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sexta-feira, 20 de novembro de 2015

A mineração e os eco-chatos

A mineração e os eco-chatos
por Elaine​Tavares

"Uma única barragem como essa da Samarco está causando um rastro de destruição que se espalha não só pelo estado de Minas, mas vai caminhando pelas veias abertas dos rios e riachos, até chegar ao mar, onde também provocará forte desequilíbrio. Conforme informações do biólogo André Ruschi, diretor da escola Estação Biologia Marinha Augusto Ruschi, em Aracruz (ES), só esse desastre compromete e impacta a vida marinha por mais de 100 anos. Ele não hesita em dizer que a irresponsabilidade da Samarco assassinou a quinta maior bacia hidrográfica do Brasil. “A natureza se regenera” dizem alguns, fazendo pouco caso dos efeitos do crime. Sim, é fato, ela se regenera. O que não se regenera é a vida perdida por conta desse tipo de exploração da riqueza.

Mas, afinal, quem se importa com o destino daqueles que são apenas mão-de-obra barata para o giro da roda do capital? Assim como nas guerras “limpas”, nas quais ninguém vê os corpos dilacerados, esse crime ambiental também tem seus corpos escondidos. A mídia, sempre afeita a um espetáculo, mostra o salvamento de cachorros como momentos de rara humanidade dos valorosos bombeiros – o que de fato, é – mas não mostra com igual destaque o acumulado de corpos de gente e bicho que adormece sob a lama. "
Desde muito tempo temos ouvido essa “acusação” quando alguém se levanta em luta pelo equilíbrio ambiental: eco-chatos, inimigos do progresso. Uma gente chata que não quer ver o desenvolvimento da nação. Hoje, com a nação perplexa diante da tragédia que se abateu sobre a vida em Minas, se faz mais do que necessário rever esse conceito. Qualquer pessoa que tenha consciência crítica sabe que o capitalismo enquanto tal é um produtor de misérias. A sua produção de mercadorias implica no seu contrário, ou seja, a destruição. Assim, se queremos falar da raiz oculta das relações de produção capitalista, temos que necessariamente falar em relações de destruição, como bem aponta o teórico Ludovico Silva no seu livro “A mais-valia ideológica”. Não é sem razão que os chamados eco-chatos – ou ambientalistas, ou gente que tem consciência da realidade, ou seja lá como os chamem – sempre denunciaram os riscos da mineração.

No Brasil, a extração do ouro teve seu primeiro ciclo em 1690, justamente em Minas, na região de Tiradentes. Depois, em 1700 foi a vez dos diamantes, na mesma região e no final do século já metade do ouro circulando no mundo vinha dali. No 1800 milhares de colonos portugueses ocuparam o sudeste e boa parte do território foi sendo ocupado tendo como meta a extração de algum tipo de minério. Hoje, a indústria extrativista explora aproximadamente 72 minerais, sendo 23 tipos de metais e 45 não-metálicos, além de mais 04 tipos de combustíveis. A mineração responde por 5% do PIB nacional – com 3.3354 minas – e oferece produtos que são amplamente utilizados nas indústrias metalúrgicas, de fertilizantes, siderúrgicas e, principalmente, nas petroquímicas. O país se destaca na produção de amianto, bauxita, cobre, cromo, estanho, ferro, grafita, manganês, níquel, ouro, potássio, rocha fosfática e zinco. O ferro tem sido o metal de maior importância, com sete grandes empresas na área: Cia. Vale do Rio Doce; Minerações Brasileiras Reunidas S.A.; Mineração da Trindade; Ferteco Mineração S.A.; Samarco Mineração S.A.; Cia Siderúrgica Nacional; e Itaminas Comércio de Minérios S.A.

Toda essa produção movimenta mais de 50,5 bilhões por ano e conforme estudos do Departamento Nacional de Produção Mineral o Brasil é um dos países com maior potencial mineral do mundo, juntamente com Federação Russa, Estados Unidos, Canadá, China e Austrália, o que torna seu território bastante cobiçado, visto que as reservas são grandes e podem gerar lucros por muito tempo ainda.

Nesse sentido, não é sem razão a investida dos representantes do latifúndio no Congresso Nacional para rever as demarcações de terras indígenas. Esses grandes territórios já demarcados contém reservas estratégicas de minério e os que usam a terra como mercadoria querem colocar suas garras afiadas sobre essa riqueza. Passando para o legislativo nacional a decisão sobre demarcação e dando a eles poder sobre a revisão de antigas demarcações, o que se pode acontecer é a retirada dos territórios já garantidos aos indígenas, quilombolas e povos tradicionais. Tudo em nome do lucro, seja para a monocultura de exportação ou para a mineração.

E aqui voltamos aos eco-chatos. Não é de hoje que os ambientalistas verdadeiramente preocupados com o equilíbrio entre o homem e a natureza denunciam os dramas da mineração. O tamanho do impacto ambiental que essa atividade causa é imensurável. Com as escavações em larga escala são promovidas dramáticas alterações na paisagem, bem como a contaminação incessante das águas por conta do uso de metais pesados, como o mercúrio, por exemplo. A mineração ainda pode afetar a qualidade do ar e do solo, destruir espécies animais e vegetais e causar poluição sonora, isso sem contar nos danos á saúde humana. Logo, o controle sobre esse tipo de trabalho por parte dos órgãos ambientais precisa ser muito bem feito. Mas, o que se vê é a velha política das vistas grossas a toda e qualquer denúncia que seja feita, tanto por parte dos ambientalistas, quanto por estudiosos da questão. Se é contra a possibilidade de seguir lucrando, as forças econômicas, aliadas com a mídia comercial, vão formando um consenso sobre o tema, de tal maneira que quem aparece como vilão são aqueles que fazem as denúncias: os eco-chatos, os que atrapalham o progresso, os que vivem a chamar desgraça.

O crime ambiental que aconteceu agora em Minas Gerais, em grandes proporções, com o rompimento da barragem de lama tóxica, que estava sob denúncias, deu visibilidade a esse drama que é cotidiano em várias regiões do Brasil. A lama tóxica, o mercúrio, a poluição por outros metais e venenos, tudo isso está – nesse exato momento – escorrendo para dentro de algum manancial. Em pequenas proporções, quase invisível, mas que vai cobrar seu preço mais na frente.

E diante dessa tragédia sistemática como age a fábrica do consenso? Esconde os fatos, joga foco sobre o que chama de “tragédia de Minas”, como se aquilo fosse um caso isolado, um acidente, um acaso do destino e não a ação deliberada e irresponsável de empresas que estão pouco se lixando para a vida que rodeia seus empreendimentos.

Uma única barragem como essa da Samarco está causando um rastro de destruição que se espalha não só pelo estado de Minas, mas vai caminhando pelas veias abertas dos rios e riachos, até chegar ao mar, onde também provocará forte desequilíbrio. Conforme informações do biólogo André Ruschi, diretor da escola Estação Biologia Marinha Augusto Ruschi, em Aracruz (ES), só esse desastre compromete e impacta a vida marinha por mais de 100 anos. Ele não hesita em dizer que a irresponsabilidade da Samarco assassinou a quinta maior bacia hidrográfica do Brasil. “A natureza se regenera” dizem alguns, fazendo pouco caso dos efeitos do crime. Sim, é fato, ela se regenera. O que não se regenera é a vida perdida por conta desse tipo de exploração da riqueza.

Mas, afinal, quem se importa com o destino daqueles que são apenas mão-de-obra barata para o giro da roda do capital? Assim como nas guerras “limpas”, nas quais ninguém vê os corpos dilacerados, esse crime ambiental também tem seus corpos escondidos. A mídia, sempre afeita a um espetáculo, mostra o salvamento de cachorros como momentos de rara humanidade dos valorosos bombeiros – o que de fato, é – mas não mostra com igual destaque o acumulado de corpos de gente e bicho que adormece sob a lama. Melhor é levantar o moral, mostrar as delicadezas que sempre assomam em horas de grande tragédia. Ou então, dar voz a tipos como o ex-governador de Minas, Aécio Neves, que tem a coragem de dizer em alto e bom tom que “não é hora de encontrar culpados”.

Ora, é hora de encontrar os responsáveis, sim. Os donos da empresa que não cumpriram as determinações do Ministério Público, os órgãos ambientais que liberam licenças sem o devido controle, o estado que faz vistas grossas aos males da mineração. Enfim, uma cadeia de responsáveis, gente que precisa responder por isso.

E, como sempre acontece no mundo do espetáculo, tão logo a poeira abaixe, o crime da Samarco será esquecido. Um novo drama, uma nova tragédia, outro espetáculo tomará o lugar da lama tóxica. Os governos declararão que o dano não foi tão grande, que haverá uma compensação, que as famílias serão indenizadas, que cuidados futuros serão tomados, e todos voltarão a dormir em paz.

Mas, enquanto isso, novas minas continuarão sendo abertas, materiais tóxicos seguirão escorrendo pelos rios, entrando terra adentro, pessoas continuarão morrendo contaminadas pela irresponsabilidade, danos seguirão sendo causados a terra, aos bichos, às gentes, ao mar. Tudo seguirá como antes até que novo crime, de tamanha proporção, seja praticado. E aí tudo recomeçará. Nesse ínterim, os eco-chatos seguirão denunciando, gritando, anunciando. E, como sempre, sendo apontados apenas como os arautos da desgraça, coisa que de fato são. Não porque queiram, mas porque sabem que em nome do lucro tudo é válido nesse mundo. E, por isso mesmo não hesitam em gritar, denunciar, apontar.

O drama da vida perdida em Minas, e que agora vai se perder por outros estados pelos quais a lama vai passar, deveria, pelo menos, servir de alerta. Quando uma denúncia sobre os danos da mineração é feita, que se procure investigar. A voz dessa gente que clama por equilíbrio no ambiente não pode mais ser vista como um “atrapalho ao progresso”. Ela é sempre um sinal de alerta que precisa ser levado a serio.

E hoje, tal qual a voz dos “arautos da desgraça”, os corpos escondidos na pequena Bento Rodrigues estão falando, e também esperam que alguém os ouça.




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