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sexta-feira, 25 de setembro de 2009

INTOXICAÇÃO REACIONÁRIA NA EUROPA


INTOXICAÇÃO REACIONÁRIA NA EUROPA

por João Quartim Moraes


As reiteradas iniciativas dos liberais reacionários e neofascistas que dominam o Parlamento europeu e governam vários países europeus, de se servir do pacto nazi-soviético de 1939 para assimilar os comunistas aos nazistas repousam sobre grosseiras falsificações históricas. Os sarkozys, os berlusconis et caterva, eleitos com o apoio do voto fascista, “esquecem” que os governos inglês e francês, que tinham recorrido à intervenção militar, bem como ao bloqueio econômico e diplomático, para tentar destruir no nascedouro o poder dos soviets, continuaram recusando-se, de 1936 a 1939, a negociar com a União Soviética os meios de conter o expansionismo alemão. Todos os estudos sérios sobre a diplomacia das grandes potências européias durante esses anos põem a nu a perfídia daqueles dois governos, que também se recusaram a vender armas para a República Espanhola agredida pela sublevação militar-fascista. É que, na verdade, eles estavam empenhados em negociar com Hitler, com a expectativa de que ele dirigisse contra a URSS seus ânimos guerreiros.


Tal foi o significado do pacto liberal-nazista de 1938, concluído em Munique, entre Daladier, Chamberlain (chefes de governo respectivamente da França e da Inglaterra) e Hitler. A União Soviética, a despeito de ter assinado um tratado de defesa mútua com o governo tcheco, foi mantida fora das negociações anglo-franco- alemãs-italianas, ao passo que Mussolini foi convidado e amistosamente recebido. Os próprios tchecos foram apenas notificados das decisões tomadas por aquele bando de celerados: seu país seria desmembrado, de maneira a satisfazer o Führer, que exigia a anexação da região dos Sudetos. A Polônia tem fundadas razões para se pôr como vítima do pacto nazi-soviético de 1939, mas pouca moral para denunciar o anexionismo dos vizinhos. Os poloneses participaram, em 1920-1921, com ajuda militar francesa, da agressão reacionária internacional contra a jovem República dos Soviets. Anexaram a Galícia oriental, que compreendia as regiões ocidentais da Ucrânia e da Bielo-Rússia. Por ocasião do infame Tratado de Munique, assinado em 29 de setembro de 1938, o governo polonês composto então, como hoje, por clérico-fascistas, aproveitou-se para também engolir um pedacinho do que havia sido a República da Tchecoslováquia: anexou o rico distrito de Tetschen, com 228.000 habitantes e muitas jazidas carboníferas. [Sobre a avidez dos poloneses em agarrar sua parte do botim de Munique, ver um dos estudos mais sérios sobre o tema publicados em nosso país:) Samuel Salinas, Antes da tormenta.Origens da segunda guerra mundial, 1918-1939. Campinas, Editora da Unicamp, 1996, p. 85].


Num artigo baseado em alguns dos mais notáveis estudos em língua inglesa sobre as causas da segunda guerra mundial, Annie Lacroix-Riz pôs a nu a cínica cumplicidade dos impérios liberais empenhados em lançar Hitler contra a União Soviética:


“encorajada pelos Estados Unidos, a obstinação da França e da Grã-Bretanha em sua política de “apaziguamento” –em outros termos, de capitulação diante das potências nazistas – arruinou o projeto soviético de “segurança coletiva” dos países ameaçados pelo Reich. Daí os acordos de Munique [...]pelos quais Paris, Londres e Roma permitiram a Berlim anexar imediatamente os Sudetos. Isolado diante de um III Reich que tinha, no momento, “as mãos livres a Leste”, Moscou assinou com Berlim o “pacto de não-agressão”, que o poupou provisoriamente” [Ver Annie Lacroix-Riz, Le Monde Diplomatique maio 2005, pp.24-25].


Com efeito, durante os onze meses que seguiram a traição de Munique, os dirigentes soviéticos tinham se empenhado, com o apoio do movimento operário e anti-fascista europeu, em montar o sistema de “segurança coletiva” a que se refere Lacroix-Riz. Mas a opção preferencial dos governos britânico e francês era entrar em acordo com os nazistas. Ambos recorreram aos mais cínicos artifícios para não concluir uma aliança militar defensiva com os soviéticos. Somente em 24 de julho de 1939, quando já se tornara evidente que as pretensões territoriais hitlerianas não tinham se esgotado com as anexações concedidas pelos acordos de Munique (agora o Führer exigia da Polônia o corredor de Dantzig), britânicos e franceses decidiram enviar uma missão militar a Moscou. Mas sem pressa nenhuma. Como notou ainda Lacroix-Riz, eles estavam sobretudo preocupados em “acalmar as vozes que, após a anexação alemã da Boêmia-Morávia e a satelização da Eslováquia, pediam uma frente comum com a URSS”. Tendo à frente o almirante inglês Drax e o general francês Doumenc, a missão só deixou Londres em 5 de agosto, a bordo de um lento cargueiro, o City of Exceter, que levou cinco dias para chegar a Leningrado [Ver Salinas, op. cit., pp. 101-103].


Quando Klement Vorochilov, chefe do Exército Vermelho, propôs a Drax e a Doumenc, em 12 de agosto, o exame concreto dos planos de operação contra o bloco dos Estados agressores, os dois foram obrigados a admitir que não tinham poderes para concluir um acordo. Moscou exigia uma aliança semelhante à de 1914, da qual tinham feito parte a Polônia e a Romênia. Mas estes dois países, que em 1919 integraram o “cordão sanitário” antibolchevique, bem como os Estados bálticos, vitais para a defesa da Rússia, não queriam acordo defensivo nenhum com os soviéticos. Preferiram entender-se com Hitler: entre 23 de março e 7 de junho, a Lituânia, a Estônia, a Letônia bem como a Finlândia assinaram tratados com a Alemanha. Na Polônia, o coronel Josef Beck, voz mais forte do triunvirato que exercia o poder após a morte, em maio de 1935, do marechal Josef Pilsudski, ditador cripto-fascista, guiava-se pelo preceito de seu predecessor: “Com os alemães nos arriscamos a perder nossa liberdade, com os russos, nós perdemos nossa alma”. Para salvar a própria alma e a de seus compatriotas, Beck negou-se terminantemente a conceder direito de passagem ao Exército Vermelho em caso de conflito com a Alemanha nazista. A Romênia, que temia perder a Bessarábia, tomada da Rússia em 1918, com o apoio diplomático da França, estava também sob uma ditadura, mais abertamente fascista e anti-judia do que a polaca, exercida pelo “Conducator” Antonescu, que logo iria se aliar a Hitler.


Os governos de Londres e de Paris alegaram nada poder fazer diante dessas manobras que inviabilizavam na prática a possibilidade de fazer pairar sobre a Alemanha a ameaça de um pacto militar anglo-franco- soviético. A missão militar enviada a Moscou só serviu pois para ludibriar a opinião anti-fascista favorável ao projeto soviético de “segurança coletiva”. Com frio mas lúcido realismo, Stalin e a cúpula do PCURSS replicaram à farsa dos dois impérios liberais com uma brusca inversão de sua linha diplomática: em 23 de agosto de 1939 assinaram o pacto nazi-soviético, réplica, nem mais nem menos imoral, mas estrategicamente lógica, ao pacto nazi-liberal de Munique. Ganharam com isso quase dois anos, já que a ofensiva hitleriana contra o país dos soviets só foi lançada em 22 de junho de 1941.

João Quartim Moraes


original em e-mail lista ESKUERRA 24/09/09, postado pelo autor

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