estar aberta ou fechada ainda não dá conta da contradição interna da porta que está deixando de ser, que está “morrendo” passando pela transformação inerente ao seu ser que está em relação com o real onde está inserido. Além disso, ela se opõe aos demais elementos do real: o portal, a parede, o lado de fora e de dentro do espaço em que foi colocada. A sua positividade de ser porta não existe sem a própria negatividade de não ser os demais elementos. E uma porta em si, isolada de tudo, só “existe” no mundo das ideias, no mundo conceitual, no mundo do discurso. No real ela só existe em relação e, portanto, em contraposição com os demais elementos do real. A sua materialidade só é possível em relação. Além disso, internamente ela é composto de átomos que estão em relação entre si e entre os demais átomos fora da porta.

A vida e a morte, teriam elas contradição entre si? É claro que sim, diferentemente dos que advogam que o ser somente é e é, a vida é morte e não é. A morte é parte da biologia e fim do momento vivo da matéria. É claro que o olhar pode dizer que não há contradição entre claridade e escuridão, pois tudo seria a mesma coisa, mas é claro que este olhar estaria meio obscurecido. Se há dois elementos (corpo vivo e corpo morto, p. ex.) não identidade, lembrando que o mesmo corpo quando vivo já não é o mesmo quando morto. Assim, o corpo que é já estava deixando de ser. Era e não era apenas um corpo vivo. E ao mesmo tempo que há uma retomada de Parmênides por parte dos formalistas na concepção do ser que é é é e é, há um resgate de Heráclito que contrapõe esta visão cristalizada da realidade neste ponto também: A contradição entre a aparência e a essência. Aparentemente um corpo vivo é apenas um corpo vivo e não um corpo morrendo. O que aparenta ser apenas vivo é e não é vivo, posto que está também em degeneração, inclusive com parte dele mesmo morrendo para que outras mantenham-se vivas. É justamente este o ser e o não ser. E a questão não apenas de olhar científico biológico, mas de reflexão filosófica sobre viver e morrer. É claro que o discurso que se pauta na aparência do ser é e apenas é não ultrapassa o limite dos dois adjetivos, morto e vivo. A substância é ela em movimento e não apenas fixada pelo adjetivo e daí o tempo e a contradição como elementos fundadores da substância. O conceito de dialética não se trata apenas, portanto, de uma contradição conceitual entre o que se diz e o que se nega no discurso.

Indo mais afundo nas críticas dirigidas à dialética encontramos em especial um nome comum: Karl Popper. Popper baseia sua crítica a partir de uma pressuposição de um determinado modelo epistemológico ‘infalseável’ como critério para validação, tentando encaixar um cubo numa forma esférica, onde sua ” teoria refutadora” se utiliza de uma esquemática de procedimentos dedutivos que tem o objetivo de convergir para o fim da refutação das teorias em questão, onde toma – se como critério de demarcação a falseabilidade, que advoga que, para uma asserção ser refutável ou falseável, a mesma, a priori, deve ser passível de observação ou de uma experiência física que tente mostrar que essa asserção é falsa. O problema desta teoria reside na questão de que estamos tratando de um problema filosófico, o qual não pode ser simplesmente observado, ou experimentado. Fora isso, a crítica popperiana vai além, ela abarca todo o espectro das ciências humanas, inclusive os métodos mais ortodoxos de historiografia, bem como da filosofia no geral, impedido qualquer tipo de hermenêutica. No mais,a crítica do Popper é carregadíssima de discurso ideológico, basta ver como reflexo do seu neopositivismo a ” Escola Americana de Ciência política” que adota o típico pitagorismo neopositivista, que através da matematização do real, termina em um espelhamento mecanicista e parcial da realidade levando a um reducionismo da mesma à termos matemáticos como o ” fogo do saber” onde todo o resto seria resquícios de ‘ não – ciência’. A forma empirista da experimentação formulada, não se aplica como por exemplo, ao marxismo, pois Marx descreve uma teoria social, abordando uma realidade social, por este mesmo motivo que nenhum economista consegue realizar uma análise da realidade social de forma satisfatória, não a partir deste termo de ” experimentação”. Chega a ser hilariante essa histeria de Popper em justificar seu liberalismo, pena que seus argumentos são tão hilariantes quanto seu discurso.

Por fim, na Filosofia da História, Hegel ressalta a idéia de suprassunção, e aí há uma menção à uma palavra em especial: Aufheben ou Aufhebung. Ela significa ao mesmo tempo supressão, conservação e elevação, e é interessante a partir daí notar a infinidade de Aufhebungen na dialética hegeliana, já que o suprimir, conservar e elevar são o cerne do sistema lógico de Hegel. Desde a suprassunção da esfera biológica pela racional tendo como consequência o emergir do ser social, até o status de ” mediador” (A suprassunção do devir (vir – à – ser ), [‘Aufheben des Werdens’]) entre o Sein e o Dasein, a meta categoria do Aufhebung é resumidamente a expressão do movimento dialético, do caráter transitório do processos nos quais a realidade está submetida, da dialética em si.

Esta é a questão dialética, ser e não ser, compreender a dinâmica dos processos da realidade, “fugir” do atolamento da verdade, entender os patamares transitórios, para que a partir da compreensão das contradições e das consequentes contraposições no universo das coisas, possamos não só especular uma mudança nos rumos da sociedade, que cada vez caminha para a obscuridade, mas que a revolucionemos, carregando sempre a luz da razão.



por Daniel Henrique



Fonte: Nova Cultura



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