Tragédia greco-portuguesa



Tragédia greco-portuguesa 
Mitos
por ANTÓNIO IRIA REVEZ


Um homem habitua-se a tudo, por mais desumana e cruel a realidade com que possa vir a ser confrontado. A repetição e o tempo se encarregam de entranhar no seu espírito, aquilo que de início lhe parecia estranho. Sobretudo se isso lhe acontecer cedo na vida. Assim sendo, essas ideias apoderam-se do indivíduo, colam-se-lhe à pele de tal forma que mal se consegue libertar. Felizes os que, por razões de variadíssima ordem, conseguem alcançar a liberdade e agir em conformidade com a sua consciência e a sua natureza. Maquiavel, esse eterno incompreendido, opinava, com razão ou sem ela, que não havia volta a dar, somos escravos dos nossos hábitos: «Ninguém deve confiar nas forças da natureza nem na jactância das palavras, se não estiverem corroboradas pelo hábito». Palavras aparentemente convidando à complacência e à aceitação daquilo que nos rodeia, sem espírito crítico, sem levantar dúvidas.
 
São de Marx as seguintes palavras: «Os filósofos limitam-se a interpretar o mundo de diversas maneiras. O que importa é modificá-lo». E a história encarrega-se de nos mostrar que o mundo é isso mesmo, feito de constantes mudanças, nada é eterno, nada é imutável.
 

Ninguém pode decretar ou querer convencer-nos de que chegámos ao fim da História, a não ser que a intenção seja apenas a de adiar o inevitável fim do sistema capitalista, em estado de agonia.

«Entre um governo que faz o mal, e o povo que o consente, há uma certa cumplicidade vergonhosa».

(Victor Hugo)

Não é por acaso que nos últimos tempos temos vindo a tropeçar na palavra resignação plantada aqui e ali pela comunicação social, e a ouvir, reiteradamente, o elogio à forma pacífica como o povo tem enfrentado a crise criada pelos governos da burguesia instalada no poder. Escutamos a um homem do povo, instado a pronunciar-se acerca da crise, dizer, com o desalento e a angústia estampados no rosto, que «o melhor é não pensar». A SIC Notícias termina dizendo: «a maioria dos populares entrevistados estão resignados». O próprio primeiro-ministro, num atrevimento de pura hipocrisia, teve o desplante de, frente às câmaras da TV, vir agradecer a paciência com que o povo português tem enfrentado as dificuldades, incluindo o desemprego. Será que esta gente, por um momento, por um simples e fugaz momento, foi capaz de encarar o problema visto do outro lado, do lado de quem perdeu de um dia para o outro, sem perspectivas de a reaver, a única fonte de rendimento que lhe permitia manter um lar, a vida de uma família, e avaliar a dimensão do drama e do desespero a que isto conduz? Não, não o fizeram, porque senão nunca poderiam olhar para os números que avaliam a extensão do drama, e ver, com o olhar frio de tecnocrata, apenas números, e mais nada.

O apelo à não luta faz parte do papel que a comunicação social, dominada pelo grande capital, é obrigada a desempenhar nesta tragédia greco-portuguesa que eles querem fazer passar como um banal e alegre entremez. Esquecem-se, ou provavelmente nunca souberam, que a regra de ouro de qualquer contrato social é a defesa dos mais desprotegidos, das crianças, dos velhos, dos doentes, e não dos malabaristas do capital financeiro, dos banqueiros corruptos, dos agiotas e da imensa coorte de sicários ou simples mercenários que os servem e os incensam. A classe dominante sempre incentivou, ao longo dos séculos, os seus escravos à inércia, ao baixar dos braços, e em última análise, à traição.

«Buscaba el amanhecer
Y el amanhecer no era»

(Federico Garcia Lorca)

Mas, teimosamente, com extrema contumácia, sem pingo de vergonha na cara, há sempre alguém que, levantado do chão, sacudindo a poeira e de punho erguido, diz terminantemente – Não. Há sempre alguém, para quem o sonho é uma constante da vida, que se encarrega de mostrar o caminho à humanidade pela «route en lacets qui monte», tornando-nos mais dignos, mais humanos. Tem todo o cabimento aquela conhecida frase «penso nos outros, logo existo». Esta luta não é um divertimento, não há pódio, nem medalhas, nem palmas, não é fácil, nem tem um «happy end» programado, à nossa espera, no fim de cada jornada, porque nesta batalha umas vezes ganha-se, mas outras vezes perde-se. A derrota perpétua, essa está reservada apenas para aqueles que se acomodam e se furtam à luta. Aparentemente, dir-se-ia, por tantas vezes repetido, que este cenário teria algo a ver com o mito de Sísifo.

 
Como se sabe, Sísifo foi um rei de Corinto, a quem os deuses condenaram, por desobediência e para todo o sempre, a carregar às costas um enorme pedregulho até ao cimo do monte para, lá chegado, o deixar cair, invariavelmente, encosta abaixo, recomeçando tudo de novo. Tal tarefa, aparentemente sem sentido, cai necessariamente na categoria do absurdo. Albert Camus, no seu ensaio «O Mito de Sísifo», considera que «desde o momento em que o absurdo é reconhecido, ele torna-se a forma mais angustiante de todas as paixões». Será que a constatação do absurdo exige o suicídio filosófico? Camus responde: «Não. Exige revolta, porque o suicídio filosófico, que nega o absurdo por meio de explicações esotéricas ou irracionais, é uma autêntica negação da inteligência e da razão».

 
Mas aqui não existe qualquer dúvida, está tudo muito claro. Nesta luta são necessárias a firmeza e a determinação próprias de quem tem a certeza de que lado está a razão. E isso é suficiente para nunca aceitar que a repetição de eventuais derrotas possa vir a criar no espírito a ideia de que não há um caminho de esperança, mas, antes pelo contrário, que há muitos caminhos que poderemos percorrer da variadíssimas maneiras, e que a libertação das vítimas da fome, dos famélicos da terra, é possível. Que é viável a derrota do capitalismo e é possível um mundo com menos desigualdades, mais justiça social e paz entre as nações.

 
O papel de cada um de nós dentro da sociedade em que estamos inseridos, aqui e agora, é ajudar a perceber a situação política a todos os que manifestem dúvidas, participar em debates no emprego, em grupos de amigos ou vizinhos, nas colectividades, e em todos os locais possíveis, discutindo os problemas de hoje e todos os que tenham a ver com a nossa comunidade e com o nosso País. Que não se intimide face à catástrofe social. Que não se cale perante o roubo dos salários e das pensões. Que proteste contra o terramoto que abanou o mundo do trabalho graças à acção concertada e aprovada por unanimidade pela «bi-troika». Que se indigne perante todas as injustiças e todas as iniquidades. Que participe em manifestações que tenham como objectivo defender os seus direitos, e sobretudo ser solidário com a defesa dos direitos de todos. Em última análise, se outra saída não houver, quando a opressão atingir níveis insuportáveis e antes que morra de fome, que se revolte.
E, se possível, que traga outro amigo também, porque nesta rusga só não há lugar para os filhos da mãe.

«Cuidado companheiro!
A vida é pra valer
E não se engane não, tem uma só
(…)
A vida não é brincadeira, amigo»

(Vinícius de Moraes)

Dir-me-ão que isto são apenas palavras, e que infelizmente as palavras não mudam a realidade. Nada mais certo. Nisso, estamos totalmente de acordo. Todavia há palavras que nos ajudam a reflectir, a juntar as pontas, a compreender aquilo que nos rodeia e o significado real dos factos. A isso chama-se tomar consciência. Então, se as palavras conseguirem despertar a consciência de alguém, já cumpriram o seu papel, porque a consciência social, essa sim, tem fortes potencialidades para um dia (não sei quando, pois não tem data nem hora marcadas) poder vir a mudar a realidade. E o mundo. Sim. Talvez um dia. Quem sabe? Talvez quando «houver uma praça de gente madura…».
 
 ANTÓNIO IRIA REVEZ, médico
 
 
 
 

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