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terça-feira, 27 de março de 2012

a verdade sobre a Grécia

Para a opinião pública internacional: a verdade sobre a Grécia




Rebelión - [Tradução do Diário Liberdade] Este chamado foi enviado por Mikis Theodrakis no domingo, dia 12 de fevereiro de 2012, na ocasião da grande manifestação da Praça Sintagma em Atenas, durante o debate parlamentar sobre a adoção do novo Memorando imposto pela Troika (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e o FMI) à Grécia. Quando Theodorakis, 86 anos, e Manolis Glézos, 90 anos, pediram aos policiais (foto) da unidade especial antimobilizações (MAT) para se dirigirem à multidão desde as escadarias do Parlamento, a única resposta destes últimos foi um disparo denso de gases lacrimogêneos que parecia uma tentativa de assassinato. É assim que se tratam neste país “entroikizado” os homens que, no Japão, seriam como “tesouros vivos”.

Um complô internacional está em andamento, com o objetivo de levar a cabo a destruição de meu país. Os assaltantes começaram em 1975, com o foco na cultura grega moderna, depois continuaram a decomposição de nossa história recente e de nossa identidade nacional e, hoje, tentam nos exterminar fisicamente mediante o desemprego, a fome e a miséria. Se o povo grego não se levanta para pará-los, o risco de desaparecimento da Grécia é bem real. Eu o vejo chegar nos próximos dez anos. O único elemento que vai sobreviver de nosso país é a memória de nossa civilização e de nossas lutas pela liberdade.

Até 2009, a situação econômica da Grécia não tinha nada de muito grave. Os grandes males de nossa economia eram os gastos não moderados para a compra de material de guerra e a corrupção de uma parte do mundo político, financeiro e midiático. Mas uma parte da responsabilidade coube aos Estados estrangeiros, como Alemanha, França, Inglaterra e EUA, que ganharam bilhões de euros às custas de nossa economia nacional, vendendo-nos todos os anos o material de guerra. Esta sangria constante nos devastou e não nos permitiu mais seguir avançando, enquanto era fonte de enriquecimento para outros países. Pode-se dizer o mesmo sobre a corrupção. Por exemplo, a empresa alemã Siemens tinha um setor especial encarregado de corromper os gregos, com a finalidade de posicionar melhor os seus produtos no mercado grego. Deste modo, o povo grego foi vítima deste duo de predadores, alemães e gregos, que se enriqueceram às custas da Grécia.

É evidente que estes dois grandes males poderiam ser evitados se os dirigentes dos dois partidos políticos pró-americanos não estivessem penetrados pela corrupção. Esta riqueza, produto do trabalho do povo grego, foi assim drenada às caixas-fortes dos países estrangeiros. Os políticos tentaram compensar esta fuga do capital recorrendo ao endividamento excessivo que desembocou em uma dívida pública de 300 bilhões de euros, ou seja, 130% do PIB.

Mediante este roubo, os estrangeiros ganharam duplamente: por uma parte, com a venda de armas e de seus produtos e, por outra parte, mediante os interesses da dívida governamental (e não o povo). Como vimos, nos dois casos, o povo grego foi vítima principal. Um só exemplo bastará para convencê-lo: em 1986, Andreas Papandreou tomou emprestado um bilhão de dólares de um banco de um grande país europeu. Os juros deste empréstimo não foram reembolsados até 2010 e se elevaram a 54 bilhões de euros.

No último ano, Juncker declarou que havia notado que a hemorragia financeira massiva da Grécia se devia aos gastos excessivos (e forçados) para a compra de material de guerra - da Alemanha e da França, em particular. E concluiu que estes vendedores nos conduziam a um desastre certeiro. Desgraçadamente, reconheceu que não havia feito nada para contrariar isto, para não prejudicar os interesses dos países amigos!

Em 2008, a grande crise econômica tomou conta da Europa. A economia grega não foi salva. No entanto, o nível de vida que era até este momento suficientemente alto (a Grécia se classificava entre os 30 países mais ricos do mundo), se manteve praticamente sem mudanças, apesar do aumento da dívida pública. A dívida pública não se traduz necessariamente em uma crise econômica. A dívida dos grandes países, tais como os EUA e a Alemanha, é estimada em bilhões de euros. Os fatores determinantes são o crescimento econômico e a produção. Se estes dois fatores são positivos, é possível endividar-se com os grandes bancos a uma taxa de juros inferior a 5% até que a crise tenha passado.

Em novembro de 2009, no momento da chegada de George Papandreou ao poder, estávamos exatamente nesta posição. Para que se compreenda o que o povo grego pensa hoje de sua política desastrosa, cito duas cifras: nas eleições de 2009, o PASOK – o partido de G. Papandreou – obteve 44% dos votos. Hoje, as pesquisas não lhe dão mais que 6%.

Papandreou poderia enfrentar a crise econômica (que refletia a da Europa) com os empréstimos dos bancos estrangeiros a uma taxa habitual, ou seja, inferior a 5%. Se o tivesse feito, nosso país não teria tido problemas. Como estávamos em uma fase de crescimento econômico, nosso nível de vida teria melhorado.

Mas Papandreou já havia planejado sua conspiração contra o povo grego no verão de 2009, quando ele se encontrou secretamente com Strauss-Kahn, com o fim de colocar a Grécia sob a tutela do FMI. Esta revelação foi feita pelo antigo diretor do FMI.

Para chegar lá, o quadro da situação econômica de nosso país teve de ser falsificado, para que os bancos estrangeiros tivessem medo e elevassem as taxas de juros dos empréstimos a aportes proibitivos. Esta operação onerosa começou com o aumento artificial do déficit público de 12% a 15% no ano de 2009 (Andreas Georgiou, presidente do conselho administrativo do Instituto Nacional de Estatística, ELSTAT, decidiu subitamente em 2009, sem pedir acordo nem informar ao seu conselho administrativo, contabilizar no cálculo do déficit público certos organismos e empresas públicas que não tinham sido contabilizados em nenhum outro país europeu antes, exceto na Noruega. O objetivo era fazer subir o déficit da Grécia acima do da Irlanda (14%), para que seja ela a que tenha o papel do elo frágil da Europa. Faz 20 dias, o procurador Pepònis levou perante a justiça Papandreou e Papakonstantinou (ex-ministro de Finanças), para prestarem contas sobre este crime.

Na continuação, Papandreou e seu ministro de Finanças levaram a cabo uma campanha de descrédito durante 5 meses, no transcurso da qual tentaram persuadir os estrangeiros que a Grécia estava como o Titanic, afundando-se, que os gregos eram corruptos, preguiçosos e, pois, incapazes de fazer frente às necessidades do país. Depois de cada uma de suas declarações, as taxas de juros subiram para que a Grécia não pudesse pedir mais emprestado e que passasse por um resgate nossa adesão ao FMI e ao Banco Central Europeu. Na realidade, era o começo de nosso fim.

Em maio de 2010, o ministro de Finanças assinou o famoso Memorando, ou seja, nossa submissão ao nosso credor. Segundo a lei grega, a adoção de um acordo dessas características deve ser submetida ao Parlamento e aprovada por três quintos dos deputados. Bem, o Memorando e a Troika que nos governam funcionam ilegalmente – não somente a respeito da lei grega, mas também do direito europeu.

Desde então, supondo que nosso caminho até a morte seja representado por uma escada de 20 degraus, recorremos já a metade da mesma. Imagine que o Memorando presenteia aos estrangeiros nossa independência nacional e a propriedade nacional, a saber: nossos portos, nossos aeroportos, a rede de rodovias, a eletricidade, a água, todas as riquezas naturais (no subsolo e submarinhas) etc. Agregue a isto nossos monumentos históricos, como a Acrópoles, Delfos, o Olímpio, Epidauro e outros lugares, uma vez que tenhamos renunciado de fazer valer nossos direitos.

A produção foi paralisada, a taxa de desemprego disparou para 18%, 800.000 comércios fecharam, como também milhares de fábricas e centenas de trabalhadores manuais. Um total de 432.000 empresas quebraram, dezenas de milhares de jovens cientistas deixaram nosso país, que se cobre mais e mais das trevas da Idade Média. Milhares de pessoas que viviam bem até uma data recente, estão agora na busca por alimento no lixo e dormem nas calçadas.

Entretanto, supostamente estamos vivendo graças à generosidade de nossos credores, os bancos europeus e o FMI. De fato, a totalidade do pacote de dezenas de bilhões de euros atirado sobre a Grécia, volta a quem o outorgou, enquanto estamos cada vez mais endividados por causa dos juros insuportáveis. E como é necessário manter funcionando o Estado, os hospitais e as escolas, a Troika sobrecarrega as classes médias e as baixas com taxas exorbitantes que levam diretamente à fome. A última vez que vivemos esta situação de fome generalizada no nosso país foi no início da ocupação alemã, em 1941, com cerca de 300.000 mortes em seis meses somente. Em nossos dias, o espectro de fome volta ao nosso país infortunado e caluniado.

Se pensares que a ocupação alemã nos custou um milhão de mortos e a destruição completa de nosso país, como podemos aceitar, nós os gregos, as ameaças da Sra. Merkel e a intenção dos alemães de nos impor um novo Gauleiter, que desta vez usará uma gravata?

O período da ocupação alemã, de 1941 até outubro de 1944, prova que a Grécia é um país rico e até que ponto os gregos são trabalhadores e conscientes (consciência do dever de liberdade e do amor à pátria).

Quando a SS e a fome mataram um milhão de pessoas e a Wehrmacht destruía nosso país, confiscava toda a produção agrícola e o ouro de nossos bancos, os gregos puderam sobreviver graças à criação do movimento de Solidariedade Nacional e de um exército de resistência que contava com 100.000 combatentes, que fixaram 20 divisões alemãs em nosso país.

Ao mesmo tempo, os gregos sobreviveram não somente graças à sua aplicação no trabalho, mas também, nas condições da ocupação, graças a um grande desenvolvimento da arte grega moderna, em particular no domínio da literatura e da música.

A Grécia elegeu a via do sacrifício pela liberdade e a sobrevivência ao mesmo tempo.

Fomos atacados, respondemos com Solidariedade e Resistência e fomos sobrevivendo. Fazemos agora exatamente a mesma coisa, com a certeza de que o povo grego será finalmente vencedor. Esta mensagem está dirigida à Sra. Merkel e ao Sr. Schäuble, destacando que sigo sendo amigo do povo alemão e um admirador das grandes contribuições à ciência, à filosofia, à arte e à música, em particular. A maior prova destes grandes feitos é o fato de que confiei a totalidade de minha obra musical aos dois editores alemães, Schott e Breitkopf, que contam entre os maiores editores do mundo e minha colaboração com eles é muito amigável.

Ameaçam nos expulsar da Europa. Se não nos querem, devolvemos dez vezes mais; não queremos formar parte da Europa de Merkel-Sarkozy.

Hoje, domingo 12 de fevereiro, eu e Manoles Glezos - o herói que arrancou a suástica da Acrópole, dando sinal da não somente resistência grega, mas também da resistência europeia contra Hitler - nós mesmos nos preparamos para participar de uma manifestação em Atenas. Nossas ruas e nossas praças estarão cheias de milhares de pessoas que manifestarão sua cólera contra o governo da Troika.

Ontem escutei o primeiro ministro/banqueiro dizer, dirigindo-se ao povo grego, que quase chegamos ao fundo do poço. Mas quem nos levou a este ponto em dois anos? São os mesmos que no lugar de estar na prisão, ameaçam os deputados para que votem por um novo Memorando pior que o primeiro, que será aplicado pelas mesmas pessoas que nos levaram a onde estamos. Por que? Porque isso é o que nos obrigam a fazer o FMI e o Eurogrupo, ameaçando-nos no caso de não obedecer, com a quebra... Aqui se representa um teatro absurdo. Os círculos que nos odeiam (gregos e estrangeiros) e que são os únicos responsáveis da situação dramática de nosso país, ameaçam-nos e nos chantageiam para poder prosseguir com sua obra destrutiva, até nossa extinção definitiva.

No transcurso de dois séculos, sobrevivemos em condições muito difíceis. É certo que os gregos não somente sobreviverão, mas poderão reviver, inclusive se somos conduzidos à força ao último degrau da escada que leva à morte.

Atualmente, empenho todas as minhas forças para unir o povo grego. Tento convencê-lo de que a Troika e o FMI não são a única saída. Que há outra solução: mudar o rumo da nação. Girar-nos à Rússia para lograr uma cooperação econômica e a formação de associações que nos ajudariam a valorizar nossas riquezas em termos favoráveis em relação ao interesse nacional.

Proponho não comprar mais material militar dos alemães e dos franceses. Faremos tudo para que a Alemanha nos pague as reparações de guerra devidas. Estas reparações se elevam, com os juros, a 500 bilhões de euros.

A única força capaz de fazer estas mudanças revolucionárias é o povo grego unido em uma frente de Resistência e de Solidariedade para que a Troika seja expulsa do país. Paralelamente, há que considerar como nulos e sem valor todos os atos ilegais (empréstimos, dívidas, juros, impostos, compras de riqueza pública). Evidentemente, os sócios gregos – que já foram condenados no espírito de nosso povo como traidores –, devem ser castigados.

Estou inteiramente confiante deste propósito (a união em uma Frente) e estou persuadido que conseguiremos. Eu tomei as armas contra a ocupação hitleriana. Conheço os calabouços da Gestapo. Fui condenado à morte pelos alemães e milagrosamente sobrevivi. Em 1967, fundei o PAM (Patriotikò Mètopo - Frente Patriótica), a primeira organização de resistência contra a junta militar. Passei para a clandestinidade. Fui detido e preso no “matadouro” da polícia da junta. Finalmente, também sobrevivi.

Hoje, tenho 87 anos, e é muito provável que não estarei mais no dia em que minha amada pátria seja salva. Mas morrerei com a consciência tranquila, porque continuarei a cumprir com o meu dever em relação as meus ideais de liberdade e direito.


Mikis Theodorakis é um famoso compositor grego e resistente ao regime que instaurou a junta dos coronéis.

tlaxcala-int.org




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