Carta aberta do Comandante das FARC ao General Alzate

Carta aberta do Comandante das FARC ao General Alzate
Escrito por Timoleón Jiménez - Timoshenko


"Interesses alheios a nossa realidade, como a guerra fria, impuseram a doutrina de segurança nacional às forças armadas colombianas, com suas correspondentes sequelas de violações aos direitos humanos e o levante armado, situação que se agravou ainda mais com a imposição das chamadas guerras contra as drogas e o terrorismo, que não eram nem de perto nossas.

É fato comprovado que a noção de narco-guerrilhas, idealizada pelo embaixador norte-americano Lewis Tambs, em 1984, quando vinculou sem o menor respaldo comprobatório as FARC ao famoso complexo de cocaína de Tranquilandia, não tinha outro propósito que dissimular a aliança entre o Pentágono, a CIA e as máfias colombianas para fornecer armas contra a Nicarágua.

Porém, ainda que o próprio Congresso estadunidense tenha descoberto e publicado a trama que vinculava o governo de Ronald Reagan e Lewis Tambs aos cartéis de Medellín e Cali, em uma suja negociata que enriqueceu extremamente personagens, como Gonzalo Rodríguez Gacha e Pablo Escobar, foram as FARC que terminaram carregando a famosa difamação."

A grande imprensa e o anedotário colombiano, cada dia mais assimiláveis por obra do monopólio na propriedade das grandes mídias, frequentemente constroem frases altissonantes com relação ao conflito colombiano. Agora a moda é aquela que, fazendo relação com seu caso, fala do primeiro general em serviço ativo que cai nas mãos das FARC em cinquenta anos de guerra.

Trata-se de um caso excepcional e raríssimo, ainda que também possa indicar que a profundidade do confronto começa a afetar as mais altas hierarquias do comando militar, algo impensável até agora. É claro que esta última interpretação não resulta do agrado do Estabelecimento, que prefere atribuir o fato ao azar ou, inclusive, a sua negligência pessoal.

O primeiro a fazê-lo, curiosamente, foi o Presidente Santos, talvez afetado pelo fato do senador Uribe ter se encarregado de publicar a notícia. Antes de expressar algum tipo de preocupação pela vida ou pela liberdade de um general da República, tinha que exigir explicações sobre seus motivos para estar expondo-se de tal modo.

Sem reparar que dito questionamento colocava em evidencia uma verdade inocultável. Ninguém que baixe a guarda um segundo, nem sequer o comandante de uma força multidisciplinar de combate, ainda em meio a sua área de operações, se encontra a salvo de uma ação da guerrilha na Colômbia. Mensagem desalentadora à confiança dos investidores.

Diz-se que o senador Uribe pode mover-se com liberdade graças aos mais de 300 integrantes dos corpos de segurança do Estado que trabalham as vinte e quatro horas para protegê-lo. Uma radiografia exata de sua segurança democrática. Algo muito sério deve acontecer em um país onde apenas se sente seguro quem está rodeado por dezenas de escoltas fortemente armadas.

Dias atrás, na zona rural de Tame, uma patrulha da Força de Tarefa Quiron, também tinha sido surpreendida pelas FARC, que tinham levado consigo dois soldados profissionais. O tenente e mais quatro policiais da delegacia da ilha Gorgona, no Pacífico, faleceram duas semanas depois, em uma ação relâmpago das FARC que surpreendeu por sua audácia.

E apenas menciono ações militares amplamente registradas pelas mídias. Você e eu sabemos que são muitas as ações que ocorrem por todo o país, cuja realização se evita noticiar. Não quer afugentar capitais, nem dar destaque às FARC, a quem se insiste em apresentar como vencidas. Sua captura contribuiu, sem dúvida, para colocar as coisas em um lugar mais justo.

Em primeiro lugar, quanto a nossa redução. Não vou aqui engrandecer nossas forças, porém é inegável que são maiores que o dito pelo senhor Ministro de Defesa no jornal. Você teve a oportunidade de marchar com nossas unidades em meio a enorme perseguição ordenada, e sabe bem que tampouco são integradas pelos seres perversos descritos nos informes oficiais.

Conversou tranquila e longamente com vários de nossos comandantes e combatentes, depois de ser detido e conduzido por eles. Estou certo de que o tema da paz e as conversações de Havana fizeram parte dessas trocas. Pelo que dizem nossos garotos a respeito, você, tampouco, pareceu um homem intolerante e rude, mas alguém com o qual se podia falar.

Um general da República e seu objetivo de alto valor sentados, frente a frente, em meio ao inverno implacável da selva chocoana, talvez prefigurem o que podia ser a Colômbia em um cenário de reconciliação. Se o capturado tivesse sido nosso, as coisas teriam sido muito distintas. O desejável, já que queremos a paz, é que as coisas deixem de ocorrer desse modo.

Por outro lado, sua detenção também abriu espaço para outras realidades. É certo que o Presidente Santos agiu precipitadamente ao suspender os diálogos de paz, condicionando sua retomada à rápida libertação. Porém, paralelamente, enviou em segredo uma proposta própria de alternativa. É claro que não se trata da mesma maneira um general e alguns soldados.

Já tínhamos constatado isso com os policiais e militares que permaneceram durante longos anos na condição de prisioneiros de guerra à espera de uma troca pelos nossos. A opção, então, foi difamar nossas propostas e ações, sem reparar no drama dos detidos, condenados a um prolongado cativeiro. Teria sido muito diferente caso existisse um diálogo.

Na realidade, tudo na Colômbia seria muito diferente se a oligarquia liberal conservadora dominante tivesse aceitado dialogar em busca de soluções pacíficas e democráticas aos problemas gerados na Colômbia rural. Para a história ficaram as múltiplas petições feitas, nesse sentido, pelos campesinos da colônia agrícola de Marquetalia.

Todavia, continuamos destinados a fornecer recursos energéticos, minerais e de biodiversidade aos grandes centros da economia mundial. Ao mesmo tempo, somos os receptores das mercadorias produzidas por eles, até o extremo de nossa economia camponesa e os alimentos locais produzidos no passado sejam condenados a desaparecer em benefício da importação.

Interesses alheios a nossa realidade, como a guerra fria, impuseram a doutrina de segurança nacional às forças armadas colombianas, com suas correspondentes sequelas de violações aos direitos humanos e o levante armado, situação que se agravou ainda mais com a imposição das chamadas guerras contra as drogas e o terrorismo, que não eram nem de perto nossas.

É fato comprovado que a noção de narco-guerrilhas, idealizada pelo embaixador norte-americano Lewis Tambs, em 1984, quando vinculou sem o menor respaldo comprobatório as FARC ao famoso complexo de cocaína de Tranquilandia, não tinha outro propósito que dissimular a aliança entre o Pentágono, a CIA e as máfias colombianas para fornecer armas contra a Nicarágua.

Porém, ainda que o próprio Congresso estadunidense tenha descoberto e publicado a trama que vinculava o governo de Ronald Reagan e Lewis Tambs aos cartéis de Medellín e Cali, em uma suja negociata que enriqueceu extremamente personagens, como Gonzalo Rodríguez Gacha e Pablo Escobar, foram as FARC que terminaram carregando a famosa difamação.

Triste papel coube desempenhar as forças armadas colombianas, convertidas em um simples apêndice da América do Norte, em fenômenos criminosos como o desaparecimento forçado, as execuções extrajudiciais, o paramilitarismo, a remoção e o desterro de centenas de milhares de compatriotas, apenas para servir aos interesses dos Estados Unidos.

Desde sempre as FARC-EP estão empenhadas na reconstrução e reconciliação nacional, sobre bases de soberania, independência, desenvolvimento econômico e justiça social. Fomos obrigados a fazer a guerra, da qual estamos dispostos a deixar, caso realmente se garanta em nosso país o debate livre e aberto de ideias, sem ódios nem perseguições. Caso se abra a democracia real.

Acreditamos, general Alzate, que alguma voz sábia deve brotar do seio das forças armadas, após meio século de falhas operações para exterminar a oposição política. As velhas concepções da guerra total devem ceder, diante de outras noções de segurança que enfatizem os verdadeiros interesses nacionais, os das grandes maiorias, não os de umas elites endinheiradas e egoístas.

Nosso comandante Manuel Marulanda Vélez sempre mostrou interesse em dialogar com os comandos militares sobre o tema da paz, o que nunca foi permitido, sob a desculpa de que as forças armadas não são deliberativas. Vocês sabem tão bem quanto nós que não é assim. Sua voz pesa e define muitas coisas. E muito poderíamos falar sobre isso.



TIMOLEÓN JIMÉNEZ

COMANDANTE DO ESTADO MAIOR CENTRAL DAS FARC-EP
Montanhas da Colômbia


Fonte: PCLCP



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