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sexta-feira, 7 de junho de 2013

O Brasil é campo experimental da fome

O Brasil é campo experimental da fome
por Jorge Messias
 
"Tecnicamente, o agronegócio consiste numa cadeia de produção de novo tipo. Mas o seu grande objectivo é, necessariamente, ampliar lucros já fabulosos. Por isso, o agronegócio é indissociável de uma outra aquisição neocapitalista, conhecida como mercados futuros. O contrato de compra ou de venda fecha-se no presente mas só se concretiza num mercado futuro, com valores cambiais arbitrariamente combinados entre compradores e entre comprador e vendedor. É claro que essas previsões nunca se confirmam. Os preços de produção continuam a subir, o capitalista mais fraco a ser engolido pelo mais forte e a fome o desemprego agravam-se desmedidamente."



«O Brasil bate todos os recordes na produção e exportação de alimentos. Num só ano, as exportações atingiram 83 biliões de dólares. O agronegócio tem sido a salvação económica do Brasil… Tal como na Indústria e nos Serviços, a Agricultura está dominada por grandes empresas transnacionais; Cargill, Continental, ADM, Dreyfus, Bunge, Carrefour, Monsanto… Ainda que não participem directamente no cultivo, esses grupos dominam toda a agricultura do planeta!» (Instituto Latino-Americano de Estudos sócio-económicos do Brasil, “Agroexportação, monocultivo e recolonização”).

«A agricultura de subsistência foi pilhada pelos países centrais. A fome no mundo não é um problema limitado que possa ser resolvido pela intervenção caritativa do Ocidente no controlo de preços ou no aumento da produção, embalada pela filantropia dos ricos. A questão só se resolverá com uma Reforma Agrária que devolva aos países neocolonizados a soberania alimentar» (Ana Rajado e Renato Guedes, revista “Rubra”, Nº. 2).

«O mito do livre mercado produziu a concentração e centralização de capitais e recursos em poucas mãos, fortalecendo os donos do mundo que intensificam a exploração e impõem os preços que bem entendem para maximizarem os lucros. A globalização, em lugar de intensificar a concorrência facilitou a tomada do poder por parte de meia dúzia de potências que ditam as leis do FMI, do Banco Mundial e do OMC» (O monopólio é causa da fome no mundo, A Nova Democracia, Archibald Figueira).

 
Importa reter: a tese do agronegócio surgiu nos EUA em 1957, já nos quadros preparatórios da futura globalização; tinha – e tem – como objectivo principal reunir num só acto de gestão a produção, armazenamento, transformação, distribuição e comercialização dos alimentos, fibras industriais, biomassa, fertilizantes e aditivos químicos; o projecto que alia à agricultura a agropecuária, a pesca e piscicultura, o turismo rural, as energias renováveis, as seguradoras, etc.

A refundação desta área vital da vida económica implica, por um lado, a aplicação de financiamentos gigantescos; por outro lado, um novo dimensionamento da propriedade. O próprio gigantismo do projecto exige o controlo de extensíssimas terras de regadio, de florestas, rios e costas, pedreiras, minas e hidroeléctricas. Obriga, igualmente, à deslocação de grandes massas humanas e à constante renovação das tecnologias.

Por outras palavras, o caminho a percorrer passa pelo prévio reforço da centralização de poderes empresariais e pela constante expansão do latifúndio. Fabulosos lucros estão garantidos. É assim que o agronegócio representa actualmente 20% do PIB norte-americano e 40% do PIB brasileiro.

Tecnicamente, o agronegócio consiste numa cadeia de produção de novo tipo. Mas o seu grande objectivo é, necessariamente, ampliar lucros já fabulosos. Por isso, o agronegócio é indissociável de uma outra aquisição neocapitalista, conhecida como mercados futuros. O contrato de compra ou de venda fecha-se no presente mas só se concretiza num mercado futuro, com valores cambiais arbitrariamente combinados entre compradores e entre comprador e vendedor. É claro que essas previsões nunca se confirmam. Os preços de produção continuam a subir, o capitalista mais fraco a ser engolido pelo mais forte e a fome o desemprego agravam-se desmedidamente.

A questão central é a fome ser imposta pelo capitalismo. Trata-se de uma consequência dependente do crescimento das margens de lucro, recriando o latifúndio e formando novo reservatório de mão-de-obra barata através do recurso aos despedimentos.

O alastramento dos monopólios agudiza a luta de classes. Queiram-no os capitalistas ou não. Sentindo o terreno fugir-lhes debaixo dos pés, os analistas abandonaram o tema do fosso entre pobres e ricos, assunto que convém esquecer. O que, no futuro, de nada lhes valerá. Não será a estratégia do silêncio que fará abrandar as lutas populares.

A intervenção das poderosas redes sociais do Vaticano nesta operação capitalista – mudar tudo para tudo ficar como dantes – é notável e merece ser posta em destaque. A operação agronegócio revela ter duas frentes de combate: na primeira, procura afirmar-se na conquista do poder; na segunda, recolhe tesouros que converte em dinheiro e o dinheiro em poder. O agronegócio reúne, em si mesmo, as duas ambições do imperialismo clássico.

 
 
Fonte: Avante
 
 
 
 

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