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quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Primeiro-Mundismo e Reformismo

Primeiro-Mundismo e Reformismo
Por João Vilela


"Os trinta anos que se seguiram à II Guerra Mundial representaram, de muito longe, o maior período de prosperidade material que o Ocidente algum dia assegurou às classes dominadas da sociedade.

Houve uma contrapartida, primeiro implícita e depois explicitada e consagrada em textos e programas políticos, para estas concessões: o abandono de qualquer pretensão revolucionária pelo movimento popular. Não foi fácil impor este caminho, mas ele acabou por chegar à hegemonia ao fim de algumas décadas de esforço. O apoio prestimoso de dirigentes kruschevistas na URSS e a progressiva capitulação dos principais partidos da Europa Ocidental às teses do chamado eurocomunismo. "

"É pois contra o peso-monstro de mais de 70 anos de legalismo, de pacto social, de conformidade com os preceitos legais no desenvolvimento da luta, contra o uso da luta de massas como forma de pressão e não como instrumento para arrancar conquistas ao inimigo - é contra o reformismo que, por toda a Europa, importa fazer a guerra. Não apenas porque o reformismo é a negação, irracional, de uma verdade evidente - a de que nenhuma classe dominante aceita por bons argumentos ceder direitos às classes dominadas, e muito menos ceder o seu lugar e terminar com a exploração. "

O mundo saído da II Guerra Mundial era um mundo irreconhecivelmente diferente do que existira antes dela. O campo socialista estendia-se de Berlim a Pequim, os partidos comunistas tinham incomensurável peso social pela sua determinante participação na resistência antifascista, a causa do socialismo recolhia a simpatia e a militância de milhões de seres humanos em todo o mundo. Só por tolice a burguesia teria a veleidade de querer manter os trabalhadores nas condições de dominação e exploração dos anos 30: importantes concessões teriam de ser feitas, e foram-no. Os trinta anos que se seguiram à II Guerra Mundial representaram, de muito longe, o maior período de prosperidade material que o Ocidente algum dia assegurou às classes dominadas da sociedade.

Houve uma contrapartida, primeiro implícita e depois explicitada e consagrada em textos e programas políticos, para estas concessões: o abandono de qualquer pretensão revolucionária pelo movimento popular. Não foi fácil impor este caminho, mas ele acabou por chegar à hegemonia ao fim de algumas décadas de esforço. O apoio prestimoso de dirigentes kruschevistas na URSS e a progressiva capitulação dos principais partidos da Europa Ocidental às teses do chamado eurocomunismo. 

Assim se gerou um caldo de cultura que levou sucessivas gerações de activistas políticos, sindicais, dos movimentos sociais da mais variada ordem por toda a Europa, a considerarem que havia sempre uma saída para as suas aspirações dentro da legalidade burguesa. Por sinal, aliás, a própria noção de «legalidade burguesa», de «democracia burguesa», de que existiria um conteúdo de classe do regime político vigente e não apenas uma «legalidade democrática» suprassocial e neutra, passou a fazer parte do pensamento hegemônico. Ainda hoje, quando ouvimos os políticos e activistas reformistas a falar, é notório que estão convencidos disto.

Há um problema subsidiário deste: o reformismo é, à falta de melhor palavra, um primeiro-mundismo. Não se quer negar com isto que fora dos países ocidentais não medraram tentações e até experiências reformistas, mas as veleidades progressistas, mesmo as mais incipientes, foram, até aos dias de hoje, recebidas com a hostilidade mais absoluta, com sabotagem, patrocínio de golpes de Estado, invasões militares, bloqueios econômicos, sanções da mais variada ordem, etc. Todas foram derrotadas até hoje, ou estão sob fortíssima pressão para virem a sê-lo, e nenhuma delas levou a condição de vida dos trabalhadores para o que quer que se assemelhe ao padrão de vida europeu ou norte-americano. Também por isso, nos países ocidentais, instituiu-se como em mais nenhum lado a crença generalizada - e de resto, sibilinamente, racista - de que tais pressões e ingerências jamais aconteceriam, de que o nível de vida nunca desceria de determinado patamar, de que se tinha dado um salto qualitativo e atingido uma soma de conquistas irreversíveis em matéria de democraticidade dos regimes políticos e protecção quer social quer econômica das classes exploradas desses mesmos países. Quando, ante a crise que se arrasta sem fim à vista desde 2008, a burguesia toma decididamente a ofensiva para esmagar os seus direitos sociais como uma bota cardada esmigalha um castelo de cartas, perante os gritos entre o histérico e o impotente de apelo ao respeito pela legalidade, o direito, a decência, a justiça, ou outro expediente moral qualquer, conseguimos ouvir as gargalhadas que vêm das chancelarias. E percebemos como este reformismo primeiro-mundista está absolutamente desarmado e impreparado para a ofensiva que por aí vem, e da qual ele ainda não viu nada.

É pois contra o peso-monstro de mais de 70 anos de legalismo, de pacto social, de conformidade com os preceitos legais no desenvolvimento da luta, contra o uso da luta de massas como forma de pressão e não como instrumento para arrancar conquistas ao inimigo - é contra o reformismo que, por toda a Europa, importa fazer a guerra. Não apenas porque o reformismo é a negação, irracional, de uma verdade evidente - a de que nenhuma classe dominante aceita por bons argumentos ceder direitos às classes dominadas, e muito menos ceder o seu lugar e terminar com a exploração. 

A luta contra o reformismo é, já hoje, a luta contra uma concepção do mundo em que se considera que as sociedades ocidentais têm uma qualquer forma de «excepcionalidade» que as torna imunes a determinados graus de degradação das condições de vida de quem trabalha, como se a burguesia fosse ter mais piedade de um trabalhador alemão ou holandês do que de um marroquino ou senegalês. É na crença em que a primeira coisa pode acontecer que repousa a rejeição de qualquer discussão que não desemboque numa qualquer forma de legalismo, na redução de tudo a bons argumentos, a boas estratégias de comunicação, a uma qualquer maneira de, sem pisar o risco da legalidade, convencer o outro lado, ou no máximo exercer sobre ele a devida pressão moral, a ser bondoso e a conceder. Isso nunca funcionou em lugar nenhum e também não vai resultar aqui, muito menos quando a correlação de forças à escala planetária é de tal maneira desfavorável às forças progressistas. O esforço de demonstrar esta situação e munir as massas contra as ilusões reformistas é a nossa tarefa fundamental.






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