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sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Lições da NEP soviética para «Economia Socialista de Mercado» da China Popular

Lições da NEP soviética para «Economia Socialista de Mercado» da China Popular
por Thomas Kenny*

"Este meu documento partilha a visão de que a NEP é na verdade uma precursora da ESM. Chego à conclusão, no entanto, não de que a NEP fosse o êxito, o precursor abortado da ESM, mas ao contrário de que a NEP conta-nos antecipadamente as contradições e limites da ESM."

"Ambas promovem mecanismos de mercado, propriedade privada, competição, integração na economia capitalista externa. Seus resultados seguiram a mesma sequência. Ambos, após o êxito inicial, entraram numa crise porque eram auto-contraditórias. Em teoria, eram as mesmas. Elas avançaram e cumpriram a restauração das forças produtivas deslocando-se para trás, para relações capitalistas de produção historicamente ultrapassadas, discordantes dos objectivos socialistas de um estado dos trabalhadores. Finalmente, as suas crises foram as mesmas"

Escritores marxistas ocidentais de vários pontos de vista asseveram que a Nova Política Económica (NEP) prenunciou a economia socialista de mercado (ESM). Um escritor observou: "A ordem social que actualmente se considera válida na China apresenta-se como uma espécie de NEP gigantesca e expandida" (Losurdo 2000, 498). De forma semelhante, um panfleto recente dos comunistas britânicos comparou a China dos dias actuais, com sua economia socialista de mercado, ao NEP da Rússia Soviética na década de 1920. "Em defesa do NEP, Lenine elaborou muitos dos mesmos pontos que Deng Xiaoping e representantes do Partido Comunista Chinês elaboram hoje... Naturalmente, a China no último quarto do século XX não era a Rússia no primeiro quarto. Mas as suas crises apresentam sintomas semelhantes. E os seus remédios assemelham-se fortemente um com o outro" ( China's Line of March 2006, 32). [1]

Este meu documento partilha a visão de que a NEP é na verdade uma precursora da ESM. Chego à conclusão, no entanto, não de que a NEP fosse o êxito, o precursor abortado da ESM, mas ao contrário de que a NEP conta-nos antecipadamente as contradições e limites da ESM. [2]

NEP e ESM: essencialmente o mesmo 

Ironicamente, podem-se encontrar eminentes economistas chineses a negarem a conexão entre a NEP e a ESM, ou pelo menos relutantes em afirmá-la. Um economista chinês representativo [da tendência] pró-mercado, o falecido Xue Muqiao, enfatizou a dissemelhança entre a NEP e a ESM. [3] Tal dissociação é pouco convincente. A NEP é semelhante a ESM em todos os aspectos chave. Na finalidade e no conteúdo de classe a NEP e a ESM são o mesmo: aumentar a riqueza de uma classe trabalhadora, como estado socialista, por um política que tornava necessário o crescimento de novas classes objetivamente hostis à construção socialista. Suas principais políticas são as mesmas.

Ambas promovem mecanismos de mercado, propriedade privada, competição, integração na economia capitalista externa. Seus resultados seguiram a mesma sequência. Ambos, após o êxito inicial, entraram numa crise porque eram auto-contraditórias. Em teoria, eram as mesmas. Elas avançaram e cumpriram a restauração das forças produtivas deslocando-se para trás, para relações capitalistas de produção historicamente ultrapassadas, discordantes dos objectivos socialistas de um estado dos trabalhadores. Finalmente, as suas crises foram as mesmas, como veremos abaixo. [4]

Fundamentos da NEP 

Recordemos o que foi a NEP. Em Março de 1921, após a rebelião do Kronstadt contra políticas bolcheviques, o 10º Congresso do Partido Comunista Russo reuniu-se e ouviu Lenine argumentar em favor de um novo rumo na política soviética. Lenine argumentou a favor do que denominou "capitalismo de estado" a ser realizado nas seguintes formas: (1) joint ventures com o estrangeiro e mesmo propriedade estrangeira de empresas ("concessões"); (2) cooperativas baseadas nos princípios de mercado; (3) a utilização de comerciantes capitalistas, bem como administradores econômicos e especialistas técnicos treinados em métodos capitalistas de gestão e organização; e (4) o arrendamento (leasing) de empresas de propriedade estatal e de recursos naturais tanto a capitalistas estrangeiros como internos. As empresas estatais, as quais controlavam os "níveis de comando", eram auto-suficientes e operavam no princípio dos lucros e perdas, abastecendo-se elas próprias dos seus próprios ativos circulantes (Sargis, 2004). 

Por que acabou o NEP? 

A maior parte dos partidários do socialismo, incluindo este autor, encara a NEP sob uma luz positiva, como um expediente de curto prazo que teve êxito ao ajudar a Rússia revolucionária a sair de uma crise econômica. Lenine demonstrou-se correcto: depois de o livre comércio nos cereais ter sido restaurado, a NEP logo teve êxito. Mas no fim da década de 1920, contudo, a NEP terminou porque estava a aprofundar a crise, não por causa dos poderes arbitrários e excessivos de Staline, como é muitas vezes apregoado. [5] Múltiplas crise levaram a liderança soviética a terminar a NEP. [6]

A NEP trouxe mais cereais para as cidades (isto é, aumentou as forças produtivas) ao aumentar os incentivos para os camponeses, especialmente os camponeses ricos (kulaks), com base nos antigos incentivos embutidos nas velhas relações de produção. Mas as mesmas relações de produção pré-revolucionárias restauradas pelos bolcheviques concederam aos kulaks o poder de retirar cereais do mercado na esperança de [obterem] preços mais elevados. A NEP então restaurou rapidamente o vínculo camponês-trabalhador, mas ao custo do fortalecimento dos inimigos de classe internos — os kulaks e "NEPmen" [7] — e objectivamente deu-lhes, especialmente aos últimos, cada vez maior poder sobre o ritmo da construção socialista. Portanto, a curto prazo, a NEP apaziguou o campo mas a prazo mais longo fortaleceu inevitavelmente as classes opostas à construção socialista. Além disso, alienou a classe social para a qual o sistema é suposto funcionar, a classe trabalhadora. 

O estado soviético lutou arduamente para enfrentar as contradições, mas elas não podiam ser eliminadas. Elas tenderam a agudizar-se ao longo do tempo. Aumentaram as desigualdade sobre a terra e os desequilíbrios na indústria. A possibilidade do crescimento rápido da indústria pesada socialistas recuava. Formas de consciência social que levavam à confusão e retrocesso ideológico atingiram o interior do Partido e ameaçavam a sua unidade. [8] A corrupção floresceu. [9] Em 1921-28, o imperialismo utilizou a NEP, embora de forma limitada, para intervir nos assuntos soviéticos. [10] O fortalecimento econômico da pequena burguesia levou o crescimento do nacionalismo pequeno-burguês a assumir duas formas: chauvinismo Grão Russo e separatismo nacionalista nas antigas nações subjugadas (Lenin e Stalin, 1979; Stalin 1953, 243–44). Quanto mais o fim da NEP fosse adiado, maior seria o custo de voltar ao planeamento e à propriedade pública. Por volta de 1928 a maior parte dos líderes soviéticos concluiu que ou os kulaks estrangulariam a revolução ou o estado soviético teria de descobrir um meio de cortar o Nó Górdio. A solução foi que: a) O socialismo podia ser construído num país, através da industrialização rápida. b) A industrialização rápida podia ser financiada por rendimentos acrescidos da agricultura através de cooperativas agrícolas e da mecanização. c) Um confronto com os kulaks seria inevitável. d) O crescimento da indústria e da agricultura podia ser coordernado pelo planeamento central (Keeran e Kenny, 2004, 18). 

O poder preditivo da NEP 

Tal como a NEP, a ESM avançou e efectuou a restauração das forças produtivas através do retrocesso para relações capitalistas de produção historicamente ultrapassadas, discordantes de outros objectivos socialistas a médio e longo do povo da China. Se na verdade a NEP é um padrão para a ESM, que fenómenos seriam de esperar na China? Nós esperaríamos ver — e estamos a ver — o crescimento de forças de classe hostis dentro do país; corrupção do Partido; regressão ideológica; inquietação social; desemprego; desigualdade crescente entre ricos e pobres; desigualdade entre regiões; privações e inquietações rurais; [11] graves condições para os imigrantes das zonas rurais que procuram trabalho nas cidades; abusos nos locais de trabalho, especialmente em firmas controlados pelas corporações transnacionais (CTNs); alienação dos trabalhadores industriais e camponeses pobres em relação ao Partido; declínio dos serviços de saúde e educação (Hart-Landsberg and Burkett 2004, 58–75). 

Certas características especiais da ESM tornam a China Popular ainda mais vulnerável ao perigo que chegou a ser na Rússia. A inovação doutrinária da etapa primária de socialismo permitiu, até muito recentemente, uma atitude displicente quanto aos sinais de advertência. A China está muito mais integrada plenamente na economia capitalista mundial, um facto imposto por instituições tais como a Organização Mundial do Comércio (OMC). Da integração resulta a facilidade de transmissão de choques económicos externos. A China permanece dependente de uma ordem política e militar dirigida pelo imperialismo. A pressão imperialista para desregulamentar o sistema financeiro da China e, mais genericamente, para enfraquecer o controle do estado sobre o conjunto da economia, para "abrir-se", persiste. Se a China procurar corrigir abusos no trabalho em firmas de propriedade das CTNs, estas ameaçam reduzir ou acabar com o investimento no país. 

Questões resultantes para a ESM da China 

Se esta análise da NEP for correcta, certas questões seguem-se logicamente. 
Deverá a crise da ESM piorar? A China conseguiu ganhos dramáticos na produção com a extensão das relações capitalistas de produção, a mesma contradição que atormentou a NEP. Durante quanto tempo mais a ESM será sustentável? Na União Soviética em 1928-29, para encerrar a NEP foi necessária uma luta demasiado sangrenta no campo, "uma terceira revolução" na frase de Bukharine. Não será razoável pensar que reverter o rumo na China também exigirá um preço demasiado alto se ela for adiada por "uma centena de anos"? [12] A nova doutrina da "etapa primária do socialismo" a estender-se quase infindavelmente no futuro parece subestimar gravemente a velocidade do aumento de classes objetivamente hostis ao socialismo na China Popular.  
Quais são as prováveis consequências da ESM na esfera da ideologia? Nos meados da década de 1920 os líderes soviéticos notaram a ascensão do nacionalismo pequeno-burguês. Poderá alguém avaliar o impacto ideológico regressivo da descolectivização e do retorno à propriedade privada sobre milhões de camponeses chineses?  
Haverá um caminho de desenvolvimento para a China Popular que ofereça uma taxa de desenvolvimento das forças produtivas igual ou ainda mais rápida? Na URSS, no Primeiro Plano Quinquenal, quando a URSS transcendeu a NEP, foram atingidas taxas anuais de crescimento industrial da ordem dos 13 por cento. [13] Uma vez que a construção socialista significa tanto criar relações socialistas de produção como aumentar as forças produtivas, pode mesmo fazer mais sentido aceitar um crescimento mais lento da produção se isto for necessário para dedicar mais atenção a reparar a rede de segurança social e a restaurar o bem estar de trabalhadores e camponeses.  
Será totalmente inédito que fenômenos de crises inesperada surjam na ESM, fora do controle das autoridades de Pequim? A NEP foi cheia de surpresas. As relações capitalistas de produções na China são extensas. A integração do país no sistema capitalista está avançada. Muitos — incluindo a Wall Street (Kahn 2005; Barboza 2006b) — temem a emergência de um dos maiores males do capitalismo, uma crise cíclica de super-produção, ou na linguagem dos negócios, um crash, após um longo boom. Os planeadores centrais em Pequim cederam muito poder à espontaneidade do mercado. [14]Será que ficará em causa a capacidade estabilizadora do estado diante da economia frenética e do impacto brutal de choques externos?  
Haverá qualquer realismo em supor que o imperialismo concordará numa "ascensão pacífica da China"? [15] A NEP restringiu as "concessões estrangeiras" e confinou o seu comércio exterior em grande medida a trocas de cereais-por-maquinaria pesada. Mas o registro histórico é amargo. Será que a Grã-Bretanha imperialista anuiu à "ascensão pacífica" da Alemanha em 1870-1914? Será que a América imperialista anuiu à "ascensão pacífica" da URSS em 1945-91? A história sugere que a China Popular terá de lutar pelo seu sistema socialista, sua independência nacional e pela paz. O imperialismo é o inimigo de todos os três.  
Se a ESM significa nova busca da China de integração num mundo de política econômica dominado pelos EUA, como pode a China socialista cumprir suas responsabilidades internacionalistas? Deve a China procurar desenvolver-se através da atração de investimento e competindo no comércio exterior apenas na base dos salários baixos? [16] Os interesses da classe trabalhadora da China não são os únicos em causa. Todos os amigos do socialismo chinês ficaram satisfeitos com os passos recentes para melhorar direitos trabalhistas (Barboza 2006a). Quando a URSS alcançou milagres de produção nos primeiros dois Planos Quinquenais, revolucionários de todo o mundo ganharam ânimo. O dano ideológico para o prestígio do socialismo provocado pela imagem da China — merecida ou não — como "fábrica do mundo com péssimas condições de trabalho" é grande.
Conclusão 

É de saudar que a liderança principiada em 2002, perturbada por estes indicadores negativos, esteja a combater mais duramente as consequências danosas da ESM. Este documento, assim espero, acrescenta argumentos, baseados na teoria e na história, aos argumentos daqueles líderes chineses que pretendem ir mais adiante nesta rectificação. O movimento revolucionário mundial sofreu imensas perdas com a destruição do socialismo na Europa e na URSS quase no fim do século XX. O movimento ainda está a lutar para recuperar daquele revés. Tremo ao pensar no desespero que dominará toda a humanidade progressista no século XXI se a subestimação dos perigos inerentes à "economia socialista de mercado" causar danos irreparáveis às realizações revolucionárias da China Popular.


NOTAS 

1- Da mesma forma, um académico estado-unidense, AIbert L. Sargis, escreve na revista teórica e de discussão do CPUSA, que a NEP foi "uma economia socialista de mercado em forma embrionica" (Sargis 2004) 

2- A comparação de experiências revolucionárias tão remotas no espaço e no tempo como a NEP da Rússia e a ESM da China é certamente apropriada. Exemplo: a Comuna de Paris de 1871 e a Revolução de Outubro de 1917 tiveram lugar em circunstâncias totalmente diferentes. Mas a partir da Comuna Marx fez importantes generalizações teóricas acerca da natureza do poder do estado e das exigências da transformação revolucionária, aplicáveis em outros lugares. Em 1917 Lenine testou-as na prática. Uma abordagem científica da história exige uma pesquisa de tais padrões. "Uma característica fundamental da historiografia anti-marxista é a absolutização do particular, do que é nacionalmente específico... Pois os anti-marxistas temem generalizações... eles evitam cuidadosamente conceitos que sugeririam regularidades no desenvolvimento da sociedade". E. Zhukov, Methodology of History (Moscow: USSR Academy of Sciences, 1983), 56. É o caso do "excepcionalismo americano", um erro ideológico recorrente no movimento da esquerda dos EUA. O "excepcionalismo chinês" é um desvio nacionalista na esfera da teoria. 

3- Xue parece pensar que o apoio anterior a 1949 dos camponeses chineses à revolução — tornando desnecessária qualquer NEP pós-revolucinária para restaurar as peias do campesinato — torna a China diferente da Rússia (Xue Muqiao 1981, 3). Xue asseverou:

"Ele [Lenine] avançou a NEP, uma tentativa para controlar a pequena economia camponesa através do mercado pelo desenvolvimento do estado e do comércio cooperativo... A situação na China era diferente". Xue prossegue para declarar que a Revolução Chinesa já havia desenvolvido "cooperativas de abastecimento e comercialização" em zonas libertadas antes de 1949, separando politicamente os camponeses do latifundismo e ganhando-os para a revolução. A não necessidade na China do objectivo político da NEP — recapturar o apoio político do campesinato — é um fraco argumento para a não semelhança entre a NEP e a ESM. Mas Xue está indirectamente e talvez não intencionalmente admitindo que a NEP foi adoptada em condições de necessidade genuína, e que a ESM não era necessária no mesmo sentido estrito. A visão de Xue é uma posição desconcertante para um académico chinês assumir. É bem sabido que Deng Xiaoping estava profundamente interessado em aprender tudo o que podia acerca da NEP junto ao industrial dos EUA Armand Hammer que a conheceu em primeira mão ( http://www.reference.com/browse/wiki/Deng_ Xiaoping ). Possivelmente muitas décadas de anti-sovietismo no discurso político chinês desencoraja comparações soviético-chinesas. A doutrina da "etapa primária de socialismo", ligada a uma teoria de 1989-91, apresenta poucos incentivos para tais comparações, pois os estados socialistas do Leste Europeu e a União Soviética entenderam tudo errado e a história pronunciou o seu veredicto sobre eles. Um eminente pensador chinês escreveu que os estados que caíram já não eram socialistas de todo (ver Zhongqiao Duan 1998, 224). Quando isto aconteceu, houve tantas guinadas na política económica da China Popular que um período anterior assemelha-se ainda mais estreitamente ao NEP do que a ESM, isto é, o período 1949-56 (Slakovsky 1972, 153). 

4- Obviamente, existem diferenças entre a NEP e a ESM. Primeiro, elas decorrem em diferentes circunstâncias históricas. A Rússia pré-1914 era um país capitalista de desenvolvimento médio, arruinado pela Primeira Guerra Mundial, invasão do pós-guerra e guerra civil. No princípio da NEP, o governo de Lenine estava em perigo de perder apoio camponês. Em 1949 a China era um país semi-feudal e semi-colonial; em 1978 a China havia perdido anos preciosos de desenvolvimento devido a políticas mal consideradas, ultra-esquerdistas, aventureiras. Segundo a ESM perdurou muito mais tempo. Certamente, a sensibilidade da China Popular ao perigo da perda de soberania nacional é um factor na paciência com que tanto as autoridades como o povo têm-se aguentado sob as agudas contradições da ESM (ver Weil 1996, 83). Além disso, a paciência chinesa é compreensível; levantar da pobreza quatro centenas de milhões de chineses é um feito estupendo. Terceiro, as expectativa tem sido qualitativamente diferentes. Na Rússia, a NEP foi encarada como um recuo temporário para o "capitalismo de estado". A China Popular abraçou todas as novas doutrinas do desenvolvimento alongando a transição para o socialismo. Quarto, a Rússia Soviética cercada tinha o mundo externo hostil a pouco distância, interagindo com ele meramente através de acordos de paz e acordos comerciais. O estado soviético permaneceu em grande medida economicamente autónomo. Em contraste, a China buscou a integração impetuosa na economia capitalista mundial. Quinto, na Rússia da NEP o Partido mantinha vigilância estrita sobre a economia. As autoridades em Pequim, talvez porque o fenómeno de uma grande crise amadureceu depois, até recentemente transferia muita supervisão da economia a organismos regionais e locais. Sexto, durante grande parte da era da ESM, de 1978 até 1991, a URSS, não a China Popular, era o alvo principal da hostilidade, pressão e subversão imperialista. 

5- No ocidente capitalista, a NEP é um "terreno contestado" numa recorrente batalha ideológica entre Comunismo e reformismo. Até 1985, a NEP foi a era da história soviética na qual foi dada mais liberdade ao capitalismo. Assim, naturalmente, os reformistas sociais, reformistas liberais e comunistas revisionistas idealizam a NEP, mitologizando-a saudaosamente como O caminho não adoptado. Na batalha para mudar a direcção em 1921, certas frases utilizadas por Lenine — por exemplo, de que a NEP seria prosseguida "seriamente" e "por um longo tempo", deram aos oportunistas subsequentes uma base textual para argumentar que ele encarava a NEP como a nova rota permanente para o socialismo soviético. Já na década de 1930, o social-democrata austríaco Otto Bauer exprimiu a esperança de que a experiência da NEP suavizaria finalmente o bolchevismo e levá-lo-ia de volta à corrente principal do social reformismo europeu. Em 1956, comunistas revisionistas húngaros sob Imre Nagy promoveram esta mesma imagem da NEP, tal como o fez mais tarde Ota Sik, conselheiro principal do revisionista checoslovaco Alexander Dubcek em 1967-68. O historiador Roy Medvedev, um apoiante de Gorbacheve, louvou a NEP como "a mais vital contribuição de Lenine para a teoria e a prática do movimento socialistas". Analogamente, a antiga e influente conselheira de Gorbachev, Tatiana Zaslavskaya, promoveu a NEP como o modelo para o rumo da reforma pós 1986. O analista de assuntos soviéticos de The Nation, Stephen F. Cohen, declarou: "Dito simplesmente, o Partido Comunista Chinês reabilitou a alternativa económica perdida para o stalinismo... a NEP, que estabeleceu uma economia mista, foi o primeiro experimento em socialismo de mercado". Nas suas memórias, Anatoly Chernyaev, um ajudante de topo de Gorbachev, conta que depois de ler a biografia de Bukharine de Stephen F. Cohen, Gorbachev — um bukharinista simplesmente inconsciente até então — reabilitou Bukharine e tornou-o o seu padrinho ideológico, por assim dizer, para a perestroika. Alguns neo-bukharinistas dos dias de hoje, indo mais além do que o próprio Bukharine chegou a ir, reflectem economistas neoliberais tais como Ludwing von Mises e Friedrich Hayek, os quais argumentavam que apenas "mercados livres" permitem a formação racional do preço e a eficiência distributiva. Mercados "livres", apregoam tais neo-bukharinistas, são superiores ao planeamento central pelo menos no presente estado da ciência. 

6- Um comunista italiano colocou a situação simplesmente: "A maior parte dos historiadores está bem consciente das contradições que acabaram por levar à crise da NEP no fim da década de 1920" (Boffa 1982, 178). Primeiro, o mercado criou instabilidade, como por exemplo na crise das "tesouras" de 1922-23, na qual preços dos cereais a flutuarem de forma selvagem provocaram escassez alimentar e desemprego entre trabalhadores, prejudicando camponeses pobres e muitos camponeses médios, mas beneficiando camponeses ricos, isto é, kulaks. Segundo, os sovietes perceberam que as políticas da NEP condenavam a União Soviética a um período prolongado de atraso industrial, uma perspectiva inaceitável em face de boicotes e provável invasão por países ocidentais — sem mencionar o objectivo supremo de uma sociedade socialista próspera só possível com base na moderna indústria pesada. Terceiro, em 1927-28 a ideia de que só os mecanismos de mercado seria suficientes para alimentar as cidades rompeu-se totalmente quando diante dos preços em queda os desafiantes kulaks acumularam cereais e permitiram que as cidades confrontassem a fome. A NEP também engendrou crescentes contradições políticas internas, como o crescimento do nacionalismo daninho. Quando a situação internacional piorou, as crises da NEP demonstraram-se inadministráveis. 

7- Os NEPmen eram comerciantes privados, uma nova burguesia que cresceu na era do NEP. Ver Ball 1987, 15–37). 

8- "Sob a burocracia da NEP, os administradores, os técnicos e a intelligentsia — o corpo de oficiais da nova sociedade — era predominantemente, quase exclusivamente, constituído por elementos estranhos ao regime" (Carr 1958, 116). A obra em vários volumes de Carr, A History of Soviet Russia, talvez seja o relato mais pormenorizado da NEP disponível em inglês. 

9- Sobre a corrupção da NEP, ver Ball 1987, 63, 106, 114, 116, 171. 

10- O Acordo Anglo-Soviético de Comércio, no princípio da era NEP, estipulava que os soviéticos tinham de restringir "propaganda hostil" contra a Grã-Bretanha (Carr 1953, 289). 

11- "Corrupção, poluição, tomada de terra e taxas e impostos arbitrários estão entre as principais causas de uma vaga de inquietação social. Os tumultos tornaram-se uma característica da vida rural na China — mais de 200 "incidentes maciços de inquietação" verificaram-se a cada dia de 2004, mostram estatísticas da polícia — minando a insistência do partido na estabilidade social" (Kahn 2006). 

12- "A China está na etapa primária do socialismo e permanecerá assim por um longo período de tempo. Esta é uma etapa histórica que não pode ser omitida na modernização socialista na China que está atrasada economicamente e culturalmente. Ela perdurará por mais de uma centena de anos" ( Constitution of the Communist Party of China, adopted 14 November 2002). http://english.people/com.cn/200211/18/eng20021118_107013.shtml

13- Um historiador económico contemporâneo dos EUA, Robert C. Allen, declara que a velocidade da industrialização do Primeiro e Segundo Planos Quinquenais atingiu o crescimento de 12,7 por cento ano (2003, 219). Esta visão é muito semelhante àquela do economista marxista Maurice Dobb, o qual citou economistas burgueses anti-soviéticos nos Estados Unidos que estimaram taxas de crescimento da produção industrial soviética de pelo menos 14 por cento de 1929 a 1937 (1968, 261–62). 

14- Monopólios transnacionais de propriedade ocidental e japonesa controlam cada vez mais a economia. A sua fatia das vendas totais de manufacturas na China passou de 2,3 por cento em 1990 para 31,3 por cento em 2000 (Hart-Landsberg and Burkett 2004). 

15- Foreign Affairs é uma publicação chave do debate da classe dominante dos EUA acerca de política externa. Num artigo na Foreign Affairs, Zheng Bijian, escreveu com a maior ingenuidade que uma "ascensão pacífica" dependia das esperança das potência em ascensão, não dos armamentos da potência hegemónica, os EUA, armada até os dentes com milhares de armas nucleares, e um medonho registo de utilização contra um povo asiático. Zheng escreve: "A China não seguirá o caminho da Alemanha que levou à Primeira Guerra Mundial" e "a China ultrapassará diferenças ideológicas para esforçar-se pela paz, desenvolvimento e cooperação". O artigo identifica o autor como um dos que "redigiu relatórios chave em cinco congressos nacionais do partido chinês e detém postos elevados em organizações académicas e do partido na China" (2005). 

16- "Se bem que os custos de remuneração horária total de trabalhadores manufactureiros tenham aumentado mais rapidamente na China do que nos Estados Unidos entre 2002 e 2004, a remuneração horária por empregado na China continuava a ser 3 por cento do nível dos Estados Unidos" (Lett and Banister 2006). 

LISTA DE REFERÊNCIAS 

Allen, Robert C. 2003. From Farm to Factory: A Reinterpretation of the Soviet Industrial Revolution. Princeton: Princeton Univ. Press.

Ball, Alan M. 1987. Building Communism with Bourgeois Hands. Chap. 1 of Russia's Last Capitalists: The Nepmen, 1921–1929. Berkeley: Univ. of California Press.

Barboza, David. 2006a. China Drafts Law to Empower Unions and End Labor Abuses: Opposition Voiced by US and other Corporations. New York Times, 13 October. ———. 2006b. Rare Look at China's Burdened Banks: Loan Risk Adviser Warns of Cover-Up. New York Times, 15 November 2006. 

Boffa, Giuseppe. 1982. The Stalin Phenomenon. Ithaca: Cornell Univ. Press.

Carr, Edward Hallett 1953. NEP in Foreign Policy. Chap, 27 in The Bolshevik Revolution, 1917–1923, vol. 3, Soviet Russia and the World. London: Macmillan. ———. 1958. Socialism in One Country . Vol. 1 of A History of Soviet Russia. London: Macmillan, 1958).

China's Line of March. 2006. Conclusions and Prospects from a report of the Communist Party of Britain delegation to China. London: Communist Party of Britain.

Dobb, Maurice. 1968. Soviet Economic Development since 1917 . New York: International Publishers.

Hart-Landsberg, Martin, and Paul Burkett. 2004. China and Socialism: Market Reforms and Class Struggle . Special issue of Monthly Review (July-August).

Kahn, Joseph. 2005. Investment Bubble Builds New China. New York Times, 23 March. 
———. 2006. A Sharp Debate Opens in China over Ideologies. New York Times, 12 March.
Keeran, Roger, and Thomas Kenny. 2004. Socialism Betrayed: Behind the Collapse of the Soviet Union. New York: International Publishers.

Lenin, V. I., and J. V. Stalin. 1979. Selections from V. I. Lenin and J V. Stalin on the National and Colonial Question. Calcutta: Calcutta Book House.

Lett, Erin, and Judith Banister. 2006. Labor Costs of Manufacturing Employees in China: An Update to 2003–2004. Monthly Labor Review (November): 40–45. U.S. Bureau of Labor Statistics.

Losurdo, Domenico. 2000. Flight from History? The Communist Movement between Self-Criticism and Self-Contempt. Nature, Society, and Thought 13, no. 4:457–511.

Sargis, Al L. 2004. The Socialist Market Economy: Unfinished Business. Political Affairs (January).

Slakovsky, M. I., ed. 1972. Leninism and Modern China's Problems. Moscow: Progress Publishers.

Stalin, J. V. 1953. Report on National Factors in Party and State Affairs. 12 th Congress of Russian Communist Party, 23 April. In Works , 241–68. Moscow: Foreign Languages Publishing House.

Weil, Robert. 1996. Red Cat, White Cat: China and the Contradictions of “Market Socialism.” New York: Monthly Review Press.

Xue Muqiao. 1981. China's Socialist Economy. Beijing: Foreign Languages Press. Zheng Bijian. 2005. China's “Peaceful Rise” to Great Power Status. Foreign Affairs 84, no. 5 (September–October): 18–24. 

Zhongqiao Duan. 1998. Critique of Market Superiority and Market Neutrality. Nature, Society, and Thought 11, no. 2:221–39.



O original encontra-se em Nature, Society, and Thought, vol. 20, no. 1 (2007): 


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .



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