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domingo, 30 de setembro de 2012

Pacífico encrespado

Pacífico encrespado
por Luís Carapinha

 


Sinais inquietantes continuam a chegar da região que a estratégia de hegemonia dos EUA apelida de Ásia-Pacífico. O quadro de disputas cruzadas e instabilidade em que a China é perfilada como o «alvo a abater» tende a adquirir contornos permanentes. A «cartada territorial» volta a ser esgrimida e instrumentalizada em toda a linha dos mares da China. Sinónimo do avolumar de tensões, a Cimeira da Associação das Nações do Sudeste Asiático realizada em Julho terminou sem comunicado conjunto, o que acontece pela primeira vez em 45 anos de história. A última gota nesta perigosa corrente de escalada foi lançada nas últimas semanas pelo Japão por via do anúncio relativo à propriedade da ilha Diaoyu no Mar Oriental da China.

A atitude provocadora do desacreditado executivo de Yoshihiko Noda do Partido Democrático Japonês não constitui apenas uma perigosa manobra demagógica de um nacionalismo bafiento a que se presta, desta feita, a precária social-democracia nipónica. Salta à vista o arrastado contexto global de agravamento da crise capitalista, em que o Japão é por excelência ilustração do quadro proeminente de estagnação. Terceira economia do planeta, a dívida pública japonesa galgou já os 200 por cento do PIB e o fosso das desigualdades não cessa de aumentar. Ninguém esquece igualmente os impactos desta crise no arrefecimento da economia chinesa – segunda do planeta e que ainda assim ostenta um crescimento do PIB perto dos oito por cento referente ao primeiro semestre do ano –, tal como não é esquecido o calendário político chinês, em vésperas da realização de importante congresso partidário e da programada renovação substancial das lideranças no PCCh e no Estado. Momento pois para [o imperialismo] tentar agitar as águas em casa alheia.


Ao elevar a parada territorial em relação ao arquipélago desabitado das ilhas Diaoyu, reconhecido internacionalmente como território chinês no quadro resultante da derrota do fascismo em 1945, o grande capital japonês dá sinal da sua natureza agressiva e expansionista, não perdendo simultaneamente o ensejo para assestar mais uma tacada no ordenamento jurídico internacional saído do pós-guerra.

O velho militarismo japonês, responsável por cruéis guerras de ocupação e crimes hediondos como o massacre de Nanquim, não está em condições de se reerguer na sua antiga costura. O actual ressurgimento da componente militar e intervencionista do imperialismo japonês dá-se no quadro do reforço da aliança militar com os EUA. É pela mão do imperialismo norte-americano e das prioridades estratégicas da sua agenda expansionista, fustigada pelos imperativos da presente situação de declínio e fenomenais desequilíbrios económicos, que o imperialismo nipónico redescobre a sua vocação. É a «protecção» de Washington – que dispõe de bases militares e largos milhares de militares ao serviço no Japão – que dá cobertura às pretensões territoriais que Tóquio esbraceja contra a China (a alteração arbitrária do estatuto das ilhas Diaoyu, ainda nos anos 50, constitui aliás exemplo crasso). Integrando-se no mesmo passo o antigo império do sol nascente na projecção de forças global movida pelos EUA e NATO. Veja-se o exemplo da participação militar mascarada do Japão de apoio às guerras do Afeganistão e Iraque, em violação da própria Constituição, e o seu papel no projecto global de escudo antimíssil que os EUA movem com vista a anular o potencial nuclear da Rússia e China.

Nas manobras de desestabilização em curso cabe aos EUA o papel de Tartufo. Não olharão a meios para poder fechar o círculo de contenção, apaziguamento e cooptação, tarefa que alguns designam de «transição pacífica» da China. A emergência da dupla condição chinesa de «parceira económica» incontornável e principal obstáculo-alvo do imperialismo explicam a «reorientação» do foco estratégico da máquina militar dos EUA para a Ásia-Pacífico, anunciada por Obama este ano. É esta a corrente de fundo que aquece as águas revoltosas nos mares da China.

 
Fonte: Avante
 
 
 

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