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quinta-feira, 23 de junho de 2016

EUA ameaçam intervir na Eritreia

EUA ameaçam intervir na Eritreia
por Carlos Lopes Pereira

"Situada na África Oriental, com cerca de mil quilômetros de costa no Mar Vermelho, a Eritreia é um pequeno país de seis milhões de habitantes. A maior parte da população – metade é islâmica, metade é cristã – vive da agricultura, pecuária e pesca. Há expectativas de exploração do petróleo mas a maior riqueza do país é a sua localização estratégica. Além disso, o governo de Asmara não aceita «ajudas» estrangeiras e rejeita as políticas do Fundo Mundial Monetário e do Banco Mundial."

Há indícios de que os Estados Unidos estão a preparar uma intervenção militar «humanitária» na Eritreia utilizando pretextos idênticos aos que justificaram a agressão da NATO contra a Líbia em 2011.

À semelhança do que aconteceu no caso do país norte-africano, os EUA capturaram a máquina dos «direitos humanos» das Nações Unidas para invocar a «responsabilidade de proteger» os cidadãos eritreus de alegados abusos do próprio governo. Este princípio,responsibility to protect (R2P), tinha sido utilizado para legitimar a intervenção na Líbia pela secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, agora candidata presidencial democrata.

As mais recentes denúncias das manobras engendradas pelos EUA contra a Eritreia foram feitas através da Global Research, uma organização de pesquisa e informação com sede no Canadá. Um artigo da autoria de Glen Ford desmonta as falsidades retiradas do catálogo das mentiras imperiais.

Washington conseguiu que as Nações Unidas impusessem sanções à Eritreia, desde 2009, com o argumento de que Asmara concede «apoio político, financeiro e logístico» aos islamitas do Al-Shabaab, na Somália. Isto apesar de o governo laico eritreu se opor ao jihadismo islâmico de o Conselho dos Direitos Humanos da ONU ter reconhecido a inexistência de provas de tal ajuda.

Mais recentemente, um painel de três expertos onusinos acusou a Eritreia de ser um Estado fora-da-lei que cometeu «crimes contra a Humanidade», escravizou mais de 400 mil pessoas e foi conivente com assassínios, violações e actos de tortura. O presidente da comissão de inquérito da ONU sobre os direitos humanos na Eritreia, um certo Mark Smith, australiano, propôs que o governo eritreu seja julgado pelo Tribunal Penal Internacional (TPI), com sede em Haia. Trata-se de um tribunal que, desde a sua criação, em 2002, tem perseguido dirigentes africanos – mas só aqueles que não alinham com os interesses imperialistas dos EUA.

Este pretexto «legalista» já fora utilizado em 2011, quando o Conselho de Segurança, liderado pelos EUA, Grã-Bretanha e França, acolheu acusações semelhantes contra a Líbia e pretendeu levar o caso ao TPI, numa altura em que a agressão militar contra o regime de Muammar Khaddafi estava já em marcha. 

«A Cuba da África» 

A actual campanha internacional de demonização da Eritreia, alimentada pelos EUA – explica Glen Ford no artigo – assenta em duas grandes mentiras.

A primeira, a da «escravização» da população. Trata-se, na verdade, de um serviço nacional que inclui não só deveres militares obrigatórios mas também trabalho cívico em obras públicas e nas áreas da saúde e educação. Muitos professores, por exemplo, são trabalhadores desse serviço nacional.

A outra falsidade da propaganda ocidental pretende fazer crer que a «opressão» na Eritreia é uma das principais causas das vagas de refugiados africanos na Europa. Não é credível que a Etiópia, com uma população de 90 milhões e um dos países mais pobres do mundo, o Sudão, com 40 milhões e várias guerras intestinas, ou a Somália, nação de 10 milhões sem Estado, provoquem menos refugiados do que a Eritreia… O que acontece, não por acaso, é que, sob pressão dos EUA, há políticas imigratórias europeias que favorecem os «exilados políticos» eritreus.

Situada na África Oriental, com cerca de mil quilómetros de costa no Mar Vermelho, a Eritreia é um pequeno país de seis milhões de habitantes. A maior parte da população – metade é islâmica, metade é cristã – vive da agricultura, pecuária e pesca. Há expectativas de exploração do petróleo mas a maior riqueza do país é a sua localização estratégica. Além disso, o governo de Asmara não aceita «ajudas» estrangeiras e rejeita as políticas do Fundo Mundial Monetário e do Banco Mundial.

Colonizada pela Itália desde finais do século XIX e, após a II Guerra Mundial, pela Grã-Bretanha, a Eritreia foi depois anexada pela Etiópia do imperador Hailé Selassié. A partir dos anos 60, um movimento guerrilheiro combateu durante três décadas pela independência, conquistada enfim em 1993. O líder da luta emancipalista foi Isaias Afwerki, o actual presidente da Eritreia, país que continua a ter más relações, incluindo conflitos fronteiriços, com a Etiópia, grande aliada dos EUA.

Não surpreende, pois, a sanha do imperialismo norte-americano contra a Eritreia, hoje um dos dois únicos estados do continente que não estabeleceram relações de cooperação com o Africom, o comando militar estado-unidense para a África. O outro recalcitrante é o Zimbabué, de Robert Mugabe. Os EUA mantêm Camp Lemonnier, a sua maior base militar africana, no Djibuti, vizinho da Eritreia, país a que alguns chamam «a Cuba da África».


Fonte: Avante..



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