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domingo, 25 de abril de 2010

Lénine - Teórico genial, gigante revolucionário


Teórico genial, gigante revolucionário

Lénine



Vladímir Ilitch Lénine destacou-se no seu tempo como um grande intelectual, filósofo, economista, político, publicista, orador, legando-nos uma extensa e valiosíssima obra com 55 volumosos tomos. Mas na memória dos povos ficará para sempre como o líder do proletariado mundial, o criador do partido bolchevique, o organizador da primeira revolução socialista vitoriosa e o fundador do primeiro Estado socialista – a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Na data em que se assinalam os 140 anos do seu nascimento, as ideias de Lénine, os seus ensinamentos, o seu exemplo prático, que influenciaram decisivamente o curso do século XX, continuam a inspirar as novas gerações de explorados que, em todo o mundo, buscam o caminho da libertação, o caminho para uma sociedade nova, socialista. Do mesmo modo que os grandes problemas do seu tempo se colocam hoje com a máxima acuidade, também o nome, o pensamento, a via de transformação revolucionária desbravada por Lénine permanecem no centro da intensa batalha ideológica, que opõe explorados a exploradores, e são alvos prioritários da campanha da burguesia que em vão procura apagar esta figura maior da história da humanidade, retaliando com ferocidade à mínima evocação do teórico genial e gigante revolucionário.


Vladímir Ilitch Uliánov (Lénine) nasceu em 22 de Abril de 1870, na pequena cidade de Simbirsk, situada no Sul da Rússia, designada Uliánovsk em 1924, em memória do líder falecido, nome que ainda hoje conserva (ver caixa).


Terceiro irmão de uma família com seis filhos, três rapazes e três raparigas, o seu pai, Iliá Niloláievitch Uliánov, era inspector das escolas profissionais da gubérnia (distrito) de Simbirsk, e sua mãe, Maria Aleksándrovna Blank, filha de um médico, dedicou-se inteiramente à educação das crianças.


Entrando para o liceu aos nove anos, Vladímir revela-se um aluno acima da média, dotado de uma memória robusta, um interesse invulgar pela leitura, uma enorme capacidade de trabalho, «uma enciclopédia andante», segundo a expressão registada por um dos seus colegas de turma.


Porém, a adolescência de Vladímir fica marcada por dois trágicos acontecimentos. Aos 15 anos, o seu pai falece. Um ano depois, em Março de 1887, o seu irmão mais velho Aleksandr é preso e executado pela preparação de um atentado contra o tsar Alexandre III.


Foi através do seu irmão que Vladímir teve o primeiro contacto com a literatura marxista, recebendo também dele um exemplo de luta revolucionária contra a autocracia, pela melhoria das condições de vida do povo, apesar de cedo se ter apercebido das concepções e métodos de luta erróneos do populismo, corrente ideológica que predominava no movimento revolucionário russo.


Tão duras perdas familiares não impediram o jovem Uliánov de terminar o liceu nesse mesmo ano com medalha de ouro e ingressar na Faculdade de Direito de Kazan, da qual se vê expulso logo em Dezembro pela participação numa revolta estudantil. Após quase um ano de deportação na aldeia de Kokuchkino sob vigilância policial, Lénine regressa a Kazan e adere a um dos primeiros círculos marxistas da Rússia.


Em 1889 muda-se com a família para Samara, onde traduz o Manifesto do Partido Comunista e consegue, em apenas ano e meio, estudar autonomamente todo o programa do seu curso. Presta provas como aluno externo em 1891 e obtém o diploma de 1.º Grau, correspondente ao título de mestre em Direito.


Exerce advocacia em Samara e torna-se conhecido como defensor dos camponeses pobres. Entretanto forma um círculo marxista que desenvolve actividade de propaganda, escreve o seu primeiro trabalho científico sobre o campesinato, demonstra a inconsistência das teorias populistas liberais, o seu utopismo e desconformidade com a realidade russa, que mais tarde desenvolve no seu livro Quem são os “Amigos do Povo” e Como Lutam contra os Sociais-Democratas (1894).


Em Agosto de 1893 instala-se em Petersburgo. Adere a um círculo de conhecidos marxistas, que não tardam a reconhecer a sua capacidade para adaptar a teoria às condições da Rússia. Torna-se em breve o líder dos marxistas da capital, estabelecendo ligações estreitas com operários avançados e dirigindo directamente círculos de trabalhadores. As suas aulas, panfletos e brochuras têm grande divulgação nos meios operários, que as apreciavam pela simplicidade e pelo rigor com que explicavam a exploração capitalista e apontavam as vias para a sua emancipação.


De regresso da sua primeira viagem à Europa, onde se encontra com Plekhánov e outros membros do grupo Emancipação do Trabalho, unifica todos os círculos operários marxistas de Petersburgo, no Outono de 1895, na União de Luta pela Emancipação da Classe Operária, o embrião do partido operário marxista revolucionário, que definiu como objectivo ligar-se ao movimento operário de massas e dirigi-lo.


Em Dezembro, juntamente com vários membros da União de Luta, Lénine é preso. Na cela onde permanece isolado durante 14 meses, continua a escrever conseguindo fazer passar documentos e orientações para o exterior. Seguem-se três anos de deportação na Sibéria Oriental, onde casa com Nadejda Konstantínovna Krúpskaia, em 1898, igualmente deportada como membro da União de Luta.


Em Março desse ano, várias «uniões de luta», criadas em toda a Rússia segundo o exemplo dos marxistas de Petersburgo, reúnem-se em Minsk naquele que ficou para a história como o I Congresso do Partido Operário Social-Democrata da Rússia (POSDR). Contudo, sem um programa, estatutos ou uma direcção única, a existência do partido era meramente formal. Mantinha-se a dispersão orgânica e a confusão ideológica foi agravada pelo surgimento da corrente oportunista que ficou conhecida como «economismo».


A luta protagonizada por Lénine, após a libertação em 1900, pela criação do verdadeiro partido de novo tipo passaria necessariamente pela derrota do «economismo» e exigiria a criação de um jornal, o Iskra, para travar esse combate e construir a unidade ideológica indispensável à criação de uma organização centralizada.


Do partido à revolução


É ainda no exílio, na aldeia de Chúchenskoi, na Sibéria Oriental, que Lénine concebe o plano de criação do novo jornal político, como «ponto de partida para a acção», essencial para clarificar os objectivos e as tarefas do partido e fazer a demarcação ideológica dos «economistas». «Antes da unificação e para a unificação é preciso primeiro uma demarcação decidida e definida», escreveu na «Declaração da Redacção do Iskra».


Um tal jornal, cuja rede de agentes e correspondentes constituiria o «esqueleto» da futura organização, deveria ser não só como «um propagandista colectivo e um agitador colectivo mas também um organizador colectivo», para preparar a coesão ideológica e orgânica do partido.


Nas páginas do Iskra e sobretudo no seu livro Que Fazer? (1902), Lénine atacou o «economismo», notando que limitar os objectivos da classe operária à luta económica contra os patrões e o governo significava condenar os operários à eterna escravidão. «A luta contra o governo por reivindicações parciais e a conquista de concessões isoladas são apenas pequenas escaramuças com o inimigo».


Opondo-se à «espontaneidade», que os «economistas» confundiam com o desenvolvimento objectivo do movimento, sublinhou a importância da consciência socialista, que só a acção organizada do partido operário podia formar nas massas: «Sem teoria revolucionária (…) não pode haver movimento revolucionário. (…) Só um partido guiado por uma teoria de vanguarda pode desempenhar o papel de combatente de vanguarda.»


Em Julho de 1903, o II Congresso do POSDR dá um passo decisivo para a fundação de facto do partido, aprovando o programa e os estatutos propostos por Lénine. A maioria aprova igualmente as suas propostas de constituição do Comité Central e da redacção do Iskra, mas nos intensos debates revelam-se claramente duas tendências: os leninistas, que por serem maioritários passam a ser chamados bolcheviques, e os oportunistas minoritários, mencheviques, liderados por Mártov, Trótski e Axelrod.


«Dois passos atrás»


A luta interna não tardou a agudizar-se. Com a ajuda de Plekhánov que passou a apoiar os mencheviques, estes tomam a redacção do Iskra desrespeitando as decisões do congresso, o que motiva a saída de Lénine e a denúncia pública do comportamento dos fraccionistas no seu livro Um Passo em Frente, Dois Passos Atrás (1904).


É nesta obra que Lénine define os princípios organizativos do partido bolchevique, mais tarde adoptados por todos os partidos comunistas da III Internacional, visando assegurar não só a unidade ideológica mas também a unidade de organização.«O proletariado na sua luta pelo poder, não tem outra arma senão a organização. Dividido pela concorrência anárquica que reina no mundo burguês, esmagado pelos trabalhos forçados ao serviço do capital, constantemente atirado para o abismo da miséria mais completa, do embrutecimento e da degenerescência, o proletariado só pode tornar-se, e tornar-se-á inevitavelmente, uma força invencível quando a sua unidade ideológica, baseada nos princípios marxistas, é cimentada pela unidade material da organização que reúne milhões de trabalhadores num exército da classe operária.»


Depois de perder o Iskra, Lénine ficou também em minoria no Comité Central devido à traição de Plekhánov e de dois outros bolcheviques. Nas vésperas da primeira revolução russa, o partido estava dividido, era urgente mobilizar as organizações de base para convocar um novo congresso.


Foi novamente em Londres, em Abril de 1905, que decorreu o III Congresso do POSDR, no qual os mencheviques se recusaram a participar, organizando em Genebra uma conferência paralela. «Dois congressos, dois partidos», disse Lénine a propósito da cisão praticamente consumada.


Com uma situação revolucionária em pleno desenvolvimento na Rússia, Lénine analisa a revolução democrático-burguesa na sua célebre brochura Duas Tácticas da Social-Democracia na Revolução Democrática, editada dois meses após o congresso, onde considera que o proletariado não pode colocar-se à margem mas, pelo contrário, deve «participar nela do modo mais enérgico, lutar do modo mais decisivo pela democracia proletária consequente, para levar até ao fim a revolução».


É também neste trabalho que Lénine desenvolve a teoria da transformação da revolução democrático-burguesa em revolução socialista, como um processo único, permanente, que só poderá realizar-se se o proletariado assumir a sua direcção, em aliança com o campesinato, e instaurar «a ditadura revolucionária democrática do proletariado e do campesinato».


A Revolução de 1917 viria a confirmar plenamente a justeza da audaciosa tese da hegemonia do proletariado, que rompeu com o dogma até então vigente de que, após a revolução burguesa, era obrigatório seguir-se um período longo de dominação capitalista.No Outono de 1905, a revolução caminhava para o seu auge. Rebentam as greves políticas, uma nova forma de luta do proletariado nunca antes vista noutros países, que visava claramente o derrubamento do tsarismo e a implantação da república democrática. Surgem os primeiros sovietes de deputados operários que tomam decisões revolucionárias.


O regime é obrigado a conceder temporariamente algumas liberdades civis reconhecidas no Manifesto do tsar de Outubro. Lénine aproveita a trégua para regressar clandestinamente à Rússia em Novembro, momento em que os bolcheviques se lançam na preparação da insurreição armada, que se inicia em Moscovo no dia 22 de Dezembro. Tal como noutras cidades, os operários revolucionários serão esmagados.


Flexibilidade táctica


Começa um período de violenta repressão, mas os operários e camponeses continuam a resistir durante 1906 e 1907, organizando greves e revoltas no campo.


A correlação de forças obriga o tsar a convocar uma Duma legislativa, que os bolcheviques boicotam, como já tinham feito com a Duma consultiva. Lénine considera o primeiro boicote justo, o segundo como um erro, dada a alteração da situação, o declínio da revolução e a necessidade de um recuo.


Por isso, quando o tsar convocou uma nova Duma no Verão de 1906, os bolcheviques decidiram participar nas eleições para utilizarem aquele órgão como tribuna da revolução. «Inteligente não é aquele que não comete erros. Não há nem pode haver tais pessoas. É inteligente quem comete erros não muito essenciais e quem sabe corrigi-los fácil e rapidamente».


Mas a II Duma foi dissolvida logo em Junho de 1907 pelo tsar, que mandou prender 65 deputados sociais-democratas e os deportou para a Sibéria. Começaram os duros anos da reacção dos governos de Stolípine. Para evitar a prisão, Lénine sai do país e exila-se na Suíça. Mais tarde escreveria: «Sem um “ensaio geral” como o de 1905, a revolução de 1917, tanto a burguesa de Fevereiro como a proletária de Outubro, teriam sido impossíveis».Durante os longos anos de exílio, Lénine continuou o seu combate ideológico contra as novas correntes revisionistas do marxismo, que o declaravam antiquado face às novas realidades. Respondendo a estes arautos do modernismo, Lénine escreve Materialismo e Empiriocriticismo (1909), em que defende a validade dos fundamentos teóricos do marxismo (o materialismo dialéctico e o materialismo histórico) e faz uma generalização materialista das principais descobertas científicas desde a morte de Engels.


Ao mesmo tempo, Lénine traça a nova táctica do partido na situação de refluxo revolucionário. «Este foi um período de viragem do nosso partido da luta revolucionária aberta contra o tsarismo para os meios indirectos de luta, para a utilização de quaisquer possibilidades legais, desde as associações de socorros mútuos até à tribuna da Duma. Foi um período de recuo depois de termos sido derrotados na revolução de 1905. Esta mudança exigia que adoptássemos novos métodos de luta para, uma vez acumuladas forças, nos lançarmos de novo na luta revolucionária aberta contra o tsarismo.»


Combatendo os que pretendiam dissolver o partido alegando falta de condições e aqueles que, pela esquerda, se opunham à participação nas organizações legais, incluindo a III Duma tsarista, Lénine defendeu a combinação do trabalho clandestino com o trabalho legal, linha que permitiu aos bolcheviques manterem a organização, a sua ligação às massas, ganhando influência e acumulando forças durante o período de refluxo.


Refundação do partido


Em Janeiro de 1912, na Conferência de Praga, os bolcheviques rompem definitivamente com os mencheviques, decidindo expulsá-los das suas fileiras e refundar o partido, que mantém a denominação de Partido Operário Social-Democrata da Rússia acrescentada da palavra «bolchevique» entre parênteses. Nessa altura, Lénine escreve a Górki: «Finalmente conseguimos – apesar da canalha liquidacionista – fazer renascer o partido e seu Comité Central. Espero que com isto se alegre connosco.»


Ao contrário dos partidos sociais-democratas da II Internacional, os bolcheviques combateram resolutamente e romperam com o oportunismo, criando o partido leninista, o partido de novo tipo.No Verão de 1912, para acompanhar mais de perto o novo surto revolucionário que despontara na Rússia, Lénine muda-se de Paris para a Galícia, a Oeste da Ucrânia, que pertencia então ao império austro-húngaro. Na nova situação, os bolcheviques criam um diário legal de massas, o Pravda, que, a par do grupo na IV Duma, se torna a segunda organização legal do partido.


O Pravda dá uma notável contribuição para a denúncia do tsarismo e nas suas páginas educa-se uma nova geração de operários revolucionários, a geração dos «pravdistas». Oito vezes encerrado, o jornal reapareceu sempre com o nome alterado, mantendo uma tiragem média de 40 mil exemplares, até ser encerrado pelas medidas de excepção tomadas pelo tsar em 1914, no eclodir da I Guerra Mundial.


Guerra à guerra


A guerra arrastou todos os partidos da II Internacional para posições chauvinistas ou ditas defensistas, que na prática significavam um apoio aos respectivos governos imperialistas. Só o partido de Lénine se manteve fiel à bandeira do internacionalismo, denunciando o carácter anexacionista da guerra e apelando aos operários para declararem guerra à guerra e apontarem as armas contra a sua própria burguesia, pois só assim poderiam alcançar uma paz justa.


Em Setembro de 1916, no «Programa Militar da Revolução», Lénine escreve: «Diante dos olhos de todos se prepara, com as forças da própria burguesia, a única guerra legítima e revolucionária, a saber: a guerra civil contra a burguesia imperialista».


Apenas seis meses depois, numa Rússia esgotada pela guerra e revoltada pela fome e a opressão, o tsarismo é derrubado pelos operários armados que logo nos primeiros dias criam os sovietes de operários e soldados.


Lénine regressa a Petrogrado em 3 (16) de Abril, após um exílio de quase dez anos. Consigo traz as «Teses de Abril», que apresenta no dia seguinte, onde estabelece o plano para a transformação da revolução burguesa em revolução socialista, pela instauração não de uma república parlamentar mas de uma «república dos sovietes de deputados, operários, assalariados agrícolas e camponeses em todo o país, desde baixo até acima». Quanto ao governo burguês, Lénine foi lapidar: «Nenhum apoio ao Governo Provisório».


Nesta fase, a tarefa central dos bolcheviques era a conquista da maioria nos sovietes e, através deles, mudar a composição e a política do governo. Tratava-se portanto de uma via pacífica de desenvolvimento da revolução que não previa a tomada do poder pelas armas, mas sim a sua passagem pacífica para os sovietes.Os acontecimentos precipitam-se com a crise do governo provisório, aberta com publicação da «Nota de Miliukov», na qual o então ministro dos Negócios Estrangeiros se comprometia a continuar a guerra à até à vitória e a respeitar todas as obrigações assumidas pelo tsar com os aliados.


A pressão das massas, que exigiam não só o fim da guerra mas também já a demissão do Governo Provisório, conduz no início de Maio à formação de um gabinete de coligação, que incluiu ministros mencheviques e socialistas-revolucionários, como Kérenski, que se torna depois primeiro-ministro.


A desastrosa insistência na guerra por parte da burguesia, que via nela uma forma de conter o ímpeto da revolução, e a persistente acção esclarecedora e organizadora dos bolcheviques, cuja influência crescia de dia para dia, socavou a base social de apoio do governo provisório.


No dia 3 (16) de Julho, centenas de milhares de manifestantes exigem o fim da guerra e a passagem de todo o poder aos sovietes. O governo responde com repressão e afoga em sangue a manifestação pacífica. Nestes «acontecimentos de Julho», a burguesia amparada pelos mencheviques e socialistas-revolucionários tenta decapitar a revolução atacando o partido bolchevique.


Com base numa acusação fabricada, é emitido um mandado de captura contra Lénine. Vários dirigentes bolcheviques são presos, os seus jornais são encerrados. A dualidade de poderes termina com a passagem de poder dos sovietes para o Governo Provisório.


«Assalto aos céus»


Os bolcheviques entram na clandestinidade. Lénine refugia-se na Finlândia, onde escreve, entre Agosto e Setembro, a brochura O Estado e a Revolução, na qual explica a necessidade de destruir o aparelho de Estado burguês.


A nova situação exigia uma acção resoluta. O perigo real de um golpe militar reaccionário ficara demonstrado com a intentona de Kornílov, derrotada em 25 de Agosto. Ao mesmo tempo, as condições para o «assalto aos céus» amadureciam.


Entre 12 e 14 de Setembro, Lénine escreve duas cartas ao CC, em que considera que «os bolcheviques devem tomar o poder», notando que «a maioria da população é a nosso favor».No dia 7 de Outubro, regressa clandestinamente a Petrogrado. Três dias depois o Comité Central toma a histórica decisão de tomar o poder. Nada será capaz de impedir a vitória da insurreição de 25 de Outubro (7 de Novembro). Lénine comanda as operações a partir do Smólni e torna-se o chefe do governo do primeiro Estado socialista do mundo.


Consciente das duras e longas batalhas que tinha pela frente com os inimigos da nova sociedade, escreve, em 1919, na «Saudação aos Operários Húngaros»: «A supressão das classes é o resultado de uma luta de classes longa, difícil e obstinada, que não desaparece (…) depois do derrubamento do poder do capital, depois da destruição do Estado burguês, depois da implantação da ditadura do proletariado, mas apenas muda de forma, tornando-se em muitos aspectos ainda mais encarniçada.» A subestimação e negação desta tese leninista fundamental viria a ter consequências trágicas para a gloriosa caminhada socialista da humanidade.


A época do capital financeiro


No seu ensaio O Imperialismo, Fase Superior do Capitalismo, escrito na Primavera de 1916, Lénine conclui que a desigualdade do desenvolvimento e as contradições do capitalismo se agudizam, intensifica-se a luta por mercados e por fontes de matérias-primas, o que torna inevitáveis as guerras imperialistas periódicas.


Mais tarde, em 1919, no «Projecto de programa do PCR(b)», formula a seguinte definição que poderia ter sido escrita hoje: «O imperialismo, ou a época do capital financeiro, é a economia capitalista altamente desenvolvida, em que as associações monopolistas capitalistas – sindicatos, cartéis, trusts – adquiriram uma importância decisiva, o capital bancário imensamente concentrado fundiu-se com a indústria, a exportação de capitais para terceiros países atingiu proporções enormes, o mundo inteiro está já territorialmente dividido entre os países mais ricos e começou a partilha económica do mundo entre os trusts transnacionais».


Em A Catástrofe Que Nos Ameaça e Como Combatê-la (1917), sublinhando que o imperialismo é o capitalismo amadurecido, onde os monopólios se fundem com o aparelho de Estado, Lénine conclui que «o capitalismo monopolista de Estado é a mais completa preparação material do socialismo, é a sua antecâmara, é o degrau da escada da história entre o qual e o degrau chamado socialismo não há nenhum degrau intermédio».Porém, daqui não decorre que o capitalismo se extinguirá por si mesmo, mas tão só que «o imperialismo é a véspera da revolução social do proletariado», e esta a única forma de o derrubar.


Já em 1915, no artigo «Sobre a palavra de ordem dos Estados Unidos da Europa» – onde salienta que «os Estados Unidos da Europa, sob o capitalismo, ou são impossíveis ou são reaccionários» – Lénine tinha observado que a extrema desigualdade do desenvolvimento do capitalismo tornava «possível a vitória do socialismo primeiramente em poucos países ou mesmo num só país capitalista tomado em separado». Em contrapartida, ela seria impossível de ocorrer simultaneamente em todos os países, como era voz corrente entre os marxistas da época.


Esta nova teoria abriu uma perspectiva revolucionária aos proletários de todo o mundo e foi decisiva para a concretização da primeira revolução socialista da história.


O construtor da Internacional Comunista


Logo à sua chegada à Rússia, em 1917, Lénine colocou nas «Teses de Abril» como tarefa do partido, a constituição de uma «Internacional revolucionária» liberta do oportunismo.


A II Internacional fora fundada em 1889, ainda em vida de Engels, que proferiu o discurso de encerramento do seu II Congresso, em 1893. Até à sua falência ignominiosa, em 1914, conviviam no seu seio tendências tão distintas como fabianos e bolcheviques.Porém, se a eclosão da guerra levou à desagregação da II Internacional – já que os partidos que a constituíam, à excepção dos bolcheviques, votaram os créditos de guerra e apoiaram os respectivos governos, tornando-se assim inimigos de facto no conflito imperialista – a vitória da Revolução de Outubro colocou claramente em lados opostos as tendências oportunistas e o proletariado revolucionário.


Já em 1914, Lénine escrevera: «A II Internacional morreu, vencida pelo oportunismo. Abaixo o oportunismo e viva a III Internacional limpa (…) do oportunismo!»


Em 1917, insistiu na necessidade de fundar, «sem perda de tempo, uma nova Internacional revolucionária, proletária», composta por «verdadeiros internacionalistas». E pouco importava que fossem poucos: «A questão não está no número, mas na exposição correcta das ideias e da política do proletariado verdadeiramente revolucionário».


Para Lénine essa ruptura com o oportunismo implicava a rejeição da própria denominação do partido: «Em lugar de “social-democrata”, cujos chefes oficias traíram o socialismo no mundo inteiro, passando para o lado da burguesia (…) devemos denominar-nos Partido Comunista.» Esta viria a ser uma das 21 condições de admissão na III Internacional.


No rescaldo da guerra desvastadora e na senda da estupenda vitória dos operários russos, a Europa é abalada por uma vaga revolucionária sem precedentes. No final de 1918, o kaiser é derrubado, a revolução propaga-se à Áustria, à Hungria, que é proclamada república dos sovietes, por toda a Europa a burguesia treme ante o movimento operário e o surgimento dos partidos comunistas, na maioria dos casos na sequência de cisões nos antigos partidos sociais-democratas e socialistas.


O proletariado de vários continentes unia-se crescentemente sob a bandeira do leninismo, o que tornou a Internacional Comunista uma realidade ainda antes do seu congresso fundador, que decorreu em Moscovo, entre 2 e 6 de Março de 1919, e aprovou um manifesto apelando à luta pela ditadura do proletariado e pela vitória dos sovietes em todos os países.


No seu relatório, invectivando aqueles que atacavam a Rússia dos Sovietes dizendo-se adeptos da democracia, Lénine sublinhou que «em nenhum país capitalista existe “a democracia em geral”, existe apenas a democracia burguesa», onde as massas, «mesmo nas repúblicas mais democráticas, sendo iguais em direitos perante a lei», são «de facto afastadas, por mil processos e subterfúgios, da participação na vida política e gozo dos direitos e liberdades democráticas».


O II Congresso do Komintern, realizado em 1920, aprovou as «21 condições de admissão na Internacional Comunista», que estipulavam, entre outros, a ruptura com o reformismo, a adopção do centralismo democrático, a revisão da composição dos grupos parlamentares, a subordinação da imprensa partidária aos órgãos dirigentes, a depuração periódica dos elementos pequeno-burgueses, uma actividade consistente nas organizações de massas, o apoio aos movimentos de libertação nacional.


O III Congresso do Komintern, realizado em 1921, foi o último em que Lénine participou. No ano seguinte, a doença atinge irremediavelmente a saúde do líder do proletariado mundial.


O último ano


Gravemente debilitado pela doença que o atingiu em 1922 – quando ainda sofria as sequelas do atentado de que fora vítima em 1918, organizado pelos socialistas-revolucionários – Lénine continua a trabalhar, contribuindo com uma série de importantes artigos sobre a organização do aparelho do Estado e do partido, a questão das nacionalidades e construção da sociedade e da economia socialista, apontando a cooperação como «o caminho mais simples, fácil e acessível para o camponês».


Padecendo de aterosclerose cerebral, Lénine sofreu o primeiro enfarte em 5 de Maio de 1922, do qual recupera retomando a actividade. Em Novembro desse ano, fazendo o balanço dos cinco anos do poder soviético, assinalou os esforços para que «a Rússia da NEP se torne a Rússia Socialista». Esta seria a sua última intervenção em público.


Em Dezembro, a doença faz nova arremetida, seguindo-se uma terceira, em 9 de Março de 1923, da qual o líder já não se recompõe.


No dia 21 de Janeiro de 1924, na aldeia de Górki, nos arredores de Moscovo, falece Vladímir Ilitch Lénine, quando não tinha ainda completado 54 anos. A sua morte é recebida com profunda dor pelos trabalhadores do mundo inteiro. No dia do funeral, o proletariado internacional declarou uma paragem de cinco minutos no trabalho.


Na URSS, a circulação ferroviária é interrompida, fábricas e empresas suspendem a laboração, milhões choram o desaparecimento do líder, prestando homenagem ao fundador do partido bolchevique e principal obreiro da revolução socialista que abriu portas à construção da sociedade nova sem exploradores nem explorados.


Uliánovsk: um nome caro à população


A quando da destruição da URSS, as forças da burguesia instaladas no poder tentaram por várias vezes apagar o apelido de Lénine da sua cidade natal, à semelhança do que tinham já feito noutros locais, designadamente em Leningrado, o berço da Revolução de Outubro, que, logo em Setembro de 1991, voltou a ser como antigamente São Petersburgo.


Em Março de 2008, o edil de Uliánovsk, Serguei Ermakov, a pretexto do 360.º aniversário da fundação da cidade, apresentou a proposta de restaurar a denominação de Simbirsk, cuja origem ninguém conhece ao certo, embora alguns a identifiquem com Sinbirsk, nome ainda mais antigo da cidade que coincide com o do príncipe dos Búlgaros do Volga, tribo que habitou aquelas regiões até meados do século X.


Fingindo-se grande defensor dos valores culturais históricos, Ermakov afirmou que «nos anos 90, a vontade política, a coragem e iniciativa dos cidadãos do nosso país permitiram devolver à cultura nacional os nomes históricos das cidades». E lamentando que a população de Uliánovsk se tivesse mantido, na altura, «à margem do processo», insistiu que era tempo de «devolver à cidade o seu nome tradicional».


Consciente, por inquéritos anteriormente realizados, de que a população estaria maioritariamente contra a iniciativa, o edil declarou num primeiro momento que a alteração podia efectuar-se sem necessidade de referendo, caso fosse essa a «vontade» dos órgãos locais.


Só que a imprensa começou a falar do assunto, os ânimos exaltaram-se e uma sondagem realizada em Abril apresentou resultados arrasadores para os planos restauracionistas. À pergunta «como votaria se o referendo se realizasse no próximo domingo?», 62 por cento dos inquiridos responderam «Não», 27 por cento, «Sim», cinco por cento, «Não sei» e outros cinco por cento, «Não irei votar».


Note-se que neste estudo a percentagem de defensores do nome de Uliánovsk aumentou sensivelmente em relação a outra sondagem realizada em 2005, quando 54 por cento se manifestaram contra a sua alteração e 22 por cento a favor.


Como fonte principal deste trabalho foi utilizada a História do Partido Comunista da URSS (1938), disponível em www.hist-socialismo.net, onde se encontram referenciadas grande parte das citações de V.I. Lénine.



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