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sábado, 7 de janeiro de 2017

Capitalismo, guerra e pão

Capitalismo, guerra e pão
por JOÃO VIEIRA
"Os governos descuram completamente os aspectos da soberania alimentar, andam ocupados com o acessório e deixaram o essencial nas mãos das multinacionais, para as quais vida ou morte tudo é negócio."

O trigo pela importância que tem, e continua a ter, na história do desenvolvimento da humanidade é hoje uma arma nas mãos do capital na atual guerra da Síria e do Iraque, onde o trigo é traficado ao lado de barris de petróleo. A tal ponto faz parte do saque imperialista que o Diretor de uma multinacional americana de cereais foi despachado para o Iraque para controlar a produção e o sector das sementes junto dos agricultores, a quem foi proibida a utilização das suas sementes.

Sabe-se ainda que o trigo «Kamut», originário do Egipto, está patenteado a favor de uma multinacional, sendo um valor seguro no mercado da especialidade de trigos antigos.

Trigo e pão estiveram sempre presentes em momentos decisivos. Lembremos a expressão «Pão e circo» da época romana, no contexto em que o Império já estava em decadência, a população de Roma aumentava e o pão escasseava, gerando o descontentamento e criando condições para uma nova etapa. No que diz respeito ao circo existem algumas semelhanças com o nosso tempo, só que, bem entendido, nos dias de hoje ele é mediático.

Lembremos ainda Maria Antonieta, rainha de França. Decorria o ano de 1789, a fome assolava, não havia trigo nem pão e o povo de Paris protestava apinhado no pátio dos milagres (Cour des Miracles) sem que o seu clamor se fizesse ouvir no sumptuoso Palácio de Versalhes. Informada do protesto, a rainha respondeu com a célebre frase: «Se o povo não tem pão, que coma brioches», ainda hoje um bolo típico dos franceses. Obviamente que se não havia farinha para pão, também não poderia haver para brioches! A par de outros problemas, também aqui trigo e pão foram o rastilho para a eclosão da Revolução sob o lema «Liberdade, Igualdade, Fraternidade», que mudou o curso da história na Europa.

E como a classe dominante daquela época e a de hoje se assemelham, dou comigo a imaginar um oligarca deste tempo refastelado numa ilha paradisíaca, rodeado de garrafas de champanhe das melhores marcas e a quem anunciam protestos devido à fome e a outros flagelos do capitalismo. Tal como Maria Antonieta, dirá: «Se não tem pão, que coma donuts», o que não me parece inverosímil quando o povo pedir contas ao capitalismo pelos crimes cometidos.

Capitalismo – 100 anos a destruir a biodiversidade

Optei por falar do trigo pela sua importância na preparação do pão (o alimento mais conhecido), mas ele está presente de forma invisível em muitos outros produtos alimentares, daí que depois da polêmica das consequências do glúten na saúde das pessoas esteja na moda a etiqueta «sem glúten».

O trigo ocupa o 2.º lugar na produção agrícola mundial, sendo produzido em grande escala por empresas capitalistas em enormes espaços de que são proprietárias. Segundo a lógica da concentração e do lucro, um só homem pode trabalhar 200 hectares ou mais, o que tornou inviável a produção por parte de pequenos e médios agricultores, facto que conduziu ao desaparecimento da maior parte das variedades de trigo antigo. Um trigo perfeitamente adaptado ao terreno, e do qual resultava um pão rico em nutrientes, com gordura natural, transmitindo às pessoas a vida que chega através das sementes. Um trigo que não se adapta aos interesses do capital.

O final da guerra de 1914-18 foi o princípio do fim da Biodiversidade. Acontece que existia nitrato nos explosivos utilizados durante a guerra, o que fez crescer as ervas no campo de batalha e levou a concluir que os nitratos poderiam ser aproveitados para a agricultura e, assim, aumentar a produção do trigo. Só que o trigo antigo não precisa de nitrato. Por natureza alto, com o nitrato crescia ainda mais e acabava por tombar com a chuva e os ventos, produzindo ainda menos.

Mas nem por isso o capitalismo iria desistir desta arma de longo alcance, uma arma que tanto lhe dá para acumular lucro como para submeter populações. E assim, com uma ajudinha da ciência, deu-se início à manipulação genética: o trigo foi modificado, de antigo passou a moderno, de alto passou a anão, suporta todo o nitrato e já não tomba com o vento e a chuva, produz mais por hectare mas tem mais 45% de glúten do que o antigo. O que parece ser vantagens, envolve inúmeros inconvenientes: com as modificações aquele que era uma antiga referência alimentar passou a ser um moderno pesadelo.

Com o trigo «moderno» passou-se à produção intensiva e com a homogenização das sementes as plantas tornaram-se mais frágeis e com isso apareceram novos parasitas e doenças a ser tratados com fungicidas derivados dos gases com que pulverizavam os soldados, o que também teve efeitos na agricultura: enquanto os trigos antigos tinham a palha alta, o suficiente para asfixiar as ervas daninhas privando-as da luz solar, nos trigos «modernos» a palha é curta, as ervas passam por cima, obrigando, em Maio-Junho, à utilização de herbicida e ao fazê-lo mata-se todo o ecossistema que vive nas searas de trigo.

As consequências da guerra 1914-18 não se ficam por aqui, elas continuam a matar por outros meios. O sistema radicular do trigo antigo, ao ir buscar os nutrientes a grande profundidade resiste bem às variações climáticas. Enquanto o trigo moderno, de sistema radicular de superfície, fica susceptível de ser afectado por alterações climáticas e menos nutritivo.

Estudos realizados revelam que entre 1968 e 2005 as concentrações no trigo de zinco, cobre, ferro e magnésio baixaram entre 19 e 28%; outros estudos revelam descidas significativas de selenium. O trigo moderno afecta muito mais os doentes diabéticos e celíacos e o glúten tende a tornar-se um flagelo, mas é no glúten que está o lucro do capital. O pão de trigo moderno é uma fraude na medida em que funciona como uma esponja: não tem lá o conteúdo, não precisa de ser basta parecer dado que beneficia da auréola que o pão historicamente sempre teve. As pessoas sentem que no dia seguinte o pão já não está tão apetecível, mas a maioria não sabe porquê: o que acontece é que evaporando-se a água a esponja fica seca, daí o sucesso dos hipermercados com o «pão quentinho todos os dias».

A explicação é simples: a modificação feita no trigo fez aumentar no grão os carbonos de amido e como a farinha é muito porosa e absorvente recebe muita água, o que não acontecia com os trigos antigos devido à sua gordura natural.

Em resumo: o pão de hoje não tem nada a ver com o de há milénios, de há 500 ou 60 anos. Há mesmo quem defenda que já nem se deveria chamar pão.

Não faz sentido culpar o pão pelos novos problemas

Devido ao aumento constante de doenças crónicas, um pouco por todo o lado levantam-se vozes para denunciar o glúten e o trigo como a causa. O neurologista americano David Perlmutter, no seu livro «Cérebro de Farinha», defende a ideia de que temos de viver sem trigo, o que me parece arrojado, pois para além de não estar à vista um substituto para o trigo convém frisar que historicamente o trigo nunca foi problema, mas sim a falta dele. Se há um problema de saúde pública a culpa é única e simplesmente do capitalismo, que está a criar progenituras loucas para conseguir novas espécies.

Há ainda quem defenda que a culpa é dos agricultores. Perante equívocos que não deixarão de surgir é importante esclarecer a origem do problema do trigo/glúten, assim como todas as manipulações genéticas que aprendizes de feiticeiros estão a fazer actualmente.

Na viragem da II Guerra Mundial continua a acentua-se o que fora iniciado na primeira. O plano Marshall instalado na Europa impõe o modelo americano de industrialização da produção agrícola. O capitalismo faz tábua-rasa do que deve ser uma agricultura diversificada baseada nos três princípios: Agronomia, Economia, Ecologia. Passamos de uma agricultura de muita mão-de-obra e pouco capital para o inverso. Para rentabilizar o capital, o produtivismo, a massificação, a dimensão e a concentração levaram ao desaparecimento de centenas de milhar de explorações. Diziam então, como se fosse uma fatalidade, que não havia lugar para todos. Produzir ao mais baixo custo possível, isto é, o que era considerado alimentos passou a ser tratado como matéria-prima agrícola. O capitalismo domesticou a agricultura para os seus objectivos de mundialização, a agricultura passou a estar no centro de todos os tratados de livre comércio como moeda de troca. Sabemos bem o que aconteceu à agricultura portuguesa com a CEE e a PAC. Sabemos bem o que pode representar o TTIP se não for impedido pela luta de todos. A sr.ª Clinton, fugindo-lhe a boca para a verdade, já disse que o TTIP é a NATO da economia. Portanto, e para que não haja dúvidas, é mesmo um tratado de agressão.

O modelo americano pós-guerra acelerou a destruição da biodiversidade, cilindrou o modelo europeu de produção, a forma de estar das pessoas e até o modo de comer. Tudo se tornou mais frágil, os animais como as plantas, com o desequilíbrio dos ecossistemas. Apareceram doenças e pragas nunca vistas, abriu-se uma auto-estrada para as empresas de agroquímicos, que agora chamam pudicamente fitofármacos, antibióticos na carne e um cocktail de pesticidas e herbicidas que estão a matar os solos e a envenenar a água.

A agricultura empresarial do tipo capitalista convive à perfeição com tudo isto, sobretudo aquela em que o capital financeiro entrou. A grande distribuição nunca pergunta pela qualidade dos alimentos e a indústria agroalimentar só pretende matéria-prima agrícola ao mais baixo preço. Só que este modelo é insustentável e a factura virá mais tarde. Ninguém pode esperar que deste mundo de oligarcas saia uma alimentação saudável. Isso terá de ser conquistado com a revolução das BOCAS.

As pessoas devem valorizar a sorte que têm de haver ainda agricultores(as) que resistem para fornecer bons produtos e, assim, transmitirem o fabuloso património que souberam preservar, pois sem eles e elas será o caos.

Devem ser os agricultores a decidir o seu sistema de produção e a sua forma de trabalho, pois a agricultura é uma história de homens e mulheres. As pessoas têm nas suas mãos um enorme poder que desconhecem. Se ao comprarem os seus produtos alimentares reflectissem da mesma forma como o fazem quando compram um automóvel – o que contém?, quem o produziu?, como produziu?, de onde veio? – comer passaria a ser um acto político de grande alcance que iria contribuir para obrigar a melhorar a sua alimentação.

Para o Codex Alimentarius e outros organismos de segurança alimentar, a qualidade é um «bicharoco» que não existe.

Dizem que a qualidade custa caro, mas cara é a alimentação sem qualidade. Senão vejamos: uma fatia de fiambre ou presunto no valor de 1 euro e 10 cêntimos custa, em termos de saúde, 4 euros, o que poderia ser multiplicado por tantos outros produtos.

Ciências da vida ou da morte

Por estes dias, numa concentração ao mais alto nível, um «gigante» engoliu outro «gigante»: a Bayer alemã comprou a Monsanto por cerca de 60 mil milhões de euros. O montante não interessa tanto, interessa sim o que se vai passar com o futuro da alimentação mundial. Uma questão sobressai: será que a guerra do glifosato não terá decidido este jogo a favor da Bayer?

De qualquer forma desenha-se uma luta de gigantes neste ninho de víboras que são as empresas químicas, manipulação genética e sementes. Para já, o que se pode prever será a redução das espécies, ficando só as escolhidas pelo capital. Essas empresas vão competir entre si fazendo cada vez mais manipulação, não se conhecendo sequer quais vão ser os impactos de tal manipulação na saúde, ou mesmo na própria humanidade. Não estará a ciência a meter-se onde não deve? Com que direito se faz o patenteamento da Vida tratando plantas, animais e sementes como invenções?

Com o anúncio, no passado dia 23 de Maio, da intenção da Bayer de comprar a Monsanto desencadeou-se um processo de mudanças nas empresas de «ciências da vida». Neste mesmo dia, fechava-se a operação de compra da Syngenta (n.º 3 mundial) pela chinesa ChemChina. Interessante é que pouco tempo antes a Monsanto tinha feito uma oferta de compra à gigante suíça e acabou vendida à Bayer. Mas não se ficam por aqui. Outros dois gigantes americanos, a Dow Chemical (n.º 2) e a Dupont (n.º 5) decidiram fusionar. Pelos montantes em jogo, estas fusões/aquisições inscrevem-se numa tendência que começou há 30 anos e que transformou profundamente o sector.

As patentes são o sequestro das sementes e do património que era de todos. Sendo as sementes a transmissão da vida, esta só pode fazer-se pagando uma taxa aos monopólios detentores das patentes.

Já em 1930, nos EUA, foi votado o Plant Patent Act que proibia aos agricultores a rentabilização das sementes. Como se vê já há muitos anos que o capitalismo manipula para controlar a vida, e com a concentração a que estamos a assistir isso irá significar uma drástica redução das variedades ainda existentes. Fica consumada, 100 anos depois, a destruição da Biodiversidade. O risco ao provocar a erosão da Biodiversidade, à escala mundial as sementes modificadas segundo os interesses do capital, deixa de haver condições para responder às futuras necessidades alimentares e a catástrofe será o mais provável.

Os governos descuram completamente os aspectos da soberania alimentar, andam ocupados com o acessório e deixaram o essencial nas mãos das multinacionais, para as quais vida ou morte tudo é negócio.

A espantosa leviandade com que os governos tratam a questão alimentar significa que não extraíram nenhuma lição dos motins da fome que ocorreram em vários países em 2007/2008, nem das taxas de 30% aplicadas às exportações para evitar a saída de trigo, situação que ainda provocou um susto em Portugal.

É evidente que a repetição do mesmo cenário fará com que as prioridades da população se recentrem na alimentação. Assim, lembrar o que se passou há cerca de 10 anos é um exercício útil para a tomada de consciência de que as mesmas causas se mantêm e podem produzir os mesmos efeitos, a todo o momento provocados pela consequência perversa e perturbadora de um mercado mundializado, dominado pela especulação sobre alguns produtos agrícolas, em particular o trigo.

O século XXI será o da escassez da água e outros recursos perante riscos climáticos, enquanto isso as necessidades alimentares vão continuar a crescer. Não é à toa que alemães, franceses e americanos estão a fazer a ocupação das terras férteis da Ucrânia, onde a Monsanto constrói grandes silos para armazenar cereais. Eis um dado que pode ter interesse para uma mais fácil compreensão: para se produzir 1 kg de carne de porco são precisos 2,600 Kg de cereal. Recentemente uma empresa chinesa comprou 2700 ha numa zona de cereais em França, de onde o trigo produzido sai directamente para a China. São sinais de alerta a ter em conta, a prudência e o bom senso dos camponeses sempre aconselharam a ter a arca do trigo por perto.

Ainda a propósito do glúten, o Público (14.9.2016) fez sair um artigo em que abordava esta problemática mas sem aprofundar as causas, e dele ressaltam duas questões: uma é a de que os agricultores são responsáveis pela modificação do trigo; a outra é que Portugal já não tem trigo antigo. Uma e outra questão são fruto da ignorância. Quanto à primeira, é preciso dizer que os agricultores não têm nem conhecimentos nem meios para modificar o trigo, a responsabilidade tem de ser imputada ao capital. Quanto à segunda, Portugal nos últimos 40 anos, por incúria dos governos, perdeu muitas das suas variedades de trigo antigo. Mas como há sempre alguém que diz não, ainda há bolsas de resistência onde se produz uma variedade antiga bem portuguesa que dá pelo nome de barbela, que se adapta a todo o território nacional e que dá um pão de excelente qualidade, que nada tem a ver com a fraude do pão actual, que o «diabo» do capitalismo amassou.

Os governos devem fazer com urgência uma nova abordagem da gestão dos recursos alimentares, pois se houver vontade política ainda é possível evitar o pior multiplicando a semente que temos e que passou todos os testes através dos tempos. Os agricultores aguardam esse sinal, para que ninguém possa dizer que já não temos sementes de trigo antigo...

Exemplos existem de que é possível romper o cerco das multinacionais, o que nos pode servir de inspiração. Diz-se que quanto mais pacientes mais rápidos são os resultados. Em França, os agricultores, conscientes e empenhados na defesa das suas sementes autóctones, e numa atitude de resistência ao domínio das multinacionais, com determinação e persistência recuperaram as suas variedades depois de um longo percurso. Hoje têm uma vasta rede de agricultores padeiros que produzem um pão de excelência com o próprio trigo que semeiam. É o pão da luta e da resistência!

Com as nossas próprias condições, também nós temos a possibilidade de fazer algo semelhante recuperando o trigo BARBELA e o conhecimento do seu cultivo, transmitindo de igual modo o segredo da sua panificação. Com duas vantagens: teríamos mais e melhor pão e ao fazê-lo assistiríamos a menos incêndios.

Para isso são necessárias outras políticas agrícolas e um governo que se preocupe com o futuro do País e que defenda a nossa Soberania Alimentar.



Fonte: Revista O Militante ECONOMIA, EDIÇÃO Nº 346 - JAN/FEV 2017



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