Pesquisa Mafarrico

Translate

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

A NATO e os refugiados: a mão que embala o berço

A NATO e os refugiados: a mão que embala o berço
por Ángeles Maestro*

"Como é que podemos classificar dirigentes que olharam para o lado enquanto a NATO, a UE, os EUA e os seus mercenários locais devastavam os países donde procedem os refugiados – ou, inclusivamente, justificaram os ataques imperialistas a partir de posições supostamente de esquerda – e que agora se desfazem daquelas roupagens, perante as terríveis imagens da sua dor?

Atahualpa Yupanqui num poema memorável dizia: «Que deus ajuda aos pobres?, talvez sim ou talvez não; o que é seguro é que almoça na mesa do patrão». Talvez as suas palavras fortes e o “humanitarismo” destes alcaides ocupem os écrans e os títulos dos meios de comunicação, porque cumprem a valiosíssima função de impedir que a imensa maioria compreenda as causas e identifique os criminosos e os seus cúmplices."
Um povo ou uma classe necessitam de identidade, e por isso de capacidade de trabalho, senão não sabem quem são os seus inimigos. E esta consciência colectiva é histórica porque se nutre da memória das lutas de gerações anteriores e é concreta, porque dá conta das relações sociais em cada lugar e em cada período determinado.

Este axioma fundamental, consubstancial à luta de classes, é o que foi apagado dos discursos das formações que se movimentam na órbitra de Podemos, incluindo a Esquerda Unida. E quando falamos da guerra imperialista como a mais brutal expressão da luta de classes o resultado é assombroso.

Essa identidade de classe e de povo é o que permite estabelecer as ligações entre os acontecimentos que as classes dominantes se preparam para ocultar. Por exemplo, a relação entre a chamada crise dos refugiados e as manobras militares da NATO, que se iniciarão no próximo mês, financiadas com os nossos impostos e a ter lugar em território do Estado espanhol.

É essa consciência que ajuda a compreender que se trata da mesma NATO que destruiu a Líbia, o país que tinha o mais elevado Índice de Desenvolvimento Humano de toda a África. É a mesma NATO que financiou e apetrechou os talibans para derrotarem o único presidente de toda a história do Afeganistão que conseguiu tirar o seu país da Idade Média, durante um breve período. Os estados membros da NATO são os mesmos que destruíram o Iraque, o país árabe mais desenvolvido.

São os mesmos chefes (homens e mulheres) de governo de países da UE, de qualquer cor política que, juntamente com os EUA, um prémio Nobel da Paz, que treinam e armam os mesmos mercenários e criminosos que qualificam de terroristas e simultaneamente dizem perseguir. E as bombas que dizem lançar sobre Estado Islâmico ou Daesh caem na realidade em cima das resistências curda, síria ou libanesa. Nesta infame equipa de governantes europeus há que incluir o governo Syriza-Anel que durante o seu curto mandato permitiu que a Grécia participasse em todas as manobras e missões organizadas pela NATO, estreitou a colaboração militar com Israel, pôs à disposição da NATO a ilha de Kárpatos para a converter numa grande base militar para a aviação, votou a favor do prolongamento das sanções da UE contra a Rússia, etc..

A consequência dessas intervenções é precisamente a fuga desesperada de milhares e milhares de pessoas em busca de asilo. No Mediterrâneo juntam-se com os que fogem de outras guerras menos faladas, mas que são sistematicamente provocadas pelas mesmas potências europeias e os EUA que saqueiam os seus países, desestabilizam governos ou assassinam presidentes pouco colaborantes na venda a preços de saldo das riquezas dos seus países.

E o que é que se passou com as organizações e dirigentes da suposta esquerda que sabem perfeitamente tudo isto? Eu acuso de cumplicidade dolosa os que não tiveram a coragem de enfrentar a propaganda da guerra que sistematicamente demoniza os dirigentes do país atacado antes de o destruir. O alvo desta propaganda somos nós, a nossa capacidade de saber quem somos como classe, como povo, para enfrentar os nossos inimigos e descobrir que os que pagam salários de miséria por intermináveis jornadas de trabalho são os mesmos culpados directos da morte dos milhares de Aylans de todo o mundo [N. do T.: Aylan era o menino afogado que recentemente deu à costa numa praia da Turquia].

O que temem é que compreendamos isso, que milhões de trabalhadoras e trabalhadores dos países membros da NATO entendam as bases do sistema que embala este berço de morte e actuem consequentemente. Talvez a imagem mais eloquente seja a do que foi até há poucos meses Secretário-geral da NATO (2009–2014), Anders Fogh Rasmussen, responsável directo dos ataques à Líbia, ao Afeganistão à Síria, etc., logo contratado como consultor do banco estadunidense Goldman Sachs. Sobretudo se sabemos que se trata do mesmo banco que depois da destruição da Líbia se apropriou dos 1.300 milhões de dólares do Estado líbio e participou, com outros bancos europeus e dos EUA, no espólio dos seus fundos soberanos congelados pelas potências agressoras no início do ataque [1]. Por isso, causa vergonha sem fim ver como a chamada crise dos refugiados serviu, com as suas dramáticas imagens de sofrimento, para desencadear uma corrida entre os novos alcaides “rebeldes” – como se autodenominam –, para ver quem destina mais recursos para receber mais pessoas e mostrar mais solidariedade. Tudo isto, enquanto os Centros de Internamento de Emigrantes estão repletos, a polícia municipal anda à caça dos manta-às-costas, prosseguem os despejos dos pobres (de qualquer nacionalidade), etc.

E, sobretudo, fazem-no agora, depois da as suas organizações terem permanecido caladas e inactivas enquanto se aniquilavam os países donde procedem as pessoas refugiadas. Algumas delas, com os seus intelectuais orgânicos, não só assistiam impassíveis ao desmoronamento do poderoso movimento contra a guerra surgido perante a invasão do Iraque como apoiavam directamente os “rebeldes” apetrechados pela NATO. Prestavam assim um – impagável? – apoio a um dos objectivos do poder perfeitamente identificado desde a criação da OTAN em 1949: neutralizar o inimigo interno [2].

Como é que podemos classificar dirigentes que olharam para o lado enquanto a NATO, a UE, os EUA e os seus mercenários locais devastavam os países donde procedem os refugiados – ou, inclusivamente, justificaram os ataques imperialistas a partir de posições supostamente de esquerda – e que agora se desfazem daquelas roupagens, perante as terríveis imagens da sua dor?

Atahualpa Yupanqui num poema memorável dizia: «Que deus ajuda aos pobres?, talvez sim ou talvez não; o que é seguro é que almoça na mesa do patrão». Talvez as suas palavras fortes e o “humanitarismo” destes alcaides ocupem os écrans e os títulos dos meios de comunicação, porque cumprem a valiosíssima função de impedir que a imensa maioria compreenda as causas e identifique os criminosos e os seus cúmplices.

Precisamente porque compreender as raízes e as dimensões da guerra global em que estamos metidos é condição indispensável para sermos capazes de responder eficazmente à barbárie, como classe e como povos.



Notas:

[1] Manlio Danucci (2015) Goldman Sachs – OTAN Corp.
http://www.voltairenet.org/

[2] O senador norte-americano Arthur Vanderberg proclamava abertamente: «A NATO deve servir antes de mais a finalidade concreta de assegurar uma defesa adequada contra a subversão interna».



* Ángeles Maestro é médica e membro da Red Roja.


Tradução de José Paulo Gascão



Fonte: O Diário



Nenhum comentário:

Postar um comentário