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sexta-feira, 24 de junho de 2016

A equação político-militar na Síria - 1ª parte

A equação político-militar na Síria 
por Elisseos Vagenas1


"Os EUA e os seus aliados, ao iniciarem a intervenção imperialista na Síria, há cerca de 5 anos, adiantaram como pretextos questões de “democracia”, o derrubamento do “ditador Assad”, o apoio à assim chamada “Primavera Árabe”. Esta hipocrisia foi completamente óbvia, olhando para quem está a invocar “liberdade” e “democracia”: as monarquias antipopulares do Golfo, a Turquia, que ocupa metade de Chipre, a UE e os EUA, que desempenham o papel de liderança no massacre dos povos e no derrubamento de regimes que não são do seu agrado, para que os seus monopólios possam ganhar melhores posições. 
Hoje, os mesmos poderes, insistindo na utilização de pretextos em matéria de democracia, também trouxeram de volta o pretexto da “guerra ao terror” e da “autodefesa” contra os ataques que lhes movem os jihadistas, baseados nos territórios da Síria controlados pelo chamado “Estado Islâmico”. "

Passaram mais de dez anos desde que, pela primeira vez, o escritor Alexander Zinoviev comparou a Rússia capitalista com um “coelho com cornos”. “Um coelho”, porque, obviamente, nos primeiros anos após a restauração do capitalismo, a recémformada burguesia da Rússia – que estava no caminho para assimilar o país na “pirâmide” imperialista global e estava a tentar consolidar sua posição internamente –, facilmente cedeu terreno perante as exigências dos EUA e de outras potências. E isto, apesar de ter “herdado” um poderoso arsenal da União Soviética (daí... os “cornos”). 

Mas as coisas mudam. A Rússia está agora, mais e frequentemente, a usar a força militar fora das suas fronteiras. Fez isso na Moldávia (no caso da Transnístria), Tadjiquistão, Geórgia (no caso da Abkhazia e da Ossétia do Sul), Ucrânia (no caso de Crimeia), isto é, nos territórios da antiga URSS, que são considerados a sua “zona de interesses imediatos”. Moscovo deu um “salto” com a sua intervenção militar na Síria, postergando o recente “monopólio” dos EUA sobre intervenções militares nas mais distantes regiões. Uma intervenção que muda os termos da “equação síria” e, além do mais, cria confusão no Movimento Comunista Internacional.


É claro que, após a intervenção militar russa, se seguiu o assassino ataque em Paris. Esta carnificina também criou novas condições no “algoritmo” geopolítico da Síria. Porque o assassinato em massa de pessoas comuns foi utilizado pela burguesia francesa e pelos estados-membros da NATO e da UE como um todo, como uma espécie de “libação” – com o sangue dos franceses – antes do seu ainda maior envolvimento militar. 

Em primeiro lugar, olhemos para alguns dos básicos desenvolvimentos político-militares, que são úteis para compreender as questões que estamos a examinar. 

O crescente envolvimento militar estrangeiro 

Os ataques aéreos russos começaram na Síria contra o chamado Estado Islâmico (EI), no dia 30 de setembro. 

No mesmo dia, a Câmara Alta russa aprovou o pedido do presidente russo, Vladimir Putin, para enviar forças militares para o exterior e, especificamente, para apoiar Bashar al-Assad na Síria. 

Isto ocorreu após o discurso do presidente russo na ONU, onde defendeu as posições russas na Síria e na Ucrânia. No que respeita à Síria, realçou que não pode haver solução política sem Assad, assim como a necessidade de reforçar Assad, que, em conjunto com os curdos, está a resistir ao EI. 

O encontro com o presidente dos EUA, Barak Obama – apesar de ter havido uma tentativa da parte de alguns meios de comunicação de massas para o apresentar como indicativo de uma “convergência” entre a Rússia e os EUA, relativamente à luta contra o EI –, não ultrapassou as suas contradições sobre o futuro do regime de Assad, algo que, naturalmente, está ligado à questão de saber qual a potência imperialista que assumirá “o controlo” na Síria. 

O desenvolvimento também indicia claramente a futura agudização das contradições interimperialistas na região do Médio Oriente e do Mediterrâneo oriental. Devemos ter em mente que a intervenção militar russa na Síria ocorre após a intervenção dos EUA, da UE, da Turquia, das monarquias do Golfo e de outras potências na região, desde antes de 2011, isto é, da ocupação do Iraque pelos EUA, do ataque da NATO contra a Líbia e da infiltração de forças armadas na Síria por parte dos EUA e seus aliados. 

Deve-se ter em conta que o KKE, logo desde o primeiro momento, em 2011, denunciou a intervenção, que tem consequências muito sérias para o povo da Síria e também para os povos de toda a região. Quando partidos burgueses e oportunistas celebraram a chamada “Primavera Árabe”, o nosso partido denunciou os esforços organizados para financiar e armar a chamada oposição síria, por parte das potências imperialistas, de que resultou, entre outras coisas, a formação e propagação da monstruosidade do “Estado Islâmico”, bem como a criação de uma enorme onda de refugiados, tanto dentro do país (cerca de 10 milhões de pessoas) como em países estrangeiros (principalmente na Turquia, Líbano e Jordânia, onde cerca de 2 milhões de pessoas vivem, pois foram expulsas de suas casas – dessas pessoas, as que podem estão a tentar alcançar países europeus).

Conflito de interesses econômicos e geopolíticos na Síria 

Os estreitos laços econômicos e político-militares da Rússia com o regime burguês de Assad são bem conhecidos. Este regime tem sido um aliado estável da Rússia capitalista na região do Médio Oriente e Mediterrâneo Oriental, durante os últimos 20 anos. Esta é uma região onde está em curso um sério “jogo” geopolítico, com “jogadores” poderosos, como os EUA, a UE, Israel, Turquia, Egito, as monarquias do Golfo e as classes burguesas que promovem os seus próprios interesses. Atentemos nalguns dados mais específicos. 

A questão das matérias-primas 

Numa entrevista, em junho de 2013, Assad argumentou que: «Os países ocidentais, em contraste com a sua posição política pública, estão a esforçar-se para nos apresentar, por debaixo da mesa, “atrativos” contratos para a reconstrução do país e a extração dos ricos depósitos de hidrocarbonetos que foram descobertos na Síria. O Banco Mundial, que não se pode mover sem a permissão dos EUA, propôs um empréstimo de 21 biliões de dólares com condições “generosas”, que nós rejeitamos completamente. Já tínhamos dado os direitos para a extração de hidrocarbonetos na ZEE síria a uma companhia russa. Confiamos nos russos, que estão a defender a sua segurança estratégica e os interesses nacionais, que serão ameaçados se a Síria for controlada pelo Ocidente e os seus poderes satélites na região»3

Existem diferentes avaliações no que se refere ao tamanho dos depósitos de hidrocarbonetos4, embora investigadores sírios afirmem que as dimensões dos depósitos de gás natural no país anulam o atual “mapa energético internacional”, pois são dez vezes maiores do que as de Israel. 

Os contratos assinados com empresas russas para a extração, antes dos mais recentes acontecimentos, valiam 1,6 biliões de dólares. Além disso, as empresas russas estão ativas na construção de refinarias. 

A construção de oleodutos 

O jornal russo “Kommersant” escreveu em 2013: “O resultado da guerra na Síria poderia afetar significativamente os mercados europeus de gás natural. As partes envolvidas no conflito são apoiados por duas potências rivais, que querem construir novos oleodutos de gás natural para a UE, que atravessariam território sírio: o Irão e o Qatar. A esta luz, as consequências para a Gazprom e para as receitas do  orçamento russo serão determinadas, em grande parte, pelas batalhas por Aleppo e Damasco” 5.

Em relação aos diferentes planos específicos: 

Em 27 de julho 2011, foi assinado um acordo entre o Irão, o Iraque e a Síria sobre o gasoduto de gás natural chamado “Gasoduto da Amizade”, para transporte de gás natural do Irão para Bagdade, Damasco, Beirute e Europa ocidental 6

O Qatar, principal rival do Irão no que respeita ao gás natural, após conversar com a Turquia, considerou que o seu objetivo de construir  um gasoduto que distribuiria o gás natural do Qatar – via Arábia Saudita, Jordânia e Síria – para a Europa tinha sido posto de lado. Claro que a condição prévia para a construção deste gasoduto seria a participação da Síria, que, no entanto, com o acordo que assinou com o Iraque e o Irão, afastou o Qatar do “jogo”. O plano do Qatar também tinha a bênção dos EUA. 

Escusado será dizer que a Rússia não gostaria de ver a concretização do plano EUA-Qatar, que está em concorrência com as suas próprias posições nos mercados europeus, enquanto o plano iraniano é mais complementar; e é duvidoso que pudesse ser atualmente concretizado, devido à instabilidade na região. Além disso, a Rússia também havia sido praticamente envolvida na implementação deste plano, uma vez que tinha empreendido uma secção do gasoduto iraniano, a modernização dos portos onde o gasoduto terminará e a construção de refinarias 7

Lucros da venda de armas 

A Rússia lucra com a venda de armas na Síria, que, mesmo antes destes desenvolvimentos, era um dos principais consumidores de armas russas. Com base nos dados do SIPRI 8, se em 2010 (antes destes desenvolvimentos), as armas russas exportadas para a Síria eram avaliadas em 238 milhões de dólares 9, em 2013 atingiram 351 milhões de dólares, enquanto os contratos que vão ser implementados, de acordo com “Jinmin Zibao”, atingirão 4 biliões de dólares 10

Naturalmente, o derrubamento descontrolado do regime de Assad poria em perigo todos esses lucros. Como se anota: “Se a Rússia abandona Síria, então essa dívida, possivelmente, pode não ser reconhecida por outra autoridade de transição, colocando em risco a continuação da venda de armas a este país e, consequentemente, limitando a influência russa num Estado que tem uma posição geográfica crucial no Médio Oriente” 11 . 

Lucros do estabelecimento de uma posição no mercado sírio 

Empresas russas exportavam (e continuam a exportar, mesmo que em menor grau do que antes da guerra) produtos (combustíveis, máquinas, alimentos, madeira etc.), enquanto outras empresas russas também estão ativas nos setores do turismo e das telecomunicações. 

Os monopólios russos, que, naturalmente, sofreram perdas devido às hostilidades (o valor das exportações não-militares russas caiu de 1,89 biliões de dólares em 2011 para 582 milhões de dólares em 2014) 12, seriam ainda mais fortemente atingidos se houvesse um derrubamento descontrolado de Assad, o que levaria a uma perda significativa de lucros. 

Arena geopolítica e militar 

É bem conhecido que a Rússia possui uma “estação de reabastecimento naval” na cidade síria de Tartus, que poderia ser desenvolvida numa completa base militar, com ancoradouros permanentes para o seu hardware naval no Mediterrâneo. Esta é a única base naval russa em território não-russo. 

Isto é sublinhado pelo jornal chinês “Jinmin Jibao”, que também acrescenta: “A Rússia não quer permitir que países que cooperam com ela sejam atacados, um após outro, pelos EUA. De outro modo, o estatuto de liderança da Rússia sairá seriamente danificado” 13

Pretextos que estão a ser usados no conflito 

Os EUA e os seus aliados, ao iniciarem a intervenção imperialista na Síria, há cerca de 5 anos, adiantaram como pretextos questões de “democracia”, o derrubamento do “ditador Assad”, o apoio à assim chamada “Primavera Árabe”. Esta hipocrisia foi completamente óbvia, olhando para quem está a invocar “liberdade” e “democracia”: as monarquias antipopulares do Golfo, a Turquia, que ocupa metade de Chipre, a UE e os EUA, que desempenham o papel de liderança no massacre dos povos e no derrubamento de regimes que não são do seu agrado, para que os seus monopólios possam ganhar melhores posições. 

Hoje, os mesmos poderes, insistindo na utilização de pretextos em matéria de democracia, também trouxeram de volta o pretexto da “guerra ao terror” e da “autodefesa” contra os ataques que lhes movem os jihadistas, baseados nos territórios da Síria controlados pelo chamado “Estado Islâmico”. 

Por sua vez, a liderança russa raramente faz referência aos seus interesses econômicos e geopolíticos que já destacamos, como as razões para a sua intervenção. No entanto, os políticos do governo russo e jornalistas falam sobre essas coisas. Nesta fase específica da intervenção russa, a liderança russa utiliza os seguintes pretextos: 

1. A Rússia foi convidada pelo governo para o ajudar a combater o “terrorismo”. Desenvolve a chamada guerra contra o terrorismo e salientou também que as suas ações não são contrárias ao direito internacional, dado que foi convidada pelo governo legal. 

2. Destaca o fato de vários milhares de lutadores do EI virem de regiões da Rússia e da ex-URSS, e se o EI fosse vitorioso na Síria, voltaria para a Rússia para realizar “ataques terroristas” semelhantes, visando a integridade territorial do país e o bem-estar do povo russo. 

3. As seguintes questões são também utilizadas, em menor medida, se for caso disso: parar a onda de refugiados, o desastre humanitário, a destruição de antiguidades e os atos bárbaros do EI. 

4. Depois da tragédia que atingiu o avião de passageiros russo sobre o Monte Sinai, a liderança russa também recorreu ao uso do pretexto da “autodefesa”, a que abaixo nos vamos referir em mais detalhe. 

[Uma secção do artigo a fornecer dados sobre a correlação militar de forças no conflito sírio é omitida] 

O envolvimento militar russo 

Nestas complexas condições militares, a liderança russa decidiu reforçar as forças de Assad, principalmente de duas maneiras: 

a) Através do fornecimento de equipamento militar moderno, com armas de alta precisão (novos veículos blindados, sistemas de telecomunicações modernos, drones de espionagem, metralhadoras, etc.); 

b) Por meio de bombardeamentos aéreos das forças “terroristas”. Numa exibição de força militar, a Rússia bombardeou posições inimigas com mísseis disparados de navios de guerra pertencentes às frotas do Cáspio e do Mediterrâneo. A força aérea síria tem aviões mais velhos, com menos capacidade de realizar ataques de precisão sobre o inimigo. 

[Uma secção do artigo a fornecer dados sobre as forças aérea e naval da Rússia envolvidas no conflito sírio é omitida] 

Objetivos imediatos e de longo prazo

Importância militar do envolvimento russo

Através destas ações, considera-se que as perdas das forças armadas sírias podem ser anuladas e que possam voltar a atingir de novo a superioridade e o dinamismo em relação aos seus inimigos.

Além disso, de acordo com o jornal “Financial Times” 14, os EUA, em cooperação com a Turquia e a Jordânia, queriam implementar uma “Zona de Exclusão Aérea” na Síria, isto é, utilizar o mesmo método que usaram na Líbia. O envolvimento russo impediu esses planos. 

Objetivos políticos 

A burguesia russa tem o objetivo de consolidar os seus interesses econômicos e geopolíticos na região do Mediterrâneo oriental. Tendo aprendido as lições dos acontecimentos na Jugoslávia e na Líbia, onde não tinha presença militar e estava distante da arena do confronto, tentou evitar uma situação idêntica. Os objetivos da Rússia ao apoiar o regime sírio com todos os meios à sua disposição são os de seus monopólios e não os euro-atlânticos terem a primeira palavra, em cooperação com o setor da burguesia representada pelo regime de Assad, no que respeita à exploração dos recursos e do povo. 

Este é um desenvolvimento que a “desembaraça” do impasse na Ucrânia e lhe permite utilizar melhor as contradições entre a Alemanha, a França e os EUA. Também lhe permite abordar de forma mais eficaz os regimes no Irão, Iraque e Egito. 

Por outro lado, o sucesso na defesa dos seus interesses na Síria pré-determinará se tem a determinação e a força para proteger os seus interesses noutras regiões, como, por exemplo, na Ásia Central e outras regiões onde procura uma mais profunda penetração do seu capital, como no Egito e no Irão. Assim, a liderança russa está a fazer uma aposta na manutenção das suas posições na Síria, a fim de reforçar as tentativas para aprofundar a sua penetração noutros países da região. 

A postura político-militar de outras potências 

Vale a pena anotar a postura de outras fortes potências, num momento em que a UE, os EUA e os seus aliados, entre outras coisas, implementaram sanções econômicas à Rússia, sob o pretexto de sua absorção da Crimeia e acusando-a de envolvimento militar no leste da Ucrânia. Os EUA reagiram negativamente ao envolvimento militar russo na Síria. Por sua vez, continuaram os ataques aéreos no Iraque e na Síria e também enviaram assessores para os curdos e, possivelmente, para outros grupos armados ativos na Síria. Todos estes movimentos demonstram interesse dos EUA na região nordeste da Síria. Os EUA utilizam as atuais bases militares dos seus aliados para avançarem com os seus planos, entre as quais as bases em Suda e Kalamata. Também enviaram o porta-aviões “Harry S. Truman (CVN75)” para o Mediterrâneo. 

Politicamente, os EUA parecem colocar o afastamento incondicional do presidente sírio como uma condição prévia, mas os seus verdadeiros objetivos são o reforço da sua posição na região e o enfraquecimento da posição dos seus rivais.

No passado recente, a China alinhou com a Rússia na ONU, na questão das armas químicas na Síria e no objetivo de os EUA conseguirem a aprovação da ONU para ataques aéreos. Juntamente com a Rússia, utilizou o seu poder de veto. Agora, várias fontes gregas escrevem que navios e aviões de guerra chineses estão a chegar à Síria, a fim de defender Assad. Isto ainda não foi confirmado pela China, mas não pode ser afastado como um possível cenário. De facto, o jornal “Jenmin Jibao” publicou uma avaliação do especialista militar chinês Chan Chunsen, que afirma que todos os relatos sobre um porta-aviões chinês que vai participar no conflito na Síria são simplesmente rumores e que a China não tomará partido por qualquer força militar na Síria 15. 

O Ministro dos Negócios Estrangeiros chinês, Wang Yi, na reunião para celebrar o 70.º aniversário da ONU, disse que o mundo não poderia ficar de braços cruzados diante dos trágicos acontecimentos; mas também disse que ninguém, por sua própria vontade, pode intervir nos assuntos de outros países. Ainda argumentou, durante a sua reunião com o Ministro dos Negócios Estrangeiros da Síria, que a soberania da Síria deve ser respeitada. No entanto, nos seus discursos, não fez nenhuma referência a Assad ou às iniciativas russas e acrescentou que “a China não tem interesses no Médio Oriente, e, por isso, procura desempenhar um papel construtivo” 16. O Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês anunciou que a China está a tomar uma posição a favor de uma solução política 17. 

No início de 2015, o representante do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, Hua Chunying, assumiu a posição da China: “Em relação aos ataques da Rússia contra organizações terroristas na Síria, nós também expressámos anteriormente o nosso apoio e referimos que a Rússia realizava a luta contra as organizações terroristas na Síria a convite do governo deste país” 18. 

A posição da Alemanha, a sua diferenciação dos EUA, é de particular interesse. Inicialmente, a Alemanha tinha assinado a declaração dos 7 (EUA, Grã-Bretanha, França, Alemanha, Qatar, Arábia Saudita e Turquia) 19, que apelava à Rússia para cessar imediatamente os seus ataques contra a oposição e os cidadãos sírios e para concentrar os seus esforços contra o Estado Islâmico. 

A. Merkel declarou, em 4 de outubro de 2015: 

“Vamos precisar de esforços militares, mas os esforços militares não trarão a solução; necessitamos de um processo político, que, realmente, não conseguiu ainda caminhar muito bem”. Acrescentou ainda ser necessário que o regime do presidente sírio, Bashar Al Assad, seja envolvido nas conversações: “Mas para se chegar a uma solução política, eu preciso tanto dos representantes da oposição síria como daqueles que estão atualmente no poder em Damasco e outros, assim como para obter êxitos reais acima de todos os aliados dos respetivos grupos. A Rússia, os Estados Unidos, a Arábia Saudita e o Irão poderiam todos desempenhar um papel, juntamente com a Alemanha, a França e a Grã-Bretanha” 20.

Isto é, uma posição que diferente da dos EUA nas seguintes questões: 

1) aceita a presença de Assad à mesa nas conversações para uma solução política; 

2) aceita que o Irão deve estar nessa mesa. 

A posição da Alemanha difere claramente da dos EUA e também da da França. É sintomático que a França, seguindo o exemplo dos EUA, tenha realizado ataques aéreos na Síria, no dia 27 de setembro (dois dias antes da intervenção russa), enquanto o Primeiro-ministro francês, Manuel Valls, falando sobre a intervenção russa, trouxe à colação a questão das armas químicas (!), afirmando que: “A Rússia não deve cometer erros em relação aos seus alvos na Síria e atingir outras organizações, além do Estado islâmico”, clarificando que: “Deveremos atingir os alvos corretos e, neste caso, o ISIS”. “A segunda condição é que ninguém pode atacar civis. E, principalmente, estar consciente de que o regime do (Presidente sírio) Bashar (Al Assad) continua a usar armas químicas contra civis e isto não pode ser tolerado”, continuou Valls 21 . 

Porém, após os ataques assassinos em Paris, a 13 de novembro de 2015, a posição francesa parece ter sido alterada. O Presidente francês, F. Hollande, no seu discurso ao parlamento e ao senado, em 16 de novembro, fez a seguinte referência: “Na Síria, estamos a olhar para a solução política, para o problema, que não é Bashar Assad. O nosso inimigo na Síria é o ISIS”. Isto é interpretado como uma mudança de política na Síria, aproximando-se da posição alemã, pois já não há mais uma obsessão com o afastamento de Assad (imediatamente). Hollande também mencionou que apelaria a Putin e Obama para tomarem iniciativas conjuntas com ele, uma posição que agradou a M. Le Pen, que, há algum tempo, vem exigindo “uma mudança de postura em relação à Rússia”. 

O porta-aviões francês “Charles de Gaulle” avançou para o Mediterrâneo oriental e começou os ataques contra o “Estado Islâmico”, visando coordenar as suas operações militares com os EUA (de cuja aliança faz parte) e também com a Rússia. 

A decisão da França de invocar o artigo 42, parágrafo 7, do Tratado da UE 22, e não o artigo 5 do relevante Tratado da OTAN, demonstra que a burguesia francesa quer a sua aliança com os EUA, mas não quer aceitar incondicionalmente o papel hegemônico dos EUA. Ao mesmo tempo, o facto de o governo francês não ter invocado o artigo 222 do Tratado de Lisboa (que, na verdade, se refere mais especificamente à ocorrência de um ataque terrorista) demonstra a distância a que está a tentar manter da Alemanha.

A Grã-Bretanha fez declarações muito agressivas contra a intervenção russa. O Primeiro-ministro Cameron fez a seguinte declaração: “Eles estão a apoiar o açougueiro Assad, o que é um erro terrível para eles e para o mundo. Isso vai tornar a região mais instável” 23. Além disso, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Grã-Bretanha, Philip Hammond, acusou a Rússia de realizar uma “guerra clássica assimétrica” na Síria 24. No dia 3 de dezembro, a Grã-Bretanha também começou os ataques aéreos, utilizando as suas bases militares na “inafundável porta-aviões” Chipre. 

Por sua vez, Israel, que admite que está a realizar operações no território sírio por razões de “autoproteção” e está a procurar de ter uma posição equilibrada, mas manifestou o seu desagrado com o envolvimento militar direto russo. O Primeiro-ministro Netanyahu afirmou que não quer um retorno à controvérsia nas relações de Israel com a Rússia 25 e também disse que “Israel está consciente do facto de que tem agora uma fronteira com a Rússia” 26. No entanto, deve referir-se que a Rússia assegurou a Israel que os seus interesses não serão prejudicados pela intervenção militar russa, muito pelo contrário! 

Claro, todos estes poderes têm afirmado a sua intenção – e alguns já agiram – de criar “mecanismos” para evitar um emaranhado militar acidental com a Rússia. 

A Turquia, com o chamado “Dogma neo-otomano” como o seu veículo, utilizando o Islão como um fator de unificação no Médio Oriente, nos Balcãs e no Cáucaso, promove as ambições da sua burguesia por um papel reforçado no sistema imperialista global, inicialmente dentro do G 20 e, em seguida, dentro do círculo mais apertado. Está a desempenhar um papel decisivo na crise síria! A burguesia turca apoiou os jihadistas e as acusações sobre o seu envolvimento no comércio de petróleo ilegal organizado nas áreas controladas pelo “EI” tem uma base. Para começar, a burguesia turca apoiou os planos para desmembrar a Síria e o Iraque; e não só exigiu ataques aéreos na Síria, mas também a implementação de uma “zona de exclusão aérea”, como havia sido feito na Líbia, que, na realidade, criaria as condições prévias para uma invasão terrestre e ocupação da Síria ou de uma parte dela. Já há fontes que se referem a forças terrestres poderosas a serem deslocadas para a Turquia, nas suas fronteiras com a Síria. O derrube do avião de caça russo foi um ato deliberado da Turquia, com o objetivo de mostrar a Moscovo que não pode ignorar abertamente os interesses (e planos) da burguesia turca. Estes desenvolvimentos provocaram claramente e provocam ainda um maior envolvimento da NATO na crise síria.

Seria um descuido para nós para não mencionar o objetivo da Arábia Saudita de formar uma nova coligação, a chamada “Aliança Militar Islâmica” 27, que visa integrar 34 países do Médio Oriente, Ásia e África, a fim de, alegadamente, confrontar o EI. Tal plano, que tem o apoio claro dos EUA, independentemente de ser ou não totalmente conseguido, desempenhará claramente um papel, se os planos de operações no terreno para desmembrar o país prosseguir na Síria. 

Avaliações sobre as perspetivas destes desenvolvimentos 

A base sobre a qual são formadas estas contradições e a sua expressão militar é a competição capitalista pelo lucro e a divisão dos recursos naturais e da riqueza. Assim, a questão da Síria é o epicentro de uma enorme concentração de forças, sem querer dizer que elas vão necessariamente entrar em conflito. Há muitas possibilidades, que são influenciadas por dezenas de fatores, e não estamos em posição de avaliar a sua importância e potencial dinamismo. A intervenção dos trabalhadores e dos povos é um fator importante que, até agora, não teve o sentido de se libertarem, a si próprios, dos objetivos das burguesias nacionais e estrangeiras. 

Com base na atual correlação de forças, poderá haver uma evolução nas seguintes direções – apresentamo-las a seguir sem uma ordem particular de importância: 

a) Continuação do desgaste a longo prazo de Assad e seus aliados, provocando outros pontos críticos, como uma escolha básica dos EUA e seus aliados – ou seja, a Turquia, Israel, as monarquias do Golfo –, com o objetivo de o sangrar economicamente, também a longo prazo, e desencorajar política e militarmente a Rússia na Síria. Isto poderia ser alcançado através do fornecimento de armas (isto é, mísseis “Stinger”, para a “oposição”, que alegou já os ter pedido e terem sido recusados oficialmente pelos EUA) 28 e, também, com a abertura de “frentes” no Leste da Ucrânia, e outras feridas na Ásia Central, no Cáucaso, etc. Certamente, tal possibilidade levaria a consequências incontroláveis, o que poderia ser negativo para as potências que a planearam – ou seja, uma guerra generalizada. O pessoal político e militar pessoal político já está a falar numa guerra generalizada entre a NATO e a Rússia e a pressionar para um aumento dos gastos na NATO 29. 

b) Uma solução de compromisso para a crise síria. O compromisso, para começar, seria entre as potências estrangeiras e, mais tarde, incluiria as forças opositoras internas. E poderia haver vários resultados de um compromisso, com o mais provável a ser o desmembramento da Síria, pois a aberta intervenção militar das potências imperialistas também tem amplas dimensões geográficas. Por exemplo,  a Rússia está a mostrar mais interesse nas regiões costeiras da Síria e os EUA no norte e partes do nordeste, tendo enviado “assessores” militares para grupos armados curdos nessas zonas. Quer dizer, cada potência estrangeira, apoiando as forças burguesas locais, dividirá a Síria em zonas, ou seja, protetorados.

Em qualquer caso, os interesses opostos continuarão a entrar em conflito. Teremos uma falsa “paz”, na essência imperialista, isto é, “com uma arma apontada à cabeça das pessoas”. 

O cenário da correlação interna e externa de forças, que permita um retorno à situação como ela era há uma década é menos provável –, ou seja, para a Rússia manter completamente as suas posições e o regime de Assad no terreno e “esmagar” os “terroristas”, como Putin realçou, a “oposição moderada” e a “oposição” não podem ser facilmente separadas. 

Por outro lado, um compromisso e uma “desarticulação” do conflito facilitaria que outras potências imperialistas focassem a sua atenção noutros pontos críticos, como, por exemplo, o Mar do Sul da China, onde o confronto vem sendo intensificado desde há algum tempo, sobretudo entre a China e os EUA e também entre a China e outros países da região. 


Notas:

1 Membro do Comité Central (CC) do Partido Comunista da Grécia (KKE), responsável pela Secção de Relações Internacionais. 

2 Alexander Zinoviev (1922-2006): um escritor, sociólogo, matemático e filósofo contemporâneo russos, dos mais conhecidos. A sua trajetória de vida incluiu a rejeição do sistema soviético e a sua expulsão do PCUS, em 1976, e, em seguida, a sua saída da URSS, em 1978. 20 anos depois, mudou completamente os seus pontos de vista e agora, na Rússia capitalista, pode ser considerado como um dos mais fanáticos apoiantes do sistema soviético que existe entre a inteligência russa. Ele é, possivelmente, o único “dissidente” soviético do “período da Guerra Fria” que lamentou integralmente a sua posição antissoviética e, de facto, pediu oficialmente desculpas ao povo russo. Tem respondido agressivamente à propaganda antissoviética sobre “perseguições” e “gulags”, afirmando que ele próprio foi preso em 1939 – e com razão –, pois tinha organizado um grupo com o objetivo de assassinar Stáline. “Com o que pretendíamos fazer, davam-nos uma medalha?”, foi a sua resposta a uma pergunta sobre o assunto, em 2005. Depois de 1990, defendeu apaixonadamente as conquistas da URSS e também os valores humanos que caraterizaram o sistema soviético. Zinoviev falou duramente sobre a dissolução da URSS, caraterizando-a como um “crime sem precedentes”. Numa das suas últimas entrevistas, afirmou que “o mal básico do mundo é a propriedade privada e, se a humanidade não for além disso, está condenada”. 

3 Ver, por exemplo, http://energypress.gr/news/o-polemos-ton-agogon-stin-notioana toliki-mesogeio. 

4 http://www.al-akhbar.com/node/ 184653.


6 «A guerra da energia no Mediterrâneo oriental”, Kommounistiki Epitheorisi, n.º 1/2012. 


8 SPIRI: acrónimo de Stockholm International Peace Research Institute (Instituto de Investigação Internacional de Estocolmo para a Paz). – [NT] 


10 http://russian.people.com.cn/95184/7727145.html

11 Andreas Matzakos, oficial do exército reformado, Mestre em relações internacionais e estudos estratégicos. “Estão os interesses vitais da Rússia em causa na Síria? Por que continua a Rússia a apoiar o regime de Assad” - http://www.elisme.gr/gr/ 2013-01-06-18-39-21/item/2015-09-27. 

12 http://www.rusexporter.ru/research/country/detail/2506/. 

13 http://russian.people.com.cn/95184/7727145.html. 

14 http://www.ft.com/intl/cms/s/0/cee6fcba-69bf-11e5-8171-ba1968cf791a.html# axzz3neno2hNG.

15 http://russian.people.com.cn//n/2015/0929/c31521-8957089.html. 

16 http://top.rbc.ru/politics/01/10/2015/560d2f6a9a794744bcd58e23. 

17 http://russian.people.com.cn//n/2015/1001/c31521-8957602.html. 

18 http://www.rg.ru/2015/12/04/kitay-anons.html. 

19 Declaração memorável – 7 países apelam à Rússia para não atacar os islamofascistas, de quem são os patrões: http://thesecretrealtruth.blogspot.com/2015/10/7_3.html#ixzz3, naTs9Kdr. 

20 http://www.ert.gr/merkel-vlepi-politiki-lisi-me-asant-ke-antipolitefsi-sti-siria/.

21 http://www.politis-news.com/cgibin/hweb?-A=303503&-V=articles. 

22 O artigo 42 inclui disposições da “política comum de segurança e defesa” της ΕΕ. Em particular, o parágrafo 7 estipula: «Se um Estado membro é vítima de agressão armada no seu território, os outros Estados membros terão perante ele uma obrigação de auxílio e assistência, por todos os meios ao seu alcance, em conformidade com o artigo 51 da Carta das Nações Unidas. Isto não prejudicará o caráter específico da política de segurança e defesa certos Estados membros. Os compromissos e a cooperação nesta área serão consistentes com os compromissos assumidos na Organização do Tratado do Atlântico Norte, que, para os Estados que dela são membros, continuam a ser o fundamento da sua defesa coletiva e a instância apropriada para a sua aplicação”.

23 http://www.naftemporiki.gr/story/1012006/kameron-terastio-lathos-oi-rosikes-epidromes-sti-suria. 

24 http://www.naftemporiki.gr/story/1012116/xamont-i-rosia-den-mporei-na-petaei-ta-paixnidia-tisapo-tin-kounia-otan-den-ginetai-to-diko-tis. 

25 http://tass.ru/mezhdunarodnaya-panorama/2317079. 

26 http://cnnpressroom.blogs.cnn.com/2015/10/04/fareed-zakaria-gps-benjamin-netanyahu-on-russia-iran-u-s/. 

27 http://www.rizospastis.gr/page.do?id=16064&publDate=17%2F12%2F2015&page No=24. 

28 http://top.rbc.ru/politics/04/10/2015/5610c1619a7947339a73394c. 

29 http://www.onalert.gr/stories/senaria-oloklirotikou-polemou-nato-russias-gennoun-exoplismouskai-xrima/45300. 



1ª parte - continua.........





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