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sexta-feira, 1 de maio de 2015

100 anos do genocídio do povo armênio

100 anos do genocídio do povo armênio
por Matheus Nascimento

"Na véspera do início do séc. XX são registrados atos de violência, desencadeados por autoridades turcas, em Constantinopla, no ano de 1895. Manifestantes que exigiam melhores condições de vida foram reprimidos pela polícia, morrendo dezenas de armênios.

Ao longo dos anos, novos atos de saque a aldeias armênias são registrados, até a chegada da corrente Jovens Turcos, em 1908, ao poder, quando as perseguições tomam grandes proporções."

Na madrugada de 24 de abril de 1915, no Império Turco-Otamano, começara a perseguição aos armênios, promovida pelo alto comando político-militar do imperialismo turco, tendo à frente a entidade ultranacionalista Jovens Turcos, cuja bandeira era o panturquismo[1], que tomara o poder central em 1908. A justificativa da perseguição era a de resgatar a “pureza” no território turco e proteção das fronteiras em virtude da Guerra Mundial, em especial na península da Anatólia, na Ásia Menor, habitada, há séculos, por turcos, gregos, curdos e armênios, e que fazia fronteira com o Império Russo. Porém, o povo armênio foi o principal alvo das investidas policiais, acusado de ajudar os russos e, a partir da prisão de 250 intelectuais e líderes armênios em Constantinopla[2], deportações e execuções em massa assassinaram 1,4 milhão de armênios em poucos meses, isto é, 2/3 de todo o povo armênio, sendo que, até hoje, o governo turco permanece impune e praticando violência contra outra minoria, a curda.

Os armênios habitavam o leste da península da Anatólia, em 1915, sob o controle turco e russo, desde antes da era cristã. Surge no séc. VI a.C. suas língua e escrita próprias, utilizadas até hoje, e promovem a elevação do povo armênio à condição de nação. Em 301, tornam-se o primeiro país a adotar o cristianismo como religião oficial, criando-se, a partir de então, a Igreja Apostólica Armênia, a qual é um elemento fundamental na unificação do povo. Porém, os armênios sofrem inúmeras investidas militares de seus vizinhos ao longo do tempo, por sua posição estratégica (entre Europa e Ásia) e por estar em local sagrado, segundo a Bíblia (a cadeia montanhosa do Cáucaso se estende por todo o seu território e atinge o ponto mais alto no monte Ararat, onde a Arca de Noé repousou no fim do dilúvio, local reverenciado por judeus, muçulmanos e cristãos). A Pérsia[3] é o primeiro Estado a intervir, sob o pretexto de combater o avanço da fé cristã, e conquistar parte do território armênio. É, depois, disputada e dividida entre vários impérios: Árabe e Bizantino, Otomano e Persa, Russo e Otomano, porém, por conta de sua forte coesão cultural e religiosa, mantém a maioria de suas características sociais e manifestações populares.

O Império Turco-Otomano surge na baixa Idade Média, e seu nome deriva de Otman I, que reina de 1281 a 1326, com um território que se estende do Rio Indo ao Mar Mediterrâneo. Em 1453, Constantinopla, sede do Império Romano do Oriente, ou Bizantino, é conquistada pelos turcos, e torna-se capital do mundo islâmico e símbolo do poder otomano. Sua queda simboliza o fim do período medieval e início da modernidade. Os turco-otomanos, já em 1520, sob o reinado de Solimão I, chegam às portas de Viena, na Áustria, e passam a controlar grandes áreas, subjugando diversos povos aos seus interesses, a exemplo dos gregos, sérvios e albaneses, na Europa, e dos curdos, árabes e armênios, na Ásia Menor e Oriente Médio. A partir de 1700, tem início a decadência do império, e as repressões às minorias geram guerras, como a da Grécia (1821-1822), da Sérvia (1878) e balcânica (1913), e massacres horrendos, como o genocídio armênio de 1915 a 1923, o qual é comparável ao holocausto promovido pelos fascistas contra o povo judeu.

Na véspera do início do séc. XX são registrados atos de violência, desencadeados por autoridades turcas, em Constantinopla, no ano de 1895. Manifestantes que exigiam melhores condições de vida foram reprimidos pela polícia, morrendo dezenas de armênios. 

Ao longo dos anos, novos atos de saque a aldeias armênias são registrados, até a chegada da corrente Jovens Turcos, em 1908, ao poder, quando as perseguições tomam grandes proporções. Em novembro de 1914, os turcos entram na Guerra Mundial ao lado da Tríplice Aliança (Impérios Alemão e Austro-Húngaro), contra a Tríplice Entente (Impérios Inglês, Francês e Russo). Portos russos no mar Negro são bombardeados em 28 de outubro de 1914, e os armênios que vivem na Rússia lançam-se na guerra contra os turco-otomanos. A primeira batalha entre os dois impérios, a de Sarikamish, leva à vitória os russos, que passam a ocupar parte do território nativo armênio, ao leste da Turquia. A partir desse momento, Mehmed Talaat Pasha, líder do governo, idealiza as linhas gerais da sangrenta repressão aos armênios que vivem no Império Otomano, acusados de apoiar o governo russo, e ordena a entrega de armas e desmobilização geral dos armênios a serviço das forças armadas turcas, em 25 de fevereiro de 1915.

As prisões sumárias de 24 e 25 de abril de 1915, em Constantinopla (conhecidas como Domingo Vermelho), são os resultados preliminares de um extenso trabalho de propaganda e logística, justificadas, segundo um oficial naval turco, com as seguintes palavras: “os armênios estão conspirando com o inimigo. Eles vão começar uma revolta em Constantinopla, matar os líderes do Comitê União e Progresso (CUP) e abrirão os estreitos (de Dardanellos e de Bósforo).” A partir de então novas investidas dos militares turcos e das instituições políticas obrigam centenas de milhares de armênios a deixarem suas casas e partirem para o desarmado “Batalhão Trabalhista”. Os soldados e os habitantes armênios são convencidos a abandonar armas e vilas sob o pretexto de uma possível paz entre o governo turco e as autoridades armênias do lado russo. Entretanto, a censura postal e a prisão de opositores são os sinais não de uma tentativa de conciliação, e sim de um elaborado esquema de deportação em massa do povo armênio da península da Anatólia em direção ao remoto deserto da Mesopotâmia[4], conhecida como “marchas mortais”, fruto da Lei Temporária de Deportação (“Lei Tehcir”), redigida pelo vizir Said Halim Pasha e aprovado pelo CUP em 29 de maio de 1915. A lei concedia ao governo turco-otomano e aos militares autorizações especiais para deportação e cerceamento de liberdade contra qualquer indivíduo considerado nocivo à segurança nacional. Os armênios, habitantes do Império Turco-Otomano, são enquadrados na Lei Tehcir e é sistematizada a repressão em todas as províncias do império.

Mesmo com a forte censura do governo sobre a imprensa, as notícias sobre o massacre contra os armênios ganham visibilidade em vários países, em especial na Armênia russa e nos EUA. Os cônsules são os primeiros a denunciar aos seus governos a intensa repressão, porém logo são expulsos. Jornalistas levam as informações até vários veículos, em especial o The New York Times, relatando as falsas promessas de “recolocação” dos armênios em uma zona de exclusão bélica, e o presidente Theodore Roosevelt caracterizou o massacre como “o mais importante crime de guerra”. Contudo, a ampliação das denúncias ocorreu somente no fim da guerra, e o saldo de armênios assassinados ultrapassava um milhão, a maioria durante as deportações a pé pelo deserto, vítimas dos ataques de milícias turcas e inanição. O Império Turco-Otomano assinou o armistício com a Entente em 30 de outubro de 1918, sendo desmembrado para o despojo de guerra de Inglaterra e França. Os três paxás que planejaram a repressão sangrenta fogem do país. Com a assinatura do Tratado, a Península da Anatólia e Constantinopla permaneceram sem nenhuma interferência exterior necessária para análise das violações contra as nacionalidades minoritárias e crimes de guerra contra a população civil. O próprio parlamento turco exige averiguações sobre o massacre, porém o governo assume postura conciliadora e julga poucas autoridades relacionadas com o genocídio, instaurando uma corte marcial. Acredita-se que houve em torno de 25 grandes campos de concentração sob o comando de Sukru Kaya, nomeado por Talaat Pasha, o qual proferiu a mensagem: “os armênios perderam o direito à vida no Império Turco-Otomano”. Destacaram-se os campos Lale, Tefridje, Dipsi, Del-El e Ra’s al-‘Alin, ao longo da atual fonteira entre Turquia, Síria e Iraque, criados exclusivamente para a recepção e extermínio de armênios.

Em 05 de fevereiro de 1920 retornam as matanças com o massacre de dez mil armênios em Marash. Em 18 de janeiro de 1921 o governo turco cancela a corte marcial e várias autoridades responsáveis pelos massacres são reabilitadas na vida pública, incluindo os paxás exilados após a guerra. Em 09 de setembro de 1922 a Turquia entra em guerra contra a Grécia, e a cidade de Smyrna é atacada por tropas muçulmanas, sendo assassinados milhares de gregos e armênios. Em 24 de julho de 1923, no Tratado de Lausanne, a Turquia reconhece a independência das antigas nações do império e se compromete a respeitar suas minorias, porém mantém sob sua posse a Armênia turca, não autorizando sua unificação com a Armênia Soviética. Nesse ato a Turquia acaba oficialmente com as perseguições e repressões contra os armênios, entretanto, dos 2,1 milhões de armênios que viviam em territórios turcos, 1,4 milhão tombou no genocídio, 400 mil se refugiaram na Armênia caucasiana e mais de 300 mil emigraram forçadamente a outros países, como o Brasil. A cidade de Osasco, na grande São Paulo, recebeu milhares de imigrantes armênios, e hoje possui um grande número de descendentes que mantêm viva a memória das vítimas do genocídio.

A Turquia permaneceu impune, desde o fim da Primeira Grande Guerra até hoje, tendo os principais responsáveis pelo genocídio vivido o resto de suas vidas no conforto de suas riquezas roubadas do povo armênio. Não nega que morreram milhares de armênios no Império Turco-Otomano, porém apresenta os fatos como “efeitos colaterais da guerra”, e, indo mais longe, seus legisladores e governantes promulgaram, no código penal, o artigo 301, o qual considera ato criminoso denegrir o governo turco e suas instituições, isto é, qualquer pessoa, como um descendente de armênios vitimados durante os massacres, em território turco, pode ser condenado se denunciar a impunidade das autoridades turcas em relação ao genocídio do povo armênio. O governo turco, membro da terrorista Otan, com o segundo maior exército da organização, mantém vigente um grande aparato repressivo contra uma minoria nacional de seu país, os curdos, e sua principal organização política, o PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão[5]), é considerado terrorista, posto na ilegalidade e reprimido violentamente.

A resistência armada curda inicia-se em 1984 sob a liderança de Abdullah Ocalan. As forças armadas turcas já violaram dezenas de vezes a soberania de seus vizinhos Síria e Iraque para bombardear aldeias e cidades curdas nesses territórios. Atualmente os curdos resistem heroicamente na cidade síria de Kobane, lutando contra as forças pró-imperialistas do Estado Islâmico (terroristas treinados pelo Mossad de Israel e financiados pelos sheiks sauditas), sem nenhum apoio turco, mesmo a cidade estando localizada a apenas alguns poucos quilômetros da fronteira com a Turquia. Os genocídios, massacres e perseguições são o resultado de uma política nacionalista-burguesa, que, em momentos de crise econômica e guerras, age de maneira deliberada ao jogar uma nação contra outra, mesmo dentro de seu próprio país, sob o pretexto de resgatar a “pureza” da nação e combater os “invasores”. A Turquia só permanece impune porque segue à risca os ditames do imperialismo, contribuiu nas invasões ao Afeganistão e Iraque pelo EUA e protege os interesses desse país e de Israel no Oriente Médio, o qual massacra o povo palestino. Somente um amplo movimento popular, guiado pelo internacionalismo proletário, será capaz de romper com a impunidade e com as guerras e garantir a paz e o respeito mútuo entre as nações. O genocídio armênio é um símbolo da podridão do imperialismo e prelúdio do seu desmoronamento, a ser alcançado após a conquista de verdadeiras democracias populares no Oriente Médio e demais continentes.


Matheus Nascimento, estudante de Psicologia da UFPA e militante do PCR



Notas

1 Panturquismo e Pan-islamismo: ideologia política das altas camadas sociais turcas, tártaras, etc. (dos cãs, dos mulás, dos latifundiários, dos comerciantes, etc.), que aspira a unificar todos os povos que professam a religião do Islã (religião muçulmana). O pan-islamismo é afim do panturquismo, que pretende unificar os povos muçulmanos e territórios da Ásia Menor sob o poder dos turcos. (J. Stálin, O Marxismo e o Problema Nacional e Colonial, pág. 395, Ed. Vitória Ltda, RJ – 1946).

2 Constantinopla: atual Istambul, na Turquia, e antiga Bizâncio, nos primórdios do Império Romano.

3 Pérsia: termo instituído pelos gregos antigos e correspondente ao atual Irã, localizada no Oriente Médio.
 
Deserto da Mesopotâmia: noroeste e norte dos atuais Iraque e Síria.

5 Curdistão: Os curdos lutam pela criação do Estado do Curdistão, o qual abrangeria territórios da Síria, Iraque, Irã e Turquia. Com uma população estimada em 25 milhões de habitantes, a comunidade curda é maior nação do mundo sem um país delimitado. Na Turquia encontra-se o maior número de curdos, ultrapassando a marca dos dez milhões de habitantes, à sudeste da península da Anatólia.



Fonte: A Verdade





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