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quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

evolução do preço do petróleo - A perversa irracionalidade das potências que dominam o mundo

Algumas notas em torno da evolução do preço do petróleo
A perversa irracionalidade das potências que dominam o mundo
por Fernando Sequeira

"Presentemente, as petrolíferas atrasam investimentos nos actuais e em novos campos. Enquanto retardam o encerramento de campos em fim de vida, reduzem drasticamente encargos com exploração e operação, ao mesmo tempo procedendo a fusões e a aquisições de operadoras em falência. Mas com isto, comprometem a boa produção futura. Essa perversa irracionalidade poderá ser explicada por intencional objectivo de aniquilar econômica e politicamente países com elevadas produções e reservas, considerados como «inimigos», ainda que com elevados custos e riscos para os demais, e turbulência e incerteza mundial. "

"O capitalismo é incapaz de resolver qualquer dos grandes problemas da Humanidade. O energético também.

A gestão do patrimônio geológico que é o petróleo deveria ser sabiamente utilizada, no sentido de possibilitar um desenvolvimento verdadeiramente sustentável, mas esse patrimônio está, ao contrário, a ser delapidado na voragem dos interesses das transnacionais e grandes potências que dominam o Mundo."

As profundas variações do preço do petróleo bruto, e, em sequência, do preço dos refinados têm gerado dúvidas, perplexidades e incompreensões. A situação, que continua a desenvolver-se, para além de perigosa, começa até a gerar profundas contradições.

O desenvolvimento e crescimento do último século está indissociavelmente associado ao petróleo.

Entre outros importantes aspectos, o petróleo revolucionou completamente o sistema de transportes (cerca de 70% do consumo final de todas as utilizações do petróleo energético), particularmente pela introdução e crescimento exponencial do automóvel.

Sendo imensas e cada vez mais diversificadas as matérias-primas que têm suportado o crescimento e o desenvolvimento, o petróleo ocupa contudo entre elas um papel único e insubstituível.

O petróleo encerra um elevado e diversificado potencial de utilizações. Como combustível, seja para diversos tipos de transportes – rodoviário, fluvial e marítimo e aéreo – seja na indústria e nos edifícios, mas também como matéria-prima, das indústrias petroquímicas, base de um vastíssimo conjunto de bens intermédios e de consumo final. Este é um importante aspecto face à necessidade de racionalidade na utilização do petróleo.

Mesmo num país pequeno como Portugal, o peso do petróleo na economia e na sociedade é significativo.

De 2012 a 2014, as importações, correspondem sempre a valores superiores a 11 milhões de toneladas.

As importações em valor de ramas e refinados atingiram, respectivamente, em 2012, 2013 e 2014, os 9,2, 9,4 e 8,3 mil milhões de euros. 

Petróleo, recurso não renovável 

O petróleo, tal como os outros combustíveis fósseis – gás natural e carvão – é uma matéria-prima não renovável, isto é, após a sua exploração, a natureza, pelo menos no tempo histórico, não tem condições de a repor. E a Humanidade, nos últimos cem anos, já utilizou cerca de metade ou mesmo mais das reservas provadas e prováveis de petróleo convencional.

Tal utilização não decorreu de forma proporcional ao longo dos decénios, mas, bem ao contrário, teve uma aceleração impetuosa e persistente a partir dos anos 50 do século passado.

Por outro lado, a utilização do petróleo também foi profundamente assimétrica e injusta ao nível das geografias. O chamado mundo Ocidental, com menos de 20 por cento da população mundial, foi e é responsável por mais de 80 por cento do consumo de petróleo, com um especial destaque para os EUA (ainda hoje com 22% do consumo mundial).

Ao contrário das preocupações ambientalistas ligada ao uso dos combustíveis fósseis, a questão do esgotamento do petróleo e das profundamente constrangedoras consequências daí resultantes para as sociedades, é uma questão que não é geralmente colocada.

Para o capitalismo na sua actual fase, na suas relações com os recursos e o ambiente, o que conta é o dia de hoje, talvez eventualmente o de amanhã, no quadro da maximização permanente do lucro.

Se daqui a duas ou três gerações já não existir petróleo bastante, é questão que pouco importa. 

Acerca do preço do petróleo 

O preço do petróleo, constituindo uma importante questão conjuntural, é sobretudo uma crucial questão estrutural e estratégica.

Isto porque estamos perante uma questão profundamente contraditória, que é a de o facto de os preços do petróleo hoje poderem conflituar com a disponibilidade de petróleo amanhã, ou seja, quanto mais baixos forem os preços hoje, tanto menos petróleo teremos amanhã.

O preço do petróleo bruto, definido nos mercados internacionais, decorre, em princípio, da relação entre a oferta e a procura.

Aparentemente trata-se de um processo simples. Mas só na aparência, pois que, quer do lado da oferta, quer do lado da procura, factores alheios ao mercado físico do petróleo podem alterar profundamente este equilíbrio, forçando artificialmente as subidas ou as descidas dos preços.

Todavia, tudo isto deve ser entendido numa perspectiva de curto prazo, pois que no longo, ou muito longo prazo, existe uma variável determinante, a saber, o nível das reservas provadas e as expectativas plausíveis de novas descobertas, a par das condições geológicas de exploração. Umas e outras, fizeram, fazem e farão subir inexorável e tendencialmente o custo de descoberta e extração, dado o processo de esgotamento em curso.

Assim, relativamente à oferta e independentemente do nível das reservas, razões externas ao mercado, de tipo muito diferenciado, mas sempre com uma elevada componente não só económica como também financeira, política e geopolítica, podem alterar abruptamente o nível médio dos preços.

Três exemplos, a saber: o primeiro, o da crise de 1973, em que alguns países da OPEP 1, particularmente os árabes, na sequência do apoio de alguns países ocidentais a Israel, durante a guerra do Yom Kippur, reduziram dramaticamente a produção criando até escassez; o segundo, mais recente, entre 2007 e 2013, devido, no fundamental, à ganância do grande capital multinacional ligado ao sector e à exacerbada especulação por capital financeiro nas bolsas, em que ocrude subiu brusca e dramaticamente até quase aos 150 USD/barril em torno de Janeiro-Fevereiro de 2008, mantendo-se num período de quase três anos (2011-2013) entre os 100 e os 120 USD/barril; o terceiro, a partir de meados de 2014 e aparentemente por decisão da OPEP, devido à manutenção de sobreprodução, mesmo com aprovisionamento pleno, no quadro de um arrefecimento geral da economia, os preços têm vindo a descer de forma persistente e profunda.

Relativamente à procura, ela está a evoluir, seja pelo menor consumo devido à estagnação económica, seja à implementação de mudanças estruturais nalgumas zonas, como é o caso da UE, designadamente ao aumento da eficiência energética, seja pelo maior consumo em outras vastas partes do mundo (China por exemplo), onde a capitação de energia está muito aquém dos principais países capitalistas. 

Os custos de exploração 

No processo de exploração das reservas de petróleo existentes nas várias províncias petrolíferas, naturalmente que se começou por explorar aquelas ocorrências de mais fácil exploração, ajustadas aos conhecimentos e tecnologias conhecidos à época (primeiro quartel do século XX), e que também correspondiam, regra geral, a petróleos de melhor qualidade. Eram e são os chamados petróleos convencionais, também obviamente de exploração barata. Os chamados petróleos não convencionais ocorrem em condições geológicas muito menos acessíveis e mais complexas, e historicamente cada vez mais difíceis e dispendiosos de extrair – jazigos off-shore, em águas cada vez mais profundas, petróleo ainda ocluído em rochas-mãe compactas, betumes impregnados em arenitos, também os condensados associados à exploração de gás natural, etc. Nas últimas décadas têm sido explorados para ir compensando a quebra da produção de petróleo convencional.

Portanto, no quadro actual do processo de exploração, que segundo muitos especialistas já atingiu o seu pico, estando na fase descendente, os petróleos convencionais estão em muitos locais ou esgotados ou em franco declínio, explorando-se cada vez mais petróleos não convencionais, o que exige soluções técnicas cada vez mais complexas e dispendiosas.

Por exemplo, os custos operacionais de extração (sem encargos financeiros e dividendos), são de cerca de 40 USD/barril na Arábia Saudita, no Kuwait e nos EUA, em torno dos 50/55 USD/barril na Rússia, de mais de 70 USD/barril no Brasil e de mais de 70 USD/barril nos EUA.

O tipo de ocorrências, associado às condições geológicas, condiciona a política de preços, as margens e a viabilidade da sua exploração, e explica, em grande parte, sobretudo a capacidade que alguns produtores possuem de forçarem descidas dos preços. 

Traços da actual crise 

Aparentemente, os países da OPEP1 reunidos em Viena em Novembro de 2014 acordaram manter os seus níveis de produção, com vista à manutenção das suas quotas de mercado.

Esta foi uma decisão exactamente de sentido contrário à de 1973.

Por detrás desta decisão, formalmente colectiva, mas que tudo indica liderada e pressionada pelo maior produtor, a Arábia Saudita, em aliança com os EUA, não esteve a simples manutenção das respectivas quotas de mercado, mas porventura a tentativa de atingir algumas das principais economias emergentes, e também outros grandes produtores de petróleo.

A manutenção dos níveis de produção (sobretudo nos países com menores custos de produção), em simultaneidade com a queda da procura, conduziu a um abaixamento dos preços (abaixo de 60 dólares/barril a partir de Fevereiro de 2015, tendo atingido os 36,5 em Dezembro), com efeitos devastadores para um importante conjunto de países.

Entre os membros da OPEP, entre 2014 e 2015, ocorreram brutais quedas nos PIB de alguns países grandes produtores, designadamente a Venezuela com 36,5 por cento, o Kuwait com 28 por cento, o Iraque com 26,5 por cento, Angola com 21 por cento, os EAU com 20 por cento, a Nigéria com 19 por cento, a Argélia com 18 por cento e a própria Arábia Saudita com 15 por cento.

Os efeitos sobre os respectivos défices orçamentais foram violentos. Os casos mais graves são novamente o da Venezuela, com um agravamento do défice orçamental de 2014 para 2015 de 15 por cento para 25 por cento do PIB, o Iraque de seis por cento para 23 por cento, a Arábia Saudita de seis por cento para 22 por cento e a Argélia já com um défice de 14 por cento em 2015.

Os restantes países da OPEP, excepto o Qatar e o Kwait, apresentavam défices orçamentais próximo dos cinco por cento, quando antes os não tinham.

De outros muito grandes e grandes produtores exteriores à OPEP, como a Federação Russa, o Brasil ou o Azerbeijão (neste 95 % das exportações são petróleo), a situação, tanto quanto se conhece é também difícil, embora em graus diferenciados.

A situação, que continua a desenvolver-se, para além de perigosa, começa até a gerar profundas contradições. Mesmo os países da OPEP que aparecem como responsáveis da acção, como a Arábia Saudita, o Kuwait e os EAU (Emiratos), estão também a ser atingidos pela onda de choque.

Para o principal aliado e porventura eventual promotor da acção, os EUA, se afastarmos o mito da sua auto-suficiência energética (os EUA ainda importam 45 % das suas necessidades em petróleo), a descida dos preços, face aos elevados custos de exploração do shale oil e do tighs oil, está a conduzir a grande maioria das empresas de exploração à insolvência. As que sobrevivem é graças aoendividamento e enormes ajudas financeiras.

Para 2016, estão previstos preços médios de 35 USD/barril, contra 73 USD/barril em 2015, o que significa uma queda de cerca de 52 por cento, com os valores mais baixos para o Kuwait (25 USD/barril) e a Arábia Saudita (29 USD/barril), exactamente dos países que têm as mais favoráveis condições de exploração. Aqui estão pois, a liderar a caminhada para o abismo, os dois principais actores, ou senão, pelo menos dois dos principais factota dos EUA.

Restam as consequências do levantamento de sanções ao Irão. Trata-se de um importante actor petrolífero (cerca de 9,5 % das reservas mundiais de petróleo). Contudo, após um longo período de quase paragem e da obsolescência dos sistemas de exploração a sua entrada no mercado deverá ser lenta.

Presentemente, as petrolíferas atrasam investimentos nos actuais e em novos campos. Enquanto retardam o encerramento de campos em fim de vida, reduzem drasticamente encargos com exploração e operação, ao mesmo tempo procedendo a fusões e a aquisições de operadoras em falência. Mas com isto, comprometem a boa produção futura. Essa perversa irracionalidade poderá ser explicada por intencional objectivo de aniquilar económica e politicamente países com elevadas produções e reservas, considerados como «inimigos», ainda que com elevados custos e riscos para os demais, e turbulência e incerteza mundial. 

À guisa de conclusão 

O capitalismo é incapaz de resolver qualquer dos grandes problemas da Humanidade. O energético também.

A gestão do patrimônio geológico que é o petróleo deveria ser sabiamente utilizada, no sentido de possibilitar um desenvolvimento verdadeiramente sustentável, mas esse patrimônio está, ao contrário, a ser delapidado na voragem dos interesses das transnacionais e grandes potências que dominam o Mundo.

De facto, outro rumo é urgentemente necessário.



1 Países constituintes da OPEP: Argélia, Angola, EAU, Equador, Irão, Iraque, Kwait, Nigéria, Qatar e Venezuela.



Fonte: Avante


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