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domingo, 28 de dezembro de 2014

As reivindicações feministas

As reivindicações feministas
por J C MARIÁTEGUI

"artigo publicado em 1924, no qual o espírito atento de repórter do autor registra o nascimento das lutas das mulheres em seu país."

"O trabalho muda radicalmente a mentalidade feminina. A mulher adquire, em virtude do trabalho, uma nova noção de si mesma.

Antigamente a sociedade a destinava ao matrimônio ou ao amancebamento. Aqueles que (hoje) rechaçam o feminismo e seus progressos com argumentos sentimentais ou tradicionalistas pretendem que a mulher seja educada só para o lar.

A defesa poética do lar é, na realidade, uma defesa da servidão. Em vez de enobrecer e dignificar o papel da mulher, o diminui e rebaixa. A mulher é muito mais que uma mãe e uma fêmea, assim como o homem é mais que um macho."

Pulsam no Peru as primeiras inquietudes feministas. Existem algumas células, alguns núcleos de feminismo. Os propugnadores do nacionalismo extremo pensarão provavelmente: aí está outra ideia exótica, outra ideia forasteira que se enxerta na mentalidade peruana.

Tranquilizemos um pouco a essa gente apreensiva. Não se deve ver no feminismo uma ideia exótica, estrangeira. Deve-se ver nele, simplesmente, uma ideia humana. Uma ideia característica de uma civilização, peculiar a uma época. E, por consequência, uma ideia com direito de cidadania no Peru, como em qualquer outro segmento do mundo civilizado.

O feminismo não apareceu no Peru (de maneira) artificial nem arbitrariamente. Apareceu como uma consequência das novas formas de trabalho intelectual e manual da mulher.

As mulheres de real filiação feminista são aquelas que trabalham e que estudam.

A ideia feminista prospera entre as mulheres de ofício intelectual ou de ofício manual: professoras universitárias e operárias. Encontra um ambiente propício a seu desenvolvimento nas salas universitárias, que atraem cada vez mais as mulheres peruanas, e nos sindicatos operários, nos quais as mulheres das fábricas se envolvem e se organizam, com os mesmos direitos e os mesmos deveres que os homens.

À parte desse feminismo espontâneo e orgânico, que recruta suas militantes entre as diversas categorias do trabalho feminino, existe aqui (no Peru), como em outras partes, um feminismo de diletantes, um pouco pedante e outro pouco mundano. Esse tipo de feministas convertem o feminismo num simples exercício literário ou num mero esporte da moda.

Ninguém deve surpreender-se de que todas as mulheres não se reúnam num movimento único. O feminismo tem, necessariamente, várias cores, diversas tendências.

Pode-se distinguir no feminismo três tendências fundamentais, três cores substantivas: feminismo burguês, feminismo pequeno-burguês e feminismo proletário. Cada um deles formula suas reivindicações de uma maneira distinta.

A mulher burguesa solidariza o feminismo com o interesse da classe conservadora. A mulher proletária consubstancia seu feminismo com a fé das multidões revolucionárias na sociedade futura. A luta de classes – fato histórico e não assertiva teórica – se reflete no plano feminista.

As mulheres, assim como os homens, são reacionárias, centristas ou revolucionárias. Não podem, por conseguinte, combater juntas a mesma batalha. No atual panorama humano, a classe diferencia mais os indivíduos do que o sexo.

Mas essa pluralidade do feminismo não depende da teoria em si mesma. O feminismo, como ideia pura, é essencialmente revolucionário. Portanto o pensamento e a atitude das mulheres que se sentem, ao mesmo tempo, feministas e conservadoras, carecem de coerência. (Isso porque) o conservadorismo trabalha por manter a (velha) organização tradicional da sociedade. E essa organização nega à mulher os direitos que esta quer adquirir.

É certo que as raízes históricas do feminismo estão no espírito liberal. A revolução francesa conteve os primeiros germens do movimento feminista. Nascido de matriz liberal, o feminismo não pôde (no entanto) ser ativado durante o processo capitalista. É agora, quando a trajetória da democracia (burguesa) chega perto do seu fim, que a mulher adquire os direitos políticos e jurídicos do varão. E é a revolução russa que tem concedido, explícita e categoricamente, à mulher a igualdade e a liberdade que há mais de um século Babeuf e os Igualitários reclamavam da revolução francesa.

Mas se a democracia burguesa não realizou o feminismo, criou involuntariamente as condições para sua realização. Valorizou a mulher como elemento produtor, como fator econômico, ao fazer de seu trabalho um uso cada dia mais extenso e intenso.

O trabalho muda radicalmente a mentalidade feminina. A mulher adquire, em virtude do trabalho, uma nova noção de si mesma.

Antigamente a sociedade a destinava ao matrimônio ou ao amancebamento. Aqueles que (hoje) rechaçam o feminismo e seus progressos com argumentos sentimentais ou tradicionalistas pretendem que a mulher seja educada só para o lar.

A defesa poética do lar é, na realidade, uma defesa da servidão. Em vez de enobrecer e dignificar o papel da mulher, o diminui e rebaixa. A mulher é muito mais que uma mãe e uma fêmea, assim como o homem é mais que um macho.



Fonte: AND



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