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quinta-feira, 19 de novembro de 2009

ANTICOMUNISMO E REVISÃO DA HISTÓRIA


Anticomunismo e revisão da história


A 3 de Julho deste ano, a Assembleia Parlamentar da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) protagonizou mais um episódio aviltante, ao aprovar uma resolução que equipara os crimes fascistas ao período Estalinista e que atribui a responsabilidade do inicio da Segunda Guerra Mundial tanto à União Soviética quanto à Alemanha Nazi.


A resolução foi aprovada em Vilnius, capital da Lituânia, contra a posição de um terço dos membros daquela assembleia, o que contradiz o espirito do lema com que intitularam o debate: "Europa dividida reunificada". Na verdade, várias organizações, entre as quais a Federação Internacional dos Resistentes(FIR), reagiram de imediato mostrando a sua surpresa e indignação.


Esta associação antifascista considerou que "tais declarações nada têm a ver com a realidade histórica". Para além de ser uma falsificação, a FIR denuncia que " difamam a luta comum da coligação anti-Hitler, na qual a União Soviética teve papel fundamental como potência aliada contra a maior ameaça que a humanidade enfrentou no século XX".


Para esta organização, a aprovação deste documento demonstra que aos promotores desta iniciativa " não interessa obter um consenso político alargado". Interessa-lhes, sim, " o estabelecimento de uma visão reacionária da história na Europa".


Também mais de 60 partidos comunistas e operários, entre os quais o PCP, condenaram a resolução. Entre os principais pontos do protesto, indica-se que quem aprovou aquele documento, para além de ser falsificador da história, " oculta que foi a União Soviética que deu o maior contributo para a libertação da Europa do nazifascismo " e pretende " branquear os que, no pacto de Munique, em 1938, entregaram a Checoslováquia, permitindo a eliminação e a subjugação dos povos checos e eslovaco ao nazifascismo ".


Mas muito mais se pode acrescentar. Esta ofensiva anticomunista e revisionista tem como objetivo debilitar o movimento operário internacional e fornecer bases históricas falsificadas para derrotar as idéias comunistas no domínio da propaganda e do debate ideológico. Na verdade, os mesmos que apresentaram e aprovaram esta resolução são, em muitos casos, aqueles que, nos seus países, perseguem os comunistas e reprimem as demonstrações antifascistas.


Respostas Diversas


Por exemplo, na Lituânia, país que recebeu esta sessão da Assembleia Parlamentar da OSCE, não só se perseguem os comunistas como também se reabilita o nazismo e os nazis. E sabe-se que a ofensiva anticomunista se agudiza perante um cenário negro em que a crise do capitalismo desmorona as ilusões douradas que à força se incutiram aos povos daquela região.


Que melhor demonstração que a eleição, na vizinha Letônia, de Alfred Rubiks para deputado ao Parlamento Europeu? Depois de cumprida uma pena de seis anos de prisão, o ex-secretário do Comitê Central do Partido Comunista da Letônia e Herói da União Soviética continua impedido de se candidatar nas eleições de seu país. Contudo, pôde concorrer ao Parlamento Europeu e obteve 19,53 por cento dos votos. A mínima abertura democrática, o povo letão deu uma resposta com um significado muito importante.


Uma resposta que, noutros países, é reprimida. Não há muito tempo, chegavam informações da brutal repressão contra jovens comunistas da Ucrânia. Na República Checa, repetiu-se o que há muito se faz em países do Leste Europeu: ilegalizou-se a União da Juventude Comunista.


Esta realidade, infelizmente, alastra-se por toda a Europa. Ainda que com características muito distintas, surgem episódios também no Ocidente da Europa. E até caricatos. Como aquele, na Sicília, da mãe que perdeu a custódia do filho porque o pai encontrou, entre os pertences do jovem, o cartão de militante da Refundação Comunista e uma bandeira do Che Guevara. Estes dois objetos foram suficientes para que o tribunal aceitasse os argumentos de que a mãe era uma " má influência " e que o havia deixado juntar-se a um " grupo extremista ".


Mas não precisamos ir longe. Há poucas semanas, Alberto João Jardim, presidente do governo da Região Autonoma da Madeira e destacado membro do PSD, propunha a proibição do comunismo. E apesar da falta de crédito que, por norma, recebem as suas afirmações, editoriais, colunas de opinião e destacados jornalistas acorreram em seu apoio. Afinal, se a ideologia fascista é proibida, a ideologia comunista também o deve ser, repetiram. Curiosamente, também neste caso, quem propõe também tem um passado histórico com raízes fascistas. Alberto João Jardim foi membro da União Nacional.


Portanto, não é dificil perceber o que está em jogo: a tentativa de desligar o fascismo do seu elemento fundamental, o capitalismo; procurar confundir o comunismo com o fascismo através do conceito do totalitarismo; criminalizar o comunismo e reabilitar o fascismo.


Uma Luta de todos


Costuma dizer-se que Portugal, através dos navegadores, deu novos mundos ao mundo. Não estaria errado dizer-se que a União Soviética deu novos mundos ao mundo dos trabalhadores. O mundo de salários dignos, o mundo da emancipação da mulher, o mundo das férias pagas, o mundo da educação e da saúde para todos, o mundo da cultura e do desporto, para enumerar apenas alguns. Mas, acima de tudo, o mundo da paz. E foi, por esse mundo de paz, que morreram milhões e milhões de soviéticos cuja memória não pode ser manchada culpando-os pela Segunda Guerra Mundial.


A União Soviética estava farta de guerras. Principalmente, de guerras que nunca iniciou. Depois da Primeira Guerra Mundial, a pátria de Lenine teve de enfrentar a ofensiva da coligação de vários países que pretendiam derrubar o primeiro Estado governado por operários e camponeses. Após a vitória, teve de combater conspirações e sabotagens contra as suas jovens estruturas. Para depois se ver confrontada com o crescimento do fascismo por toda a Europa sem qualquer oposição das democracias burguesas. Enfrentou tudo isto sem a solidariedade dos países que se afirmavam pacíficos e democráticos.


Dizer que a União Soviética esteve na origem da Segunda Guerra Mundial é aviltante. Recordemos quem a tentou evitar desde o início e quem nada fez para a evitar. Recordemos quem apoiou de forma ativa a República Espanhola e quem preferiu fechar os olhos ao crescente intervencionismo nazi-fascista no apoio aos franquistas. Recordemos quem alinhou na " política de apaziguamento " e assinou os Acordos de Munique, em que se cedeu à maioria das exigências de Adolf Hitler.


Também hoje há os que dizem lutar pela paz e pela liberdade enquanto lançam ofensivas militares em nome de interesses políticos e econômicos. São os mesmos que nos seus países promovem a exploração e a miséria para alimentar os bolsos de uma minoria. E é precisamente a esses que interessa a criminalização dos comunistas e , se necessário, como aconteceu no passado, a repressão sobre progressistas e democratas que não sendo comunistas defendem a liberdade.


Nos nossos dias, urge dar combate a toda desinformação e manipulação que se faz sobre o tema. Os comunistas sempre estiveram na linha-de-frente do combate ao nazi-fascismo. Como referido, a luta contra a criminalização do comunismo não é apenas uma luta de comunistas. É uma luta de todos, mulheres e homens, que defendem a democracia e o progresso social.


Unamo-nos.


Original : URAP - União de Resistentes Antifascistas Portugueses


boletim série 4 - nº 124

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