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sábado, 7 de novembro de 2015

No centenário da Teoria da Relatividade - Breve perfil científico e político de Einstein

No centenário da Teoria da Relatividade Breve perfil científico e político de Einstein
por JORGE REZENDE

"A Palestina foi dividida em 1947 pelas Nações Unidas e daí resultou a criação de Israel (coisa a que Einstein se tinha oposto em 1938), o que conduziu à guerra na região. Einstein e outros criticaram firmemente o massacre de Deir Yassin, em carta aberta ao New York Times, perpetrado pelo partido de Menachem Begin, Herut, equiparando-o aos «partidos nazis e fascistas» (Menachem Begin viria a ser primeiro ministro de Israel entre 1977 e 1983…). Em Maio de 1948 Israel tornou-se independente e Einstein declarou que se tratava da «realização dos nossos [dos judeus] sonhos». Quando, em 1952, lhe foi oferecida a presidência de Israel, Einstein, polidamente, recusou."

"Desde 1932, antes da fixação de Einstein nos EUA, até à data da sua morte, o FBI organizou um ficheiro que atingiu 1800 páginas. O seu telefone foi posto sob escuta, as suas cartas abertas, o lixo vasculhado. Ainda hoje (2015) o FBI diz que os seus «agentes investigaram a vida do famoso cientista Albert Einstein devido à sua associação com alguns grupos testa-de-ferro dos comunistas e as ligações da sua secretária com a inteligência soviética na Alemanha nos anos 1930». Diga o FBI o que quiser. Einstein, além de ser um genial cientista, limitou-se a praticar o seu próprio programa: desenvolver um alto «sentido de responsabilidade pelos outros homens, em lugar da glorificação do poder e do sucesso na nossa sociedade actual»."

De Albert Einstein (1879, Ulm, Alemanha – 1955, Princeton, EUA) aquilo que todos sabem é que formulou a teoria da relatividade, que foi um dos maiores cientistas de sempre e pouco mais. Mas Einstein publicou mais de 300 artigos científicos e de 150 artigos sobre outras matérias. Relembremos apenas alguns dos seus resultados mais importantes.

Produção científica

Em 1905, o seu ano «annus mirabilis», publicou quatro artigos fundamentais sobre o efeito fotoeléctrico (sugere que a energia é apenas trocada em pequenas quantidades, «quanta», o que levou ao desenvolvimento da mecânica quântica), o movimento browniano (explicava o resultado experimental da teoria atómica), a relatividade especial (baseado no conhecimento experimental de que a velocidade da luz é finita) e a equivalência entre a massa e a energia (E = mc², que esteve na base da energia nuclear) que o tornariam famoso.

Entre 1907 e 1915, desenvolveu a relatividade geral segundo a qual a atracção gravitacional entre massas resulta da deformação do espaço e do tempo provocada por essas massas, o que se revelou muito importante no desenvolvimento da astrofísica. Em 1919, na ilha do Príncipe, Arthur Eddington, por ocasião de um eclipse solar, verificou experimentalmente a curvatura da luz em volta do sol, confirmando assim a previsão de Einstein.

Em 1921 recebeu o prémio Nobel da Física, não pela teoria da relatividade, que ainda era controversa, mas pelos seus «serviços na física teórica», com destaque para a descoberta da lei do efeito fotoeléctrico.

Einstein trabalhou ainda na teoria da radiação, mecânica estatística, na construção de teorias do campo unificado, na interpretação probabilística da teoria quântica, em probabilidades de transição atómicas, na cosmologia relativista, etc.

Percurso

Quando o pequeno Albert tinha seis semanas a família mudou-se para Munique. Mais tarde, os pais foram para Itália e Einstein foi estudar para a Suíça, onde, em 1896, se inscreveu na Escola Politécnica Federal, em Zurique, para vir a ser professor de Física e Matemática. Em 1901 terminou o curso e adquiriu a nacionalidade suíça. Não encontrando lugar como professor, foi trabalhar para o Instituto Suíço de Patentes, em Berna. Foi aí que ele produziu muito do seu notável trabalho inicial. Em 1905 obteve o doutoramento. Em 1908, foi designado «Privatdozent» em Berna. Em 1909 foi nomeado Professor Extraordinário em Zurique, e em 1911 e 1912 tornou-se Professor de Física Teórica, primeiro em Praga e depois em Zurique. Em 1914 foi nomeado director do Instituto Kaiser Guilherme e Professor da Universidade de Berlim, tendo readquirido a nacionalidade alemã. Quando, no início de 1933, Hitler subiu ao poder, Einstein estava nos EUA, nunca mais regressando à Alemanha e renunciando, mais uma vez, à nacionalidade. Acabou por aceitar a posição de Professor de Física Teórica em Princeton, EUA.

Uma Europa em ebulição

Einstein dedicou também a vida a uma intensa actividade social tendo sido um militante do pacifismo, dos direitos humanos e da luta contra a segregação racial. Uma pergunta óbvia se coloca: o que esteve na origem da sua actividade política tantas vezes ignorada nas suas biografias?

Para nos situarmos bem no espaço e no tempo, notemos que Einstein tinha 4 e 16 anos, quando morreram os seus compatriotas Marx e Engels. No seu tempo, na Europa, imperavam os nacionalismos, o militarismo e o racismo (com a perseguição aos judeus, e não só) e circulavam revolucionários de todas as nacionalidades.

Einstein foi estudar para a Suíça com 15 anos, em parte devido à sua aversão ao militarismo alemão. Em Zurique, frequentava o Café Odeon por onde passaram também revolucionários russos como Alexandra Kollontai (1898), Trotsky (1914) e, mais tarde, Lénine (1916-1917) e muitas outras personalidades históricas. Kollontai foi contemporânea de Einstein em Zurique, mas Lénine não. Lénine passava pelo Odeon para ler avidamente os jornais nas vésperas da revolução de Outubro. De Lénine diria, anos mais tarde, a propósito de 5.º aniversário da sua morte: «Em Lénine eu admiro um homem que, em total sacrifício da sua própria pessoa, dedicou toda a sua energia a realizar a justiça social. Eu não acho os seus métodos aconselháveis. Todavia, uma coisa é certa: homens como ele são os guardiões e renovadores da consciência da humanidade».

O pacifismo de Einstein revelou-se, mais uma vez, quando, em 1914, 93 proeminentes intelectuais alemães (incluindo Max Planck) assinaram o manifesto de apoio inequívoco às acções militares no início da I Guerra Mundial: ele e mais três responderam com um contra-manifesto. Na Europa, Einstein participou em muitas outras iniciativas pacifistas tais como o congresso da «Liga contra o Imperialismo», em 1927.

Quando foi trabalhar para Berlim, Einstein, pelo facto de ser judeu, sofreu ameaças e humilhações de origem nazi, o que acabou por robustecer as suas convicções sociais e políticas e influenciar a sua acção futura.

A bomba atómica

Em 1939, instado por Leó Szilárd, Einstein escreveu uma carta ao presidente Roosevelt prevenindo-o de que os alemães estavam a planear desenvolver uma nova e destruidora arma, a bomba atómica; havia a informação de que, em 1938, em Berlim, cientistas tinham conseguido a fissão nuclear. Essa iniciativa veio dar origem ao «projecto Manhattan» que levaria à construção, pelos EUA, das primeiras bombas com as trágicas consequências que se conhecem. Curiosamente, Einstein nunca conseguiu a credencial para poder trabalhar nesse projecto por constituir um «risco para a segurança», e os cientistas que aí trabalhavam foram proibidos de o consultar por ser um activista de esquerda. Einstein veio a arrepender-se de ter escrito a carta. Entrevistado pela revista «Newsweek», disse «tivesse eu sabido que os alemães não conseguiriam desenvolver uma bomba atómica, nada teria feito».

Israel

Num discurso em Nova Iorque, em 1938, Einstein disse: «Eu prefiro um razoável entendimento com os árabes na base de viverem juntos em paz do que a criação de um estado judaico. O meu entendimento da natureza essencial do judaísmo resiste à ideia de um estado judaico com fronteiras, um exército, e um poder temporal nem que seja modesto. Tenho receio do dano interno que o judaísmo venha a suportar – especialmente devido ao desenvolvimento de um nacionalismo mesquinho dentro das nossas próprias fileiras, contra o qual já tivemos que lutar firmemente mesmo sem um estado judaico… Se necessidades externas finalmente nos compelirem a assumir esse fardo, suportemo-lo com tacto e paciência.» Contudo, ele não se manteve rigorosamente fiel a estas ideias o que se compreende à luz dos acontecimentos subsequentes, independentes da sua vontade. A Palestina foi dividida em 1947 pelas Nações Unidas e daí resultou a criação de Israel (coisa a que Einstein se tinha oposto em 1938), o que conduziu à guerra na região. Einstein e outros criticaram firmemente o massacre de Deir Yassin, em carta aberta ao New York Times, perpetrado pelo partido de Menachem Begin, Herut, equiparando-o aos «partidos nazis e fascistas» (Menachem Begin viria a ser primeiro ministro de Israel entre 1977 e 1983…). Em Maio de 1948 Israel tornou-se independente e Einstein declarou que se tratava da «realização dos nossos [dos judeus] sonhos». Quando, em 1952, lhe foi oferecida a presidência de Israel, Einstein, polidamente, recusou.

A luta contra o racismo

Para Einstein, que tinha sofrido humilhações racistas na Europa, a sua fixação em Princeton, foi um deslumbramento. Mas depressa verificou que aquilo que sucedia aos judeus na Alemanha nessa época (no início dos anos 1930), via ele então acontecer aos negros nos EUA.

Einstein conheceu Paul Robeson, o famoso cantor e actor conhecido pelas suas simpatias comunistas, em 1935, quando este foi cantar a Princeton e o cientista o foi saudar aos bastidores. A amizade entre os dois durou vinte anos. Ambos apoiaram as forças republicanas contra o golpe fascista (seguido da guerra apoiada por Hitler e Mussolini) do general Franco em Espanha. Ambos integraram a «Cruzada Americana contra o Linchamento» (ACAL) organização constituída na sequência dos assassinatos de soldados americanos negros regressados da II Guerra Mundial.

Em 1937, quando a contralto Marian Anderson foi dar um concerto a Princeton e não encontrou alojamento por ser negra, foi convidada por Einstein a pernoitar em sua casa. Assim continuou a ser daí em diante, mesmo depois de ter acabado a segregação nos hotéis.

Einstein raramente aceitava honrarias, mas, em 1946, deslocou-se à Universidade de Lincoln, na Pensilvânia, a primeira nos EUA a conferir diplomas a negros, para receber um grau honorário. Aí discursou afirmando que o racismo era uma «doença dos brancos» e acrescentou «não tenciono ficar quieto a propósito disso».

Quando, em 1951, W.E.B. Du Bois, sociólogo e historiador, fundador da Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor (NAACP), foi acusado de ser um «agente soviético» por um «grande júri» federal, Einstein prontificou-se para ser sua primeira testemunha e, por esse motivo, a meio do julgamento, o juiz deixou cair a acusação.

A firme oposição de Einstein ao racismo não o deixou intimidar pelo ambiente ferozmente anticomunista nos EUA na época e, consequentemente, não só defendeu os seus amigos Robeson e Du Bois, como apoiou campanhas (organizadas pelo Congresso dos Direitos Cívicos (CRC)) para salvar as vidas de negros rapidamente condenados à morte por tribunais constituídos só por brancos tais como Willie McGee, os seis de Trenton e outros.

A luta contra o Macartismo

Em 1952, Paul Robeson entrou para a lista negra do senador McCarthy. Foi proibido de dar concertos e foi-lhe retirado o passaporte e assim impedido de refazer a sua vida no estrangeiro tendo o seu rendimento descido 90%. Como gesto público de solidariedade, Einstein, ainda que doente, convidou-o a ir a sua casa, depois de almoço, o que representava obviamente um desafio à autoridade. Robeson apareceu acompanhado por Lloyd L. Brown, um sindicalista americano, pertencente ao Partido Comunista, que veio a ser biógrafo do cantor. Passaram toda a tarde a discutir os assuntos que os apaixonavam: ciência, música e política. Brown, que conta o episódio, relata que a determinada altura em que Robeson se ausentou, disse para Einstein que era para ele uma grande honra estar ali na presença de um grande homem, ao que este replicou: «mas foi você que trouxe o grande homem».

Quando William Frauenglass, em 1953, professor de liceu em Nova Iorque, foi chamado a depor no período da «caça às bruxas», recusou e, como daí resultaria a sua demissão, escreveu a Einstein pedindo-lhe apoio. Este respondeu-lhe em carta aberta publicada na primeira página do New York Times (entre parêntesis rectos, uma parte não incluída no jornal mas publicada mais tarde): «O problema com o qual os intelectuais deste país estão confrontados é muito sério. Os políticos reaccionários conseguiram instilar no público a suspeição sobre todas as actividades intelectuais agitando um perigo vindo do estrangeiro. Tendo sido bem sucedidos, pretendem agora suprimir a liberdade de ensinar e privar dos seus postos de trabalho todos aqueles que se mostrem insubmissos, i.e., matá-los à fome. O que deve fazer a minoria de intelectuais contra este mal? Francamente, eu só vejo a maneira revolucionária da não cooperação no sentido de Gandhi. Todo o intelectual que seja chamado perante uma das comissões deve recusar-se a depor, i.e., tem que estar preparado para ser preso e ficar arruinado economicamente, o que significa o sacrifício do seu bem-estar pessoal no interesse do bem-estar cultural deste país. [Todavia] esta recusa a depor [não] deve ser baseada [no conhecido subterfúgio de invocar a Quinta Emenda contra uma possível auto incriminação mas] na posição de que é vergonhoso para um inocente cidadão submeter-se a tal inquisição e que esta espécie de inquisição viola o espírito da constituição. Se muitas pessoas estiverem dispostas a dar este passo, serão bem sucedidas. Caso contrário, os intelectuais deste país nada melhor merecem do que a escravatura que lhes é destinada.»

Pouco tempo depois, outra testemunha que se recusou a depor, Al Shadowitz, alegou que estava «a seguir o conselho do Doutor Einstein». As recusas passaram a ser frequentes até que, em finais dos anos 1950, o Supremo Tribunal pôs fim ao Macartismo, embora a sua sombra se estenda até à actualidade.

Desde 1932, antes da fixação de Einstein nos EUA, até à data da sua morte, o FBI organizou um ficheiro que atingiu 1800 páginas. O seu telefone foi posto sob escuta, as suas cartas abertas, o lixo vasculhado. Ainda hoje (2015) o FBI diz que os seus «agentes investigaram a vida do famoso cientista Albert Einstein devido à sua associação com alguns grupos testa-de-ferro dos comunistas e as ligações da sua secretária com a inteligência soviética na Alemanha nos anos 1930». Diga o FBI o que quiser. Einstein, além de ser um genial cientista, limitou-se a praticar o seu próprio programa: desenvolver um alto «sentido de responsabilidade pelos outros homens, em lugar da glorificação do poder e do sucesso na nossa sociedade actual».

A citação que finaliza este artigo foi retirada do texto de Albert Einstein «Porquê o Socialismo?», saído no primeiro número da «Monthly Review», de Maio de 1949, do qual «O Militante» publica um excerto assinalando o centenário da Teoria da Relatividade Geral.

Porquê o Socialismo?

«(...) Cheguei agora ao ponto em que posso indicar brevemente o que para mim constitui a essência da crise do nosso tempo. Diz respeito à relação do indivíduo com a sociedade. O indivíduo tornou-se mais consciente do que nunca da sua dependência da sociedade. Mas não experimenta esta dependência como um bem positivo, como um laço orgânico, como uma força protectora, antes como uma ameaça aos seus direitos naturais, ou até à sua existência económica. Além disso, a sua posição na sociedade é tal que os impulsos egoístas da sua constituição estão constantemente a ser acentuados, enquanto os seus impulsos sociais, que por natureza são mais fracos, se deterioram progressivamente. Todos os seres humanos, qualquer que seja a sua posição na sociedade, sofrem este processo de deterioração. Inconscientemente prisioneiros do seu próprio egoísmo, sentem-se inseguros, sós e privados do inocente, simples e desafectado gozo da vida. O homem só pode encontrar sentido na vida, curta e arriscada como é, dedicando-se à sociedade.

A anarquia económica da sociedade capitalista como existe hoje é, na minha opinião, a verdadeira fonte do mal. Vemos diante de nós uma enorme comunidade de produtores cujos membros se empenham sem cessar em privar-se uns aos outros dos frutos de seu trabalho colectivo – não pela força, mas no seu conjunto em fiel cumprimento de regras legalmente estabelecidas. A este respeito, é importante apercebermo-nos de que os meios de produção – quer dizer, toda a capacidade produtiva que é necessária para produzir bens de consumo, assim como bens de capital adicionais – podem legalmente ser, e na sua maior parte são, propriedade privada de indivíduos.

Por uma questão de simplicidade, na discussão que se segue chamarei «trabalhadores» todos aqueles que não partilham a propriedade dos meios de produção – embora isso não corresponda inteiramente ao uso costumeiro do termo. O proprietário dos meios de produção está em posição de comprar a força de trabalho do trabalhador. Usando os meios de produção, o trabalhador produz novos bens que se tornam propriedade do capitalista. O ponto essencial deste processo é a relação entre aquilo que o trabalhador produz e aquilo que lhe pagam, num caso e noutro medidos em termos de valor real. Na medida em que o contrato de trabalho é «livre», aquilo que o trabalhador recebe é determinado não pelo valor real dos bens que produz mas sim pelas suas necessidades mínimas e pelos requisitos de força de trabalho dos capitalistas em relação ao número de trabalhadores que competem por empregos. É importante compreender que mesmo em teoria o pagamento do trabalhador não é determinado pelo valor do seu produto.

O capital privado tende a ficar concentrado em poucas mãos, em parte devido à concorrência entre os capitalistas e em parte porque o desenvolvimento tecnológico e a crescente divisão do trabalho encorajam a formação de unidades de produção maiores, em prejuízo das mais pequenas. O resultado desses desenvolvimentos é uma oligarquia do capital privado, cujo enorme poder não pode ser eficazmente controlado nem sequer por uma sociedade política democraticamente organizada. Isto é verdade, uma vez que os membros dos corpos legislativos são seleccionados por partidos políticos, largamente financiados ou de algum outro modo influenciados por capitalistas privados que, para todos os efeitos práticos, separam o eleitorado da legislatura. A consequência é que os representantes do povo de facto não protegem de modo suficiente os interesses dos sectores menos privilegiados da população. Além disso, nas condições actuais os capitalistas privados inevitavelmente controlam, directa ou indirectamente, as principais fontes de informação (imprensa, rádio, educação). É assim extremamente difícil, e de facto na maioria dos casos perfeitamente impossível, ao cidadão individual chegar a conclusões objectivas e fazer uso inteligente dos seus direitos políticos.

A situação existente numa economia baseada na propriedade privada do capital é assim caracterizada por dois princípios centrais: primeiro, os meios de produção (capital) são de propriedade privada, e os proprietários dispõem deles como acham melhor; segundo, o contrato de trabalho é livre. É claro que não existe sociedade capitalista pura neste sentido. Em especial, é preciso registar que os trabalhadores, através de longas e amargas lutas políticas, conseguiram assegurar uma forma um tanto melhorada do «livre contrato de trabalho» para certas categorias de trabalhadores. Mas, tomada em seu conjunto, a economia actual não difere muito de um capitalismo «puro».

A produção é realizada com a finalidade do lucro, não com a do uso. Não está assegurado que todos aqueles que são capazes e desejam trabalhar consigam sempre achar emprego; existe quase sempre um «exército de desempregados». O trabalhador vive constantemente no receio de perder o emprego. Uma vez que os desempregados e os trabalhadores mal pagos não constituem um mercado lucrativo, a produção de bens de consumo é restringida, o que tem por consequência grandes sofrimentos. O progresso tecnológico resulta frequentemente em mais desemprego e não num alívio da carga de trabalho para todos. O lucro como motivação, conjugado com a concorrência entre os capitalistas, é responsável por uma instabilidade na acumulação e utilização do capital que conduz a depressões cada vez mais severas. A concorrência ilimitada conduz a um gigantesco desperdício de trabalho e também àquela deformação da consciência social dos indivíduos que mencionei anteriormente.

Considero essa deformação dos indivíduos o pior dos males do capitalismo. Todo o nosso sistema educativo sofre desse mal. Uma atitude competitiva exagerada é inculcada no estudante, que, como preparação para a sua futura carreira, é treinado para idolatrar o êxito aquisitivo.

Estou convencido de que existe apenas um caminho para eliminar estes graves males, a saber, através do estabelecimento de uma economia socialista, acompanhada por um sistema educativo que seja orientado para objectivos sociais. Em tal economia, os meios de produção são propriedade da própria sociedade e são utilizados de modo planificado. Uma economia planificada, que ajusta a produção às necessidades da comunidade, distribuiria o trabalho a ser feito entre todos aqueles capazes de trabalhar e garantiria o sustento a cada homem, mulher e criança. A educação do indivíduo, além de promover as suas próprias capacidades inatas, tentaria desenvolver nele um sentido de responsabilidade pelos outros homens, em lugar da glorificação do poder e do sucesso na nossa sociedade actual.

Contudo, é preciso lembrar que uma economia planificada ainda não é socialismo. Uma economia planificada como tal pode ser acompanhada por uma escravização completa do indivíduo. A realização do socialismo requer a solução de alguns problemas sociopolíticos extremamente difíceis: como é possível, tendo em conta a centralização abrangente do poder político e económico, impedir que a burocracia se torne omnipotente e arrogante? Como podem os direitos do indivíduo ser protegidos e desse modo ser assegurado um contrapeso democrático ao poder da burocracia?

A clareza quanto aos objectivos e aos problemas do socialismo é do mais alto significado na nossa era de transição. Uma vez que, nas circunstâncias actuais, a discussão livre e sem barreiras destes problemas caiu sob um poderoso tabu, considero a fundação desta revista um importante serviço público.»



JORGE REZENDE








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