A ofensiva colonial da Otan na Líbia

A ofensiva colonial da Otan na Líbia
Por J. Quartim Moraes

Menosprezar a inteligência alheia tem limites. Mesmo a opinião pública europeia, largamente intoxicada pelo ódio ao imigrante árabe ou negro, já não leva muito a sério o pretexto humanitário invocado pela Otan para justificar a ofensiva colonial contra a Líbia, que já dura três meses e meio.

A própria imprensa colonialista adotou um tom mais descritivo. Assim, o Figaro, o mais importante jornal da direita francesa, informou secamente em 23 de maio que na tarde do dia 17 o navio de guerra Tonnerre deixara o porto de Toulon rumo ao teatro de operações na Líbia. A bordo, doze helicópteros de combate com uma delicada missão militar. Os chefes da Otan tinham constatado que os bombardeios não estavam bastando para derrubar o governo líbio. Intensificá-los em demasia, apó s o morticínio que fizeram no bairro onde mora Khadafi, por ocasião da frustrada tentativa de assassiná-lo por via aérea em sua casa, implicaria num custo “humanitário” ainda mais pesado. Era preciso chegar mais perto dos objetivos, ocupar terreno. Mas mercenários evitam riscos. O ofício deles é matar, não ser mortos. Os helicópteros de Sarkozy destinam-se a ajuda-los a golpear mais de perto as forças patrióticas, sem entrar num perigoso corpo a corpo.




Os que se lembram do massacre balístico da Sérvia pela Otan sabem que, com apoio de uma quinta coluna operante, é possível quebrar a resistência de um povo pelo terrorismo aéreo. Mas na Líbia, o êxito está tardando. A quinta coluna, aliás os “rebeldes” não progrediram muito a despeito da escalada de bombardeios, que afundaram oito navios líbios em 19 de maio, nos portos de Trípoli, Syrta e Homs e, em 24 de maio, mataram 19 líbios e deixaram pelo menos 130 feridos num ataque noturno a Trípoli.

Só os cínicos e os tolos continuam a associar-se à campanha imperialista de diabolização de Khadafi. “-Ele massacrou trinta mil líbios”, bradou um estulto de “extrema-esquerda” num debate sobre a Líbia ao qual compareci. Perguntei-lhe de onde tinha tirado esse número. Não respondeu porque sua estultice não ia a ponto de cobrir-se de ridículo admitindo que ouvira isso na Rede Globo ou “fonte” similar. Mas enquanto os “baba-ovo” papagaiavam o que liam e ouviam na mediática do capital, os três safados da cúpula da Otan (Camarão, Sarkozy e Berlusconi, este aliás menos aguerrido que os dois parceiros), empenhados na tentativa de recuperar, sob novos rótulos jurídicos, seus velhos impérios coloniais, continuavam intensificando os bombardeios ditos humanitários: em junho Trípoli foi de novo pesada, rei terada e mortiferamente atacada.

A mediática do capital é uma máquina versátil. Esgotado o pretexto humanitário, ela concentrou-se na diabolização de Khadafi, que seguramente tem muitos defeitos, mas por não ser covarde, como são os calhordas de terno e gravata que mandam bombardear seu país, resistiu à agressão colonial. Porém, mesmo valente, se ele fosse um tirano detestado por todos, como repetem “ad nauseam” os estafetas da Otan e os “extremesquerdelhos” pró-imperialistas d’aquém e d’além mar, não haveria valentia que bastasse. A explicação de três meses de resistência há de ser outra. O centro Globalresearch do Canadá, que não se fantasia de revolucionário, mas tem suas próprias fontes de informação, observou que a Líbia desfruta do maior IDH da África, que os sistemas públicos de saúde e de ensino são gratuitos e de qualidade, que os estudantes com bom desempenho recebem bolsas para aprimorar sua formação no exterior. Notou ainda que o governo oferece à população crédito bancário sem juros e assumiu a construção do maior sistema de irrigação do mundo, inaugurado em 2007.


Sendo ridiculamente indecentes os pretextos humanitários dos pistoleiros da Otan, não há como não concluir que estamos diante de mais uma operação de reconquista, pelo chamado Ocidente, de sua antiga periferia colonial. A Líbia oferece, em especial, dois grandes atrativos para os tubarões do Norte. O Banco Central Líbio mantém estocadas em seus cofres quase cento e cinquenta toneladas de ouro e as jazidas petrolíferas do país, de alta qualidade, estão estimadas em pelo menos 45 bilhões de barris.


Amparando esses estupendos estímulos materiais, os estafetas togados que compõem o Tribunal de Haya, habituados a abanar a cauda para os chefes da Otan, expediram mandado de prisão contra Khadafi. Mas todos os que não se deixaram contaminar pelo “pensamento único” pró-imperialista sabem que o maior crime cometido pelo comandante líbio consistiu em defender as riquezas naturais da Líbia e em ameaçar, com suas reservas de ouro, a “coalixam” monetária do dólar e do euro.

JQuartimMoraes - escritor e professor universitário.

Texto por mail de 02/07/11


Comentários

  1. 12/08/2011: Protógenes Queiroz e outros deputados visitarão a Líbia

    Um grupo de políticos e ativistas sociais brasileiros embarca neste domingo (14) rumo à Líbia, atendendo a convite do dos Comitês Populares líbios.

    O convite faz parte de esforços do governo líbio para envolver o Brasil, membro rotativo do Conselho de Segurança da ONU, na pressão pelo fim dos ataques criminosos da Otan (aliança militar ocidental).

    Entre os convidados estão os deputados Brizola Neto (PDT-RJ), cujo avô, Leonel Brizola, conheceu Kadafi, e Protógenes Queiroz (PCdoB-SP), membro da Comissão de Constituição e Justiça.

    Também integram a comitiva o escritor Mario Augusto Jakobskind, o advogado Felipe Boni de Castro, e de Curitiba, a militante feminista Alzimara Bacellar, entre outros.

    “Queremos que a delegação brasileira veja com os próprios olhos as atrocidades cometidas pela Otan”, disse o embaixador da Líbia no Brasil, Salem Zubeidi.

    A programação, que deve durar uma semana, inclui visitas aos hospitais de Trípoli onde são tratados os sobreviventes dos ataques da Otan e encontros com autoridades e a população civil.

    Após a volta ao Brasil, os integrantes da comitiva pretendem redigir um relatório que será enviado à ONU, a exemplo de delegações de outros países que visitaram a Líbia recentemente e comprovaram diversos crimes contra a humanidade, entre os quais o bombardeio de escolas, hospitais, viadutos, conjuntos residenciais e indústrias.

    “Inocentes estão morrendo e boa parte da imprensa mundial distorce os fatos. Meu papel será relatar a verdade e buscar uma solução de paz”, disse Brizola Neto.

    Fonte: Jornal Água Verde

    http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=161274&id_secao=9

    - - - - -

    Para quem é incapaz de chorar, de derramar uma solitária lágrima, é só ler esta duas matérias e, fazer o teste:

    Guerra contra a Líbia: “Uma loucura perversa, mal intencionada” (1/2)

    http://redecastorphoto.blogspot.com/2011/07/guerra-contra-libia-uma-loucura.html

    Guerra contra a Líbia: “Uma loucura perversa, mal intencionada” (2/2)

    http://redecastorphoto.blogspot.com/2011/07/guerra-contra-libia-uma-loucura_31.html

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