As mafias caritativas mundiais

As máfias caritativas mundiais
por Jorge Messias

"Na prática, não é este o entender da igreja católica, das outras Igrejas organizadas, das religiões. Ser poderoso, é estar do lado dos ricos. «A Igreja santificou o poder secular». Primeiro, foram os monarcas absolutos; depois, os mercadores; a seguir, os tiranos iluminados e os esclavagistas colonizadores; por último, o Vaticano aliou abertamente a cruz ao cifrão, o papado e o neoliberalismo moderno."


«Sem dúvida que existem contradições sérias entre os monopólios industriais e bancários e os grandes senhores da terra. Os interesses dos monopólios industriais e bancários e os interesses dos grandes proprietários são contraditórios. Os industriais estão interessados no baixo preço das matérias-primas e dos produtos alimentares, o que lhes permitirá pagar salários mais baixos. Aos lavradores, interessa garantir baixos preços aos produtos industriais, nomeadamente àqueles com aplicação na agricultura. Mas os grandes proprietários e os capitalistas estão cada vez mais ligados ao capital financeiro … De braço dado, disputam a partilha do bolo, apoiam e dirigem a política do governo fascista e exploram e oprimem as classes trabalhadoras!» (Álvaro Cunhal, «Rumo à Vitória», 1979).

«A fome é uma causa de pobreza geradora de mais fome... A pobreza é a principal causa da fome! As causas da pobreza incluem a falta de recursos, a distribuição desnivelada do rendimento nacional e os conflitos locais que implicam fomes e deslocações de massas humanas deslocadas dos seus lares. Cerca de 1/6 da população mundial é obrigado a passar fome!» (FAO, Relatório 2010).

«As crises alimentares favorecem os agentes e instituições que possuem a capacidade de produzir e distribuir comida, ajudando-os a expandirem a sua área de influência... À medida que a fome aumenta, cresce também o potencial de influência de instituições como o Banco Alimentar» (João Silva Jordão, «Quem ganha com a fome em Portugal?»). 
 

A questão sociocaritativa mundial está longe de se revestir da inocência que à primeira vista possa sugerir. Se olharmos para o mundo, à nossa volta, fácil nos será constatar que ao aumento da pobreza, do desemprego e da fome, corresponde a expansão de uma sensação de impotência e de terror, a exemplo do que aconteceu no século passado, quando os nazis perceberam que a fantasia e a mentira eram armas tão eficazes como os canhões.
 
A miséria produzia o desespero e este conduzia à desmobilização das massas exploradas.
 
Justamente quando o colonialismo atingia o seu auge e os estados industrializados mergulhavam em guerras civis, valores abstractos como os da doutrina social católica eram oferecidos como últimos abrigos às consequências do caos que se aproximava. Deu-se então o primeiro grande salto em frente do «bom» capitalismo a contrastar com o capitalismo «selvagem»; das fortunas multimilionárias «católicas» que optavam pela «filantropia»; e das instituições e fundações «crentes» que praticavam a caridade, embora à custa das verbas que o Estado cobrava aos cidadãos. A Igreja assumia, assim, as funções sociais assinaladas nas constituições democráticas, sem encargos financeiros ou limitações ou perda de privilégios.

É precisamente a este ponto que estamos a voltar. Mas em sociedades com outras dimensões e muito maiores capacidades de auto-destruição. Justiça seja feita, o Vaticano soube aproveitar bem o espaço entre duas guerras mundiais para se reciclar.

Mas fê-lo sempre no sentido errado.

Um dos planos onde esta simples verificação mais se torna evidente é o da alimentação ligada ao valor do dinheiro. Sobreviver, é direito natural que é imoral sequer discutir. Tal como é indiscutível que cada um de nós deva ter na sociedade humana um lugar que responda «às nossas capacidades». Só realizando o que é de interesse comum conquistaremos o que é de nosso interesse.

Na prática, não é este o entender da igreja católica, das outras Igrejas organizadas, das religiões. Ser poderoso, é estar do lado dos ricos. «A Igreja santificou o poder secular». Primeiro, foram os monarcas absolutos; depois, os mercadores; a seguir, os tiranos iluminados e os esclavagistas colonizadores; por último, o Vaticano aliou abertamente a cruz ao cifrão, o papado e o neoliberalismo moderno.
 
 
 
Fonte: Avante
 
 
 

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