Análise da economia durante o curso da construção socialista na URSS


Análise da economia durante o curso da construção socialista na URSS



Relativamente à economia, com a formulação do Primeiro Plano de Planificação Central, situaram-se no centro do debate teórico e da luta política os seguintes assuntos: É a produção socialista produção de mercadorias? Qual é o papel da lei do valor, das relações mercadoria-dinheiro, na construção socialista?

Consideramos incorrecta a análise teórica que diz que a lei do valor é uma lei de desenvolvimento do modo comunista de produção na sua primeira fase (socialista). Esta posição tornou-se dominante na década de 50 na URSS e na maioria dos PPCC. Esta posição fortaleceu-se devido à manutenção das relações mercadoria-dinheiro durante o trânsito planificado da produção individual à produção cooperativa. Esta base material acentuou as deficiências teóricas e as debilidades políticas na formulação e aplicação da planificação central. Durante as décadas posteriores, as políticas oportunistas debilitaram ainda mais a Planificação Central, erodiram a propriedade social e fortaleceram as forças contra-revolucionárias.

O primeiro período da construção socialista até à II Guerra Mundial defrontou-se com o problema básico e principal da abolição da propriedade capitalista e da gestão planificada dos problemas sociais e económicos herdados do capitalismo e que exacerbaram com o cerco e a intervenção imperialista. Foi durante este período que o poder soviético reduziu drasticamente a profunda desigualdade que a revolução tinha herdado do império czarista.


Entre 1917-1940, o poder soviético fundamentalmente alcançou êxitos. Levou a cabo a electrificação, a industrialização da produção dos meios de transporte e a mecanização de uma grande parte da produção agrícola. Iniciou-se a produção planificada e alcançaram-se níveis impressionantes de desenvolvimento da produção industrial socialista. Desenvolveram-se com êxito as capacidades produtivas domésticas em todos os ramos industriais. Criaram-se as cooperativas de produção (kolkhoses) e as granjas estatais (sovkhoses), e assim se estabeleceu a base para a expansão e predomínio das relações comunistas na produção agrícola. Levou-se a cabo a «revolução cultural». Começou a formação de uma nova geração de especialistas e cientistas comunistas. O êxito mais importante foi a completa abolição das relações capitalistas de produção, com a abolição da venda da força de trabalho, criando assim a base para a nova formação socio-económica.

A aplicação de algumas «medidas transitórias», na perspectiva de uma completa abolição das relações capitalistas, era inevitável num país como a Rússia dos anos 1917-1921.

Os factores que, até certo ponto, forçaram o Partido Comunista Bolchevique a aplicar uma política temporal de preservação das relações de produção capitalistas foram os seguintes: a composição de classe, onde o elemento agrário pequeno-burguês era maioritário, a falta de mecanismos de distribuição, fornecimento e monitorização, o apoio à pequena produção e, principalmente, a dramática baixa das condições de sustento e vida derivadas da destruição causada pela guerra civil e a intervenção imperialista. Todos estes factores dificultaram o desenvolvimento a médio prazo da planificação central.

A Nova Política Económica (NEP), que se aplicou depois da guerra civil, foi uma política de concessões temporais ao capitalismo. Tinha o objectivo básico de reconstruir a indústria depois dos estragos da guerra e, sobre esta base, construir umas relações no âmbito da produção agrícola que pudessem «atrair» os camponeses às cooperativas. Uma série de empresas foram entregues aos capitalistas para a sua utilização (sem que tivessem qualquer direito de propriedade sobre as empresas), desenvolveu-se o comércio, o intercâmbio entre a produção agrícola e a indústria socializada regulou-se na base do conceito de «imposto em espécie». Deu-se a possibilidade aos camponeses de porem no mercado os remanescentes da produção agrícola.

As manobras e concessões temporais às relações capitalistas que se exigem em determinadas circunstâncias e condições especiais não são, de forma alguma, uma característica inevitável do processo de construção socialista. É abusivo e enganador utilizar a NEP, tal como fez a direcção do PCUS durante a perestroika nos anos 80, para justificar o regresso à propriedade privada e às relações capitalistas.

A nova fase de desenvolvimento das forças produtivas em finais da década de 20 permitiu a substituição da NEP pela política de «ataque socialista contra o capitalismo», que tinha como objectivo principal a completa abolição das relações capitalistas. Retiraram-se as concessões aos capitalistas e desenvolveu-se a política de colectivização, isto é, a completa organização cooperativa da economia agrícola, principalmente na sua forma desenvolvida, o kolkhose [13]. Ao mesmo tempo, desenvolvem-se (ainda que de forma limitada) os sovkhoses, as unidades estatais-socialistas de produção agrícola que se baseavam na mecanização da produção e cuja produção total era de propriedade social.

Em 1928 começou o primeiro plano quinquenal, 7 anos depois da vitória da Revolução (a guerra civil terminou em 1921). O poder soviético experimentou dificuldades desde que chegou o momento de formular um plano central para a economia socialista, principalmente devido às ainda existentes relações capitalistas (NEP) e a um número excepcionalmente grande de produtores individuais de mercadorias, particularmente camponeses. As debilidades também eram evidentes no factor subjectivo, o Partido, e por isso foi necessário, desde um determinado momento, a dependência quase exclusiva dos especialistas burgueses.

As condições específicas (cerco imperialista, ameaça de guerra em combinação com um grande atraso) forçaram a promoção da colectivização a níveis acelerados, o que agudizou a luta de classes, especialmente nas áreas rurais. Naturalmente que houve erros e alguns excessos burocráticos. Mas os erros e certos exageros burocráticos no desenvolvimento do processo de colectivização na produção agrícola foram apontados pelo próprio Partido nas suas decisões desse período [14].

No entanto, a orientação do poder soviético para o reforço e a generalização deste processo ia na direcção correcta. Tinha o objectivo de desenvolver uma forma transitória de propriedade (cooperativa) que contribuiria para a transformação da pequena produção individual de mercadorias na produção social directa.

A política de «ataque socialista contra o capitalismo» foi levada a cabo em condições de intensa luta de classes. Os kulaks (a classe burguesa rural), as camadas beneficiadas pela NEP (homens da NEP) e os sectores da intelligentsia que procediam das antigas classes exploradoras reagiram de múltiplas formas, com acções de sabotagem contra a indústria (por ex. o assunto «Shakty» [15]) e acções contra-revolucionárias nas povoações. Estes interesses de classe anti-socialistas reflectiram-se no PC, onde se desenvolveram correntes oportunistas.

As duas tendências básicas da «oposição» (Trotsky-Bukarin) que agiram durante este período tinham como base a absolutização do elemento de atraso da sociedade soviética. Durante a década de 30 as suas análises convergiram na tese de que a superação das relações capitalistas na URSS era prematura. As suas posições foram rejeitadas pelo Partido Comunista dos Bolcheviques da União e não foram confirmadas pela realidade.

Entretanto, várias forças oportunistas se uniram a forças abertamente contra-revolucionárias que estavam a elaborar planos para derrubar o poder soviético, em colaboração com os serviços secretos de países imperialistas.

As condições imperantes ditaram, com os julgamentos de 1936 e 1937, o confronto directo e decidido destes centros, que revelaram conspirações com elementos do exército (caso de Tukhachevsky, que foi reabilitado depois do XX Congresso), assim como com os serviços secretos de países estrangeiros, especialmente da Alemanha.

O facto de alguns quadros dirigentes do Partido e do poder soviéticos encabeçarem correntes oportunistas indica que, inclusive num quadro de vanguarda, é possível o desvio, a debilidade na hora de se enfrentar a intensidade da luta de classes e, finalmente, a ruptura dos seus laços com o movimento comunista e o alinhamento com a contra-revolução.

Depois da Segunda Guerra Mundial, o debate sobre as leis da economia socialista, debate que se tinha atrasado devido à guerra, voltou a intensificar-se. Deu-se um confronto sobre problemas específicos [16] entre duas correntes teóricas e políticas básicas, os «mercantilistas» e os «anti-mercantilistas» (tovarniki e anti-tovarniki), confrontação em que estiveram implicados quadros do Partido e economistas.

I.V. Estaline, como Secretário-geral do CC do Partido, esteve na primeira linha da discussão organizada no seio do Partido e apoiou a corrente anti-mercantilista. Contribuiu para a formulação das directrizes políticas nessa direcção, como por exemplo a fusão dos kolkhoses e a dissolução das «empresas auxiliares» nos kolkhoses (que produziam materiais de construção). Enfrentou-se a corrente que pressionava para se fortalecerem as relações mercadoria-dinheiro [17] e rejeitava as propostas de entrega de meios de produção mecanizada aos kolkhoses. Reconheceu que a produção socialista não é produção de mercadorias e, assim, a lei do valor não pode conciliar-se com as suas leis fundamentais. Sublinhou o papel da Planificação Central na economia socialista. Argumentou que os meios de produção não são mercadoria, apesar do facto de parecerem mercadoria «na forma, mas não no conteúdo». Só se convertem em mercadoria no comércio exterior [18]. Também reconheceu que a operatividade da lei do valor (das relações mercadoria-dinheiro) na URSS tinha as suas raízes na produção agrícola e individual, que a lei do valor não regula a produção e a distribuição socialistas. A discussão manteve-se também contra os economistas «de mercado» e os dirigentes políticos que argumentavam que a lei do valor é também, na generalidade, uma lei da economia socialista. Fez-se uma crítica correcta àqueles economistas que apoiavam a completa abolição da distribuição sob a forma monetária, sem ter em conta as limitações objectivas que ainda existiam na base produtiva da sociedade daquele momento.

Um ponto débil desta análise era a tese de que os meios de consumo se produzem e distribuem como mercadoria [19]. Esta tese era correcta apenas no que respeita aos produtos de produção socialista destinados ao comércio externo, assim como ao intercâmbio de produtos entre a indústria socialista e a produção cooperativa individual. Era incorrecta no que respeita aos restantes meios de consumo da produção socialista, pois não são mercadoria, mesmo que não se distribuam livremente.

Correctamente, esta análise pensava que, na URSS, a propriedade cooperativa (kolkhose) e a circulação de produtos de consumo individual sob a forma de mercadorias tinham começado a funcionar como um poderoso travão ao desenvolvimento das forças produtivas porque bloqueavam o desenvolvimento pleno da Planificação Central em todo o espectro da produção e distribuição. Esboçava as diferenças entre as duas classes que cooperavam, a classe operária e a classe agrária kolkhosiana, mas também a necessidade de as abolir através da abolição planificada da mercantilização da produção agrícola e da transformação dos kolkhoses em propriedade social [20]. No começo dos anos 50, a direcção soviética pensou, correctamente, que os problemas a nível económico eram expressão da agudização da contradição entre as forças produtivas que se estavam a desenvolver e as relações de produção que estavam a ficar para trás. O desenvolvimento das forças produtivas tinha alcançado um novo nível depois da reconstrução da economia no pós-guerra. Um novo impulso dinâmico para um maior desenvolvimento das forças produtivas exigia um aprofundamento e ampliação das relações socialistas (comunistas imaturas). Este atraso afectava a Planificação Central e o aprofundamento do carácter comunista das relações de distribuição, uma participação operária mais enérgica e consciente na organização do trabalho e no controlo de baixo para cima da sua administração, a erradicação de toda a forma de produção individual de mercadorias e a subordinação das cooperativas mais desenvolvidas directamente à produção social.

Tinha amadurecido a necessidade de se ampliarem as relações comunistas, de forma consciente, bem planificada, isto é teórica e politicamente preparada. Também tinha amadurecido a necessidade de ganhar supremacia naqueles terrenos da produção social em que, no período anterior, em pleno domínio das relações comunistas, ainda não era possível (do ponto de vista da sua maturidade material, a produtividade do trabalho).

A maturidade da ampliação das relações comunistas na produção agrícola refere-se fundamentalmente à capacidade da indústria de prover a correspondente maquinaria, à capacidade da Planificação Central para realizar tarefas de melhoria da produtividade agrícola, à protecção perante as inclemências do tempo, etc. Apesar do facto de nos começos dos anos 50 ainda existirem desigualdades na URSS, tinham-se criado importantes condições prévias de mecanização e infra-estruturas que permitiam avançar nessa direcção. O Relatório do Progresso do CC ao PC (b) no XIX Congresso menciona uma série de dados que provam a conclusão anterior – a existência de 8.939 Parques de tractores, o incremento da potência de arrasto dos tractores em 59% em relação ao nível de antes da guerra, a aplicação da irrigação e os projectos de reclamação de terras durante a reconstrução pós-guerra, os passos dados na fusão de kolkhoses durante o período de 1950-1952 (97 000 kolkhoses em 1952 face a 254 000 em 1950, etc. [21].

Não obstante ainda restavam pequenos kolkhoses [22] que tinha de se fundir para criar outros maiores em direcção à socialização da produção agrícola, tal como apoiava a direcção do Partido Comunista (Bolchevique). O objectivo era tirar os excedentes da produção dos kolkhoses da distribuição mercantil e a sua passagem ao sistema de intercâmbio entre a indústria estatal e os kolkhoses. Teve também início um debate sobre as possibilidades de criar um órgão económico unificado que avançasse para um «sector produtivo global», que tivesse a responsabilidade assinar toda a produção de produtos de consumo.

A direcção do Partido e do Estado adoptou uma posição clara no debate referente ao tema das proporções entre a Secção I da produção social (produção de meios de produção) e a Secção II (produção de bens de consumo). Defendeu correctamente a prioridade essencial da Secção I na distribuição proporcional planificada do trabalho e a produção entre os diferentes ramos da indústria socialista. A reprodução ampliada e a acumulação socialista (riqueza social), necessárias para a futura ampliação da prosperidade social, dependem desta categoria de produção (Secção I).

As posições e directrizes correctas de Estaline e dos economistas e quadros

«anti-mercantis» do PC não conseguiram levar à elaboração de um amplo plano teórico e uma correspondente linha política, capaz de enfrentar as posições teóricas e as decisões políticas orientadas para o mercado que se estavam a fortalecer. Contribuíram para isto as fortes pressões sociais, assim como as discrepâncias, deficiências e flutuações que existiam no seio da corrente «anti-mercantil».

A resistência social (dos camponeses kolkhosianos, executivos da produção agrícola e a indústria) à necessidade de uma ampliação e aprofundamento das relações socialistas de produção expressou-se na luta interna do partido no começo dos anos 50, a nível político e ideológico. O duro debate que terminou com a aceitação teórica da lei do valor como lei do socialismo levou a decisões políticas com consequências imediatas e poderosas no rumo do desenvolvimento socialista, em comparação com o período anterior à guerra, quando o atraso material tinha feito com que o efeito destas posições teóricas fosse menos daninho.

Estas forças expressaram-se politicamente através das posições adoptadas nas decisões do XX Congresso do PCUS, congresso que demonstrou ser o da supremacia do oportunista desvio de direita. Foram-se adoptando decisões políticas que ampliavam as relações mercadoria-dinheiro (potencialmente capitalistas) em nome da correcção das debilidades da Planificação Central e da administração das unidades produtivas socialistas.

Para solucionar os problemas que surgiram na economia recorreu-se a meios e vias que pertenciam ao passado. Com a promoção das políticas «de mercado», em vez do reforço da propriedade social e da Planificação Central, da homogeneização da classe operária (com a ampliação das capacidades para a intensificação para a multi-especialização, da alternância na divisão técnica do trabalho), da participação operária na organização do trabalho, do controlo operário de baixo a cima, começou-se a fortalecer a tendência contrária. Em tais circunstâncias, o nível de consciência social começou gradualmente a retroceder. Perdeu-se a experiência prévia e a experiência da indústria soviética e do movimento stakonovista no controlo de qualidade, numa mais efectiva organização e administração, nas intervenções para a conservação do material e do tempo de trabalho.

Os economistas «de mercado» (Lieberman, Nemtsinov, Trapeznikov, etc.) interpretaram erroneamente os problemas existentes na economia, não como debilidades subjectivas na planificação [23], mas como consequências derivadas da debilidade objectiva da Planificação Central para responder ao desenvolvimento do volume de produção, à variedade de sectores, e à variedade de produtos necessários à satisfação das novas necessidades sociais.

Afirmavam que a causa teórica era a negação voluntarista do carácter mercantil da produção em socialismo, a subestimação do desenvolvimento da agricultura e sobrestimação da possibilidade de intervenção subjectiva na administração económica.

Mantinham que não era possível que os organismos centrais determinassem a qualidade, a tecnologia e os preços de todas as mercadorias e o nível dos salários, e que o uso de mecanismos de mercado era necessário para facilitar os objectivos de uma economia planificada. Desta maneira prevaleceram, a nível teórico, as teorias da «produção mercantil socialista» ou do «socialismo com mercado», e a aceitação da lei do valor como lei do modo de produção socialista (comunista imaturo) que, inclusive, actua na fase de desenvolvimento socialista. Estas teorias foram a base para a formulação das políticas económicas [24].

A política de debilitação da Planificação Central e da propriedade social acelerou-se depois do XX Congresso. Em 1957, os ministérios de ramo que dirigiam a produção industrial na URSS e em cada república foram dissolvidos, e criaram-se órgãos de Administração Regional «Sovnarkhoz» (Conselhos Económicos Regionais). Desta forma debilitou-se a direcção central de planificação [25]. Em vez de planificar a transformação dos kolkhoses em sovkhoses e, especialmente, iniciar a transferência planificada dos kolkhoses ao controlo estatal, em 1958 os tractores e outra maquinaria [26] passaram a ser propriedade dos kolkhoses [27], política que tinha sido rejeitada no passado. Estas mudanças não só não resolveram os problemas como, ao contrário, provocaram outros problemas ou criaram outros novos, tais como a escassez de rações para o gado e um atraso na renovação técnica dos kolkhoses.

Em meados dos anos 60, os erros de natureza subjectiva na administração do sector agrícola da economia foram indicados como a causa dos problemas [28]. As reformas posteriores incluíram: a redução das quotas entregues ao Estado pelos kolkhoses [29], a possibilidade de vender os excedentes a preços mais altos, o levantamento das restrições às transacções das famílias kolkhosianas e a supressão do imposto sobre a propriedade privada de animais. Perdoaram-se as dívidas dos kolkhoses ao Banco Estatal, alargaram-se os prazos para saldar as dívidas por adiantamentos de dinheiro, permitiu-se a venda de rações para o gado directamente aos proprietários privados de animais. Assim se manteve e ampliou a parte da produção agrícola que procedia de famílias rurais individuais e dos kolkhoses para a venda livre no mercado [30], ao mesmo tempo que se aprofundava o atraso na produção pecuária e se incrementava a desigualdade na satisfação das necessidades de produtos agrícolas entre as diferentes regiões e Repúblicas da URSS.

Aplicou-se uma política idêntica, de reforço do carácter de mercadoria (a expensas do carácter directamente social) da produção industrial, conhecida como as «reformas Kosygin» [31] (o sistema de «responsabilidade económica» - khozrachet» - das empresas de natureza substantiva e não formal). Argumentou-se que isto combateria a redução da taxa anual de crescimento da produtividade laboral e da produção anual que se observava nos primeiros anos da década de 60, como resultado das medidas que socavaram a Planificação Central na direcção dos sectores industriais (Sovnarkhoz.1957).

A primeira onda de reformas foi lançada no intervalo entre o XXIII (1966) e o XXIV (1971) Congressos. De acordo com o Novo Sistema, as remunerações adicionais (prémios) aos directores seriam calculados não sobre a base do sobre-cumprimento do plano de produção em termos de volume de produção [32], mas sobre a base do sobre-cumprimento do plano de vendas, e dependeriam da taxa de lucro da empresa. Uma parte da remuneração adicional dos trabalhadores também vinha do lucro, tal como uma maior satisfação das necessidades de habitação, etc. Incrementaram-se diferenças salariais. Deu-se a possibilidade de fazer transações horizontais de mercadorias e dinheiro entre empresas, de acordos directos com «unidades de consumidores e organizações comerciais», de fixação de preços, de obtenção de lucros com base nestas transações, etc. O Plano Central determinava o nível total de produção e inversão só para as novas empresas. A modernização das empresas antigas era financiada com os lucros das empresas.

Estas reformas afectavam todo o sector da denominada «propriedade de todo o povo», isto é, afectavam os próprios sovkhoses (herdades estatais). A partir de uma decisão do CC do PCUS e do Conselho de Ministros da URSS (13 de Abril de 1967), os sovkhoses começaram a passar ao regime de plena responsabilidade económica. Em 1975, todos os sovkhoses trabalhavam «sob a plena responsabilidade económica» [33].

Este deslize teórico e o correspondente passo atrás político na URSS teve lugar durante uma nova fase, quando o maior nível de desenvolvimento das forças produtivas necessitava de um correspondente desenvolvimento da Planificação Central. Por outras palavras, tinha amadurecido a necessidade de um aprofundamento das relações socialistas.

As reformas do mercado escolhidas não eram as únicas possíveis. O confronto dos problemas económicos requeria a elaboração de incentivos e índices da Planificação Central mais efectivos, bem como a sua aplicação a nível sectorial e intersectorial, e de empresa. Ao mesmo tempo rejeitaram-se propostas e planos para a utilização de computadores e tecnologias de informação [34], o que teria contribuído para melhorar o processamento técnico dos dados, com o fim de melhorar a observação e o controlo da produção de valores de uso através de indicadores quantitativos e qualitativos.

Com as reformas do mercado, com o distanciamento da unidade de produção socialista da Planificação Central, o carácter socialista da propriedade dos meios de produção debilitou-se. Criou-se a possibilidade de violar o princípio de distribuição «segundo o trabalho».

O XXIV Congresso do PCUS (1971), com as suas directrizes sobre a formulação do 9º Plano Quinquenal (1971-1975), inverteu a prioridade proporcional da Secção I sobre a Secção 2. Esta inversão já tinha sido proposta no XX Congresso, mas não foi aceite. A modificação foi justificada como uma decisão que reforçaria o nível de consumo popular. Na realidade, tratava-se de uma decisão que violava a lei socialista e criava efeitos negativos para o crescimento da produtividade do trabalho. O desenvolvimento da produtividade do trabalho – um elemento fundamental para o incremento da riqueza social, a satisfação das necessidades e o desenvolvimento total do homem – pressupõe o desenvolvimento dos meios de produção. A planificação deveria ter tratado com mais eficácia a seguinte necessidade: a introdução da tecnologia moderna na indústria, nos serviços de transporte, no armazenamento e distribuição de produtos. Esta decisão de inverter as proporções não só não ajudou a gerir as contradições que se tinham expressado (por ex. o excesso de receita sob a forma de dinheiro e a falta de uma quantidade adequada de bens de consumo, tais como electrodomésticos e televisões a cores), mas afastou a Planificação Central do seu objectivo básico de incrementar a prosperidade social. Além disso, agravou a contradição entre o nível de desenvolvimento das forças produtivas e o nível das relações comunistas de produção e distribuição.

Nos anos 80, a nível político, as decisões do XXVII Congresso (1986) supuseram outra opção oportunista. Posteriormente, a contra-revolução foi promovida com a aprovação da lei (1987), que legitimava institucionalmente as relações económicas capitalistas sob o disfarce de aceitação de diversas formas de propriedade.

Em começos dos anos 90, a proposta social-democrata da «economia de mercado planificada» (programa do CC do PCUS no XXVIII Congresso) foi rapidamente abandonada em benefício da posição da «economia de mercado regulada», que foi depois substituída pela «economia de livre mercado».

A direcção que se tornou predominante pode hoje analisar-se não só teoricamente, mas também pelos seus resultados. Duas décadas depois da aplicação dessas reformas, os problemas tinham-se agravado claramente. A estagnação apareceu pela primeira vez na história da construção socialista. O atraso tecnológico continuou a ser uma realidade na maioria das indústrias. Começaram a escassear muitos produtos de consumo, e surgiram problemas adicionais no mercado, pois as empresas provocavam subidas artificiais dos preços, acumulando as mercadorias em armazéns ou fornecendo-as em quantidades controladas.

Um índice importante que reflecte o retrocesso da economia soviética nos anos 70 foi a perda de peso da URSS na produção mundial de matérias-primas industriais e de manufacturas.

A cada vez maior interacção de elementos de mercado na produção social directa do socialismo debilitou-o. Conduziu a um decréscimo nas dinâmicas de desenvolvimento socialista. Fortaleceu os interesses a curto prazo individuais e de grupo (com um incremento nas diferenças salariais entre trabalhadores em cada empresa, entre os trabalhadores e o mecanismo de gestão, entre as diferentes empresas) frente aos interesses globais da sociedade. Com o passar do tempo, criaram-se as condições sociais para o aparecimento da contra-revolução e a sua vitória, com a perestroika como veículo.

Com estas reformas, criou-se a possibilidade de quantidades de dinheiro que tinham sido acumuladas inicialmente por meios ilegais (contrabando, etc.) serem investidas no mercado negro (ilegal). Estas oportunidades foram principalmente para funcionários das camadas gestoras das empresas e dos sectores de produção e para quadros do comércio externo. A Procuradoria-Geral da URSS dispunha de dados relativos à denominada «para-economia» (economia paralela). De acordo com as estatísticas, uma parte importante da produção cooperativa ou estatal agrícola era canalizada para os consumidores por vias ilegais.

Ampliaram-se as diferenças de receitas entre os produtores agrícolas individuais, os koljoniks, bem como a oposição à tendência para o fortalecimento do carácter social da produção agrícola. Uma parte dos camponeses e dos quadros gestores dos kolkhoses, que estavam a enriquecer, viu-se fortalecida como camada social que dificultava a construção socialista.

As diferenças sociais na indústria foram ainda mais intensas com a concentração dos «benefícios empresariais». O denominado «capital sombra», resultado não apenas dos benefícios empresariais mas também do mercado negro, de actos criminosos de má utilização do produto social, procurava funcionar legalmente como capital na produção, isto é, na privatização dos meios de produção e no restabelecimento do capitalismo.


Os proprietários deste capital formaram uma força social impulsionadora da contra-revolução. Utilizaram a sua posição nos organismos estatais e do partido e o apoio de sectores da população com dúvidas, que eram vulneráveis à influência da ideologia burguesa (por ex. uma parte da intelectualidade, sectores da juventude, especialmente estudantes que, por diferentes razões, estavam insatisfeitos [35]). Estas forças, directa ou indirectamente, influenciaram o Partido, fortalecendo a sua erosão oportunista e a sua degeneração contra-revolucionária, que se expressou com políticas como a «perestroika», que procuravam a consolidação institucional das relações capitalistas. Isto conseguiu-se depois da perestroika, com o derrube do socialismo.

 
 
 

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