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terça-feira, 1 de novembro de 2016

Hillary e a Fundação Clinton: Exemplos de podridão política da América

Hillary e a Fundação Clinton: Exemplos de podridão política da América
por Eric Draitser *

"E, assim, a quadrienal dança macabra que é a eleição presidencial nos EUA transformou-se num constrangedor espetáculo de circo, de um infantilismo obtuso. Mas, no meio da idiotice, há criminalidade desumana e corrupção que têm de ser expostas perante o mundo. Por algum tempo, Trump é sem dúvida a mulher barbuda de freak show da América e Hillary é a pregoeira do carnaval."
" O que a confusão da Fundação Clinton realmente demonstra é que o desejo de poder de Clinton só tem um objetivo, totalmente simpático à corrupção do complexo militar-industrial-financeiro e de espionagem; que ela é um membro e uma serva do institucionalismo; que Clinton representa o casamento de todos os piores aspectos da classe política. Em suma, Clinton é mais do que apenas corrupta, ela é a corrupção personificada.

Hillary Clinton pode desfrutar de uma vantagem confortável nas sondagens nacionais, mas está longe de desfrutar de uma noite de sono confortável, dado o turbilhão cada vez maior de escândalos a cercar a sua candidatura presidencial. E enquanto Clinton tem prazer em passar o tempo à volta de uma “vasta conspiração de direita” contra ela, de há décadas, o facto é que é a longa e histórica máquina política de Clinton, com um currículo de criminalidade, duplicidade e corrupção que a assombra, como o fantasma de Lincoln a rondar, silenciosamente, os quartos da Casa Branca. 

O mais recente de uma série de escândalos embaraçosos está centrado na poderosa Fundação Clinton, e na óbvia impropriedade da sua aceitação de grandes doações de governos estrangeiros (e de indivíduos ricos com eles conetados), especialmente de governos universalmente reconhecidos como ditaduras opressoras, cuja orientação da política externa os coloca diretamente na órbita dos EUA.

De referir, em particular, as monarquias do Golfo, como a Arábia Saudita e o Qatar, cujas doações maciças desmentem o facto de que a opressão das mulheres seja contraditória com o pretenso “feminismo” de Clinton e a crença de “que os direitos das mulheres e raparigas é o trabalho inacabado do século XXI”. É a colaboração com as monarquias feudais, cuja subjugação das mulheres é uma infâmia, realmente a ideia de feminismo de Clinton? Ou, ao invés, Clinton usa questões como os direitos das mulheres meramente como um apito de cachorro para os liberais leais, enquanto se humilha perante os altos conselheiros do sacerdócio imperial? 

O que a confusão da Fundação Clinton realmente demonstra é que o desejo de poder de Clinton só tem um objetivo, totalmente simpático à corrupção do complexo militar-industrial-financeiro e de espionagem; que ela é um membro e uma serva do institucionalismo; que Clinton representa o casamento de todos os piores aspectos da classe política. Em suma, Clinton é mais do que apenas corrupta, ela é a corrupção personificada.

O negócio sujo de Clinton e a roupa ainda mais suja 

Numa hilariante e teimosa posição, mas bastante reveladora, o ex-presidente Bill Clinton respondeu às alegações de impropriedade da Fundação Clinton, dizendo: “Nós estamos a tentar fazer coisas boas … Não sei o que há de errado com a criação de empregos e em salvar vidas. As pessoas que deram o dinheiro sabiam exatamente o que estavam a fazer. Não tenho nada a dizer sobre isso, exceto que estou realmente orgulhoso”. 

Deixando de lado o facto de um comentário tão arrogante demonstrar o completo desprezo de Bill Clinton para com a ética e as normas básicas de uma conduta correta, o ponto importante é que o argumento dos Clintons é o de que a fundação é inerentemente boa, que ajuda as pessoas em todo o mundo e que, como tal, não pode, eventualmente, ser corrupta e antiética. Onde há fumo, há fogo – exceto quando se trata dos Clintons, que estão orgulhosamente envoltos em nuvens de fumo e juram, para cima e para baixo, que não só não há fogo, mas também que quem mencione a existência de chamas é um sexista amador de Trump e fantoche de Putin. 

Mas, na verdade, há um fogo, que está a ser atroz no cenário político americano. E em nenhum lugar é o calor mais palpável do que nos desertos do Médio Oriente, onde benfeitores ricos passam cheques enormes para acederem à Rainha da Maldade do século 21 da América (desculpas a Leona Helmsley 1). 

Considere-se a venda, em 2011, de US $ 29 mil milhões em caças avançados para a Arábia Saudita, um negócio gigantesco que tornou a monarquia feudal numa potência aérea, do dia para a noite. Se havia algumas dúvidas quanto ao uso desse equipamento, não procuremos mais do que o pesadelo humanitário que é o Iêmen, um país sob uma implacável guerra aérea levada a cabo pelos sauditas. E, vejam só, os sauditas foram os principais contribuintes da Fundação Clinton, nos anos que antecederam a venda. E seria igualmente previsível que, apenas algumas semanas antes de o negócio ser finalizado, a Boeing, fabricante dos caças F-15 que foram a peça central do negócio massivo de armas, doasse US $ 900.000 à Fundação. 

Claro que, de acordo com Bubba e Hil, é tudo teoria da conspiração, para sugerir que a Fundação Clinton é essencialmente um esquema de pay-for-play 2, em que grandes somas de dinheiro se traduzem no acesso aos escalões superiores do poder do Estado, nos EUA. Como o International Business Times observou: 
O negócio saudita foi uma das dezenas de vendas de armas aprovadas pelo Departamento de Estado de Hillary Clinton, que colocaram armas nas mãos de governos que também tinham doado dinheiro ao império filantrópico da família Clinton ... Sob a liderança de Clinton, o Departamento de Estado aprovou US $ 165 mil milhões de vendas de armas comerciais a 20 países cujos governos tinham dado dinheiro para a Fundação Clinton ... Essa cifra – derivada dos três anos fiscais completos do mandato de Clinton como Secretária de Estado (de outubro de 2010 a setembro de 2012) – representou quase o dobro do valor da venda de armas americanas àqueles países aprovada pelo Departamento de Estado durante o mesmo período do segundo mandato do presidente George W. Bush. 
O Departamento de Estado de Clinton também autorizou US $ 151 mil milhões em acordos separados e mediados pelo Pentágono a 16 dos países que fizeram doações à Fundação Clinton, resultando num aumento de 143% nas vendas concluídas a essas nações, relativamente a idêntico período de tempo da administração Bush. Estas vendas extra faziam parte de um amplo aumento das exportações militares americanas, que acompanharam a chegada de Obama à Casa Branca. O aumento de 143% na venda de armas dos EUA a doadores da Fundação Clinton compara com um aumento de 80% em tais vendas para todos os países, ao longo do mesmo período de tempo.
 Além disso, como Glenn Greenwald explicou no início deste ano, 
O regime saudita, só por si, doou entre US $ 10 milhões e US $ 25 milhões à Fundação Clinton, com doações a chegar tão tarde quanto 2014, enquanto ela preparava a sua corrida presidencial. Um grupo chamado "Amigos da Arábia Saudita", cofundado "por um príncipe saudita", deu uma quantia adicional entre US $ 1 milhão e $ 5 milhões. A Fundação Clinton diz que, entre US $ 1 milhão e $ 5 milhões foram também doados pelo "Estado do Qatar", os Emirados Árabes Unidos e o governo de Brunei. "O Estado do Kuwait" doou entre US $ 5 milhões e US $ 10 milhões.
O montante total em dólares é surpreendente. Mas talvez isto não seja uma surpresa, precisamente porque quase todas as figuras influentes do complexo militar-industrial-financeiro e de espionagem – desde o general John Allen ao coordenador extraordinário do esquadrão da morte, John Negroponte; desde os parasitas neoconservadores como Max Boot, Robert Kagan e Eliot Cohen aos barbarocratas bilionários como os Koch Brothers, George Soros e Warren Buffett – estão a apoiar Hillary Clinton. Ela não só é boa para o Império, também o é para os negócios. E, finalmente, o que é tudo isto? 

Mas, claro, a devoção de Hillary pelos oligarcas do petróleo da Arábia Saudita e do Golfo é muito mais profunda do que, simplesmente, uma troca de dinheiro por armas. De facto, Hillary está profundamente comprometida com a política externa, perspectivas e táticas da família real saudita, em especial com o armamento do terrorismo como um meio de alcançar objetivos estratégicos. 

A Líbia talvez represente o modelo da estratégia clintoniana-saudita: mudança do regime através do terrorismo. Usando grupos terroristas ligados à Al Qaeda e apoiados pela Arábia Saudita, o Departamento de Estado de Clinton e a Administração Obama conseguiram derrubar o governo de Muammar Kaddafi, atirando assim a antiga “joia da África” para a agitação e devastação política, econômica e social. Para ser justo, não foram só os sauditas que se envolveram e fomentaram a guerra na Líbia, pois os irmãos de Hillary de outras mães, no Qatar e nos Emirados Árabes Unidos também estiveram diretamente envolvidos no lançamento das sementes do atual caos no país.

E, claro, esta parceria estratégica entre Clinton e os gangsters do Golfo estende-se muito para além Líbia. Na Síria, as políticas de Estado de mudança de regime e de guerra de Clinton estão alinhadas com as de Riade, Doha e Abu Dhabi. Também foi durante o mandato de Clinton no Departamento de Estado que os serviços secretos dos EUA estiveram envolvidos no envio de armas e combatentes para a Síria, na esperança de aí fazerem o que já tinham feito na Líbia. 

Huma Abedin: a mulher de Clinton em Riade 

No caso de todos os laços políticos e financeiros entre Clinton e as monarquias do Golfo não serem suficientes para fazer com que as pessoas deixem de estar Com Ela, talvez o papel do seu assessor mais próximo possa fazer o truque. Huma Abedin, chefe da equipa de campanha de Clinton, tem laços de longa data com a Arábia Saudita, o país onde Huma passou a infância, a partir dos dois anos de idade. Como uma reportagem da Vanity Fair revelou no início deste ano: 
Quando Abedin tinha dois anos, a família mudou-se para Jidda, na Arábia Saudita, onde, com o apoio de Abdullah Omar Nasseef, então o presidente da Universidade Rei Abdulaziz, o seu pai fundou o Instituto para os Assuntos das Minorias Muçulmanas, um think tank [grupo de reflexão; laboratório de ideias – NT], e se tornou o primeiro editor do seu Jornal de Assuntos das Minorias Muçulmanas... Depois [o pai de Abedin] Syed morreu, em 1993, e a sua mulher sucedeu-lhe como diretora do instituto e editora do Jornal, posições que ainda mantém ... Abdullah Omar Nasseef, o homem que estabeleceu os Abedins em Jidda ... é um quadro de alto escalão no governo saudita e senta-se no Conselho Shura do rei; há quem alegue que Nasseef já teve ligações com Osama bin Laden e a al-Qaeda – acusação que ele negou, através de um porta-voz – e que continua a ser uma "grande" figura na Irmandade Muçulmana. Nos seus primeiros anos como o patrono do jornal dos Abedins, Nasseef era o secretário-geral da Liga Muçulmana Mundial, que Andrew McCarthy, o ex-assistente do procurador dos EUA que processou o "Blind Sheik", Omar Abdel Rahman, na sequência do atentado de 1993 ao World Trade Center, afirmou que "tem sido, há muito tempo, o principal veículo da Irmandade Muçulmana para a propagação internacional da ideologia da supremacia islâmica". 
Consideremos as implicações desta informação: o assessor mais próximo de Clinton vem de uma família ligada, ao mais alto nível, à família real saudita, assim como à Irmandade Muçulmana. Enquanto especialistas de direita retratam a Irmandade Muçulmana como uma espécie de linear organização internacional de terror, a realidade é muito mais complexa, pois a Irmandade é mais um movimento político internacional cujos tentáculos se estendem a quase todos os cantos do mundo muçulmano. As suas vastas reservas de dinheiro e influência política, apoiada por monarquias do Golfo, como o Qatar, permite à Irmandade espalhar influência em todo o Ocidente e, ao mesmo tempo, estar ligada aos mais radicais elementos salafistas. Um óbvio dois em para Clinton. 

Com efeito, Abedin representa uma ponte que liga Hillary com as duas elites dominantes em Riyadh, bem como com clérigos influentes, homens de negócios e líderes políticos de todo o Médio Oriente. Talvez, então, se perceba por que razão Abedin, em contravenção com todos os padrões de ética, foi contratada pela Teneo Holdings – uma consultoria pró-Clinton fundada pelo seu ex-assistente, Doug Band –enquanto também trabalhava para o Departamento de Estado. Tais violações éticas são tão instintivas para Hillary como respirar, ou telefonar para crianças superpredadoras.

Trump, Assange, Putin e o golpe de magia de Clinton 

Apesar de ter estado envolvida em múltiplos escândalos – qualquer um deles suficiente para afundar a campanha de muitos outros candidatos –, Clinton e o seu exército de bajuladores corporativos e dos média sicofantas tentaram desviar a atenção dos seus próprios delitos, corrupção e ligações nefastas, retratando todos os que se lhe opõem como marionetas, fantoches e idiotas úteis. 

Comecemos pelo candidato republicano e tagarela de luxo, Donald Trump, que trolls 3 de Clinton tentaram retratar como um fantoche do presidente russo Putin. Embora seja de facto muito provável que o Kremlin veja Trump como muito menos ameaçador dos interesses da Rússia do que Clinton – basta olhar para a lista de apoiantes neoconservadores psicopatas de Clinton para ver que Putin tem um fundamento – a noção de que Trump é de alguma forma uma criação de Putin, ou, pelo menos, está a trabalhar para ele, é completamente absurda. 

E a “evidência”? – conexões de Trump com opulentos oligarcas russos. Suponho que aqueles que fizeram as suas casas sob rochas, nestes últimos 25 anos, não devem saber isto, mas quase todas os investidores bilionários foram para a Rússia nessa altura, forjaram laços com russos influentes e tentaram ganhar dinheiro limpando a carne dos ossos do que foi a União Soviética. Desculpe Naomi Klein 4, eu acho que os clintonistas esperam que ninguém tenha lido Shock Doctrine [Doutrina de Choque – NT], que detalha o tipo de desastre do capitalismo a correr em fúria, que teve lugar na Rússia, na década de 1990. 

E depois, claro, há o grande confabulador Julian Assange, que também foi difamado como fantoche de Putin pelos sonâmbulos média Eu-Com-Ela. Acho que os lordes do capital não gostaram do facto de Assange e WikiLeaks terem conseguido expor inúmeras ações sujas da Tammany Hall do século XXI 5 de Clinton. Desde usar a DNC 6 como um apêndice político da campanha de Clinton (como foi revelado pela informação WikiLeaks de mails da DNC) à sua recente promessa de tornar pública a “mais interessante e séria” sujeira sobre Hillary, Assange tornou-se uma pedra no sapato – ou argueiro no olho, por assim dizer - para Hillary. 

E o que seria um resumo dos espectros que assombram os sonhos de Clinton sem menção do urso raivoso da Rússia, o grande e mau Vlad ? Clinton referiu-se recentemente a Putin como o “grande padrinho desta onda global de nacionalismo extremo”. Deixando de lado a asinina fraseologia, os ataques de Clinton a Putin revelam a fraqueza do candidato democrata, o vazio dos seus argumentos e o total descaramento de uma hipócrita, para quem atirar pedras a casas de vidro é uma segunda natureza.

Pois, no exato momento em que aplica golpes retóricos a Putin, a própria Clinton está envolvida numa rede mundial de extremismo que promove o terrorismo, espalha morte e destruição sobre milhões de civis inocentes e aproxima o mundo do conflito global. Se Putin representa a eminência parda de uma “onda global de nacionalismo extremo”, então Clinton é a fada madrinha do extremismo e terror globais. É uma boa coisa ela ter acesso aos melhores produtos de aparência pessoal que o dinheiro de Goldman Sachs pode comprar, pois não é fácil lavar décadas de sangue das suas mãos. 

E, assim, a quadrienal dança macabra que é a eleição presidencial nos EUA transformou-se num constrangedor espetáculo de circo, de um infantilismo obtuso. Mas, no meio da idiotice, há criminalidade desumana e corrupção que têm de ser expostas perante o mundo. Por algum tempo, Trump é sem dúvida a mulher barbuda de freak show [espetáculo grotesco – NT] da América e Hillary é a pregoeira do carnaval. 

Ela sabe que que o jogo do ringue e outros jogos são manipuladas, todavia, persuade o débil mental a jogá-los. Ela sabe que os animadores estão bêbados e temerários, mas, de qualquer modo, encoraja as crianças a pagar outra viagem. Ela percebe que o seu trabalho é vender um jogo manipulado e chamar a segurança quando alguém desafia as suas mentiras. E, infelizmente, quer queira quer não, a campanha itinerante de Hillary está a chegar a uma cidade, ou a um país, perto de si. 


* Eric Draitser é o fundador da StopImperialism.org e apresentador da Rádio CounterPunch. É um analista geopolítico independente, com sede em New York City. Pode consultá-lo em ericdraitser@gmail.com




1 Leona Helmsley Mindy Roberts (04 de julho de 1920 - 20 de agosto de 2007) foi uma negociante americana, conhecida pela sua personalidade extravagante. Tinha uma reputação de comportamento tirânico que lhe valeu a alcunha de Rainha da Maldade – https://en.wikipedia.org/wiki/Leona_Helmsley. – [NT] 

2 “Pagar para jogar”, em tradução literal. – [NT]

3 Criatura mitológica nórdica; aqui, poderá traduzir-se por “provocadores”. – [NT] 

4 Naomi Klein é uma jornalista e escritora canadense. [NT] 

5 A Tammany Hall foi uma sociedade política formada por membros do Partido Democrata, que dominou o governo municipal da cidade de Nova Iorque entre 1854 e 1934; foi fundada em 1786 e deixou de existir na década de 1960. – [NT] 

6 Acrônimo, em inglês, de Convenção Nacional Democrática. – [NT]








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