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sexta-feira, 25 de setembro de 2015

A crise na China e a “multipolaridade” onde todos os polos desabam

A crise na China e a “multipolaridade” onde todos os polos desabam
por Diego Torres**

"Mas a manifestação plena desta crise demonstra que os chamados BRICS não constituem alternativa alguma, estão imersos e prenhes das contradições do capitalismo."

"Nas grandes crises mundiais só existe um precedente de um país que conseguiu blindar-se contra os efeitos da crise. Trata-se da União Soviética, durante a grande depressão de 1929, que não apenas não se ressentiu dos efeitos da crise, como também teve um acelerado desenvolvimento e trouxe benefícios sociais sem precedentes à sua classe operária e aos seus povos. "

"Os intelectuais que defendiam a multipolaridade como alternativa diziam que esta dissuadiria os EUA de continuarem a agredir e submeter os povos, como se a Rússia ou os BRICS pudessem desempenhar um papel análogo ao da URSS durante a Guerra Fria. 
Por um lado, trata-se de uma analogia histórica falaciosa e de brincar com ilusões, pois, como já sublinhamos, nesse caso tratava-se de 2 sistemas socioeconômicos distintos; a analogia mais aproximada é a do mundo “multipolar” anterior à Primeira Guerra Mundial, onde o centro imperialista até então dominante, o Reino Unido, iniciava um lento declive, enquanto rivais em rápido ascenso, como a Alemanha, procuravam melhorar a sua posição no meio de uma profunda e prolongada crise."
" Na prática e na realidade, a chamada multipolaridade não ofereceu décadas de desenvolvimento para os povos, como o socialismo fez e pode fazer; a multipolaridade não oferece a paz, antes prepara o terreno para uma grande guerra interimperialista. Nós, comunistas, nesse cenário de afundamento social e guerra, não podemos preparar a aliança dos operários e dos povos com um ou outro centro imperialista, podemos é pedir que se arrede a multipolaridade do discurso das forças comunistas. Uma vez mais se coloca como saída o socialismo ou a barbárie. "
Com a eclosão, em 2008, da mais recente crise geral do sistema capitalista, iniciou-se uma série de reajustamentos na pirâmide imperialista, com os centros imperialistas empenhados numa luta cada vez mais aguda para ocupar o topo. 

Posições ligadas à social-democracia e ao oportunismo vinham, há anos, a pretender que tais desenvolvimentos seriam um avanço, uma conquista, uma possibilidade de obter vantagens para os povos, sob a noção da “multipolaridade”, como oposta à “unipolaridade” dos EUA. Tais posições alastraram à academia e à imprensa socialdemocrata, conseguiram influenciar uma grande quantidade de ativistas dos movimentos populares, do movimento estudantil, do sindicalismo e, inclusivamente, no Movimento Comunista Internacional foram colocadas a debate em não poucas ocasiões por dirigentes e a totalidade dos aparelhos partidários. Hoje, a construção do discurso reformista tem este quadro do “mundo multipolar” como um dos seus componentes centrais, assim como o colocar o tema das diversas gestões capitalistas como etapa imediata, etc. 

Em traços largos, tais “polos” são os diversos centros imperialistas e alinhamentos de centros imperialistas que se enfrentam pelo controlo dos mercados e dos territórios. Os EUA, a UE, o Japão, os BRICS, etc. 

Mas a natureza dos referidos “polos” tem-se vindo a revelar aos olhos do mundo. Como qualquer das economias capitalistas atravessadas por laços imperialistas, estas não estão isentas da crise geral de sobreprodução. Foi apenas devido à lei do desenvolvimento desigual que a crise se manifestou mais cedo ou mais tarde, mais aceleradamente ou em diferentes ritmos etc. Mas a manifestação plena desta crise demonstra que os chamados BRICS não constituem alternativa alguma, estão imersos e prenhes das contradições do capitalismo.

Evidentemente, são iguais ou ainda mais ridículas as conversas dos responsáveis governamentais da economia no México, ao prometerem uma “blindagem” contra a tormenta que aí vem, assim como os seus rivais da oposição burguesa, a quem apenas ocorre oferecer remendos na gestão. 

Nas grandes crises mundiais só existe um precedente de um país que conseguiu blindar-se contra os efeitos da crise. Trata-se da União Soviética, durante a grande depressão de 1929, que não apenas não se ressentiu dos efeitos da crise, como também teve um acelerado desenvolvimento e trouxe benefícios sociais sem precedentes à sua classe operária e aos seus povos. 

Hoje em dia, a suposta alternativa dos BRICS mete água e, em primeiro lugar, a sua economia de bandeira, a China. Desde o V congresso do nosso Partido que assinalamos a iminência de tal aprofundamento da crise. O V congresso celebrou-se em meados de setembro e, em agosto, havia já estalado a bolha especulativa imobiliária na China – algo muito similar ao colapso inicial da crise das hipotecas subprime e dos hedgefunds nos EUA, à crise em Espanha, etc. –, com os preços do setor a cair para níveis de há 15 anos, o que por sua vez reduzia já a procura e as vendas no setor da indústria do aço, que após alcançar um pico de 70 milhões de toneladas por mês entrava em fase de sobreprodução e reduzia a sua quota segundo uma curva descendente, e o mesmo na produção industrial ligada às exportações – tinham-se já acumulado 3 anos de descidas na bolsa de Xangai. O balanço de 2014 verificou o mais baixo crescimento do PIB dos últimos 24 anos. Há uns dias, o impacto da crise na China implicou a destruição de um capital equivalente a 3,5 milhões de milhões de dólares (o que é mais do que o valor total do mercado da bolsa da Índia, por exemplo), e no resto do mundo a onda destrutiva da desvalorização do Yuan arrasou com uma riqueza equivalente a 5 milhões de milhões de dólares. 

Enquanto as economias da Europa e dos EUA se afundavam, muitos capitais redirecionaram investimentos para a China e as chamadas “economias emergentes”; o referido capital traduziu-se em infraestruturas e produção dirigida à satisfação do mercado mundial, mercado que entretanto continuava em contração, pelo que se depararam de novo com um beco sem saída. Aqueles capitais que mais ganharam com os últimos meses da etapa de expansão do capitalismo na China são agora os que mais se ressentem do golpe. 

O facto de, tanto os BRICS, como a UE e os EUA estarem todos a afundar-se numa crise mais profunda não alivia as tensões e os conflitos entre eles; ao contrário, tende para a sua agudização, pois trata-se de destruir mais rapidamente os capitais rivais antes de se entrar numa hipotética nova fase de expansão sobre as suas ruínas. 

Os intelectuais que defendiam a multipolaridade como alternativa diziam que esta dissuadiria os EUA de continuarem a agredir e submeter os povos, como se a Rússia ou os BRICS pudessem desempenhar um papel análogo ao da URSS durante a Guerra Fria. 

Por um lado, trata-se de uma analogia histórica falaciosa e de brincar com ilusões, pois, como já sublinhamos, nesse caso tratava-se de 2 sistemas socioeconômicos  distintos; a analogia mais aproximada é a do mundo “multipolar” anterior à Primeira Guerra Mundial, onde o centro imperialista até então dominante, o Reino Unido, iniciava um lento declive, enquanto rivais em rápido ascenso, como a Alemanha, procuravam melhorar a sua posição no meio de uma profunda e prolongada crise.

Por outro lado, na prática, as agressões não se detiveram, uma vez que não se trata de salvaguardar interesses operários e populares mas de promover um ou outro capital; o descontentamento massivo em muitos países foi capturado pela lógica de forças políticas que apoiam um ou outro centro imperialista, e podemos falar já da existência de uma corrida sem disfarces ao armamento militar, juntamente com preparativos bélicos. Em África ocupam-se países, derrubam-se governos, dão-se golpes de Estado, operam mecanismos terroristas ligados aos interesses dos grandes monopólios, incendeiam-se conflitos separatistas, etc., como um gigantesco e desumano tabuleiro onde se jogam o Coltran, o Urânio, o petróleo, etc., entre a China, a França, os EUA, etc. No Oceano Pacífico colidem os afãs expansionistas da China com os seus vizinhos – Vietname, Taiwan, Japão, Coreia do Sul, Rússia, Filipinas, etc. – ao mesmo tempo que a NATO fala abertamente do seu choque com a China como o principal objectivo estratégico, onde se jogam as rotas comerciais cruciais para os anos que vêm, juntamente com o controlo de recursos valiosos, como as reservas de minerais raros; por exemplo, o Neodímio, cujas reservas estão concentradas na península coreana e no sueste asiático. No Médio Oriente os conflitos evoluem em escalada, com a NATO e a Rússia imperialista a colocarem cada vez mais forças, armamentos e recursos bélicos na zona, pelo que é plausível pensar que se venha a chegar a uma situação de guerra generalizada na região numa escala nunca vista pelas gerações vivas. 

Na prática e na realidade, a chamada multipolaridade não ofereceu décadas de desenvolvimento para os povos, como o socialismo fez e pode fazer; a multipolaridade não oferece a paz, antes prepara o terreno para uma grande guerra interimperialista. Nós, comunistas, nesse cenário de afundamento social e guerra, não podemos preparar a aliança dos operários e dos povos com um ou outro centro imperialista, podemos é pedir que se arrede a multipolaridade do discurso das forças comunistas. Uma vez mais se coloca como saída o socialismo ou a barbárie. 




Diego Torres**Segundo-Secretário do Comité Central (CC) do Partido Comunista do México (PCM).







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