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segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Reflexão sôbre o oportunismo do Partido Comunista Francês- PCF


Refletir sobre a crise que abalou profundamente os Partidos Comunistas

Francis Arzalier*
Fonte: pelosocialismo.net





Enquanto comunistas franceses, não somos os mais qualificados para dar lições. Os mesmos desvios produziram por toda a Europa o mesmo declínio: também o PCF pagou muito caro as suas tendências para o oportunismo e o carreirismo ministerial. Por isso devemos, em conjunto, refletir sobre a crise que abalou profundamente os partidos comunistas: o futuro dos povos do continente depende da sua capacidade de combater o capitalismo e o imperialismo e de acabar com a contrarrevolução que assola a Europa há mais de 20 anos.






A França não é certamente um caso único, em matéria de decomposição da força comunista organizada. Entre os PC que conseguiam ser grandes partidos num país capitalista, o colapso italiano é ainda mais espetacular: uma influência enorme em 1960, a mudança para uma coisa (“a cosa”) quando muito reformista, em fim de século, e o desabamento dos comunistas da “Rifondazione”, punidos por terem cedido ao cretinismo ministerial, na companhia de uma esquerda convertida ao “mercado”, à Europa do capital, mesmo ao clericalismo. Pela primeira vez depois da execução de Mussolini não há qualquer comunista no Parlamento, em Roma, e o legado da resistência antifascista é desmantelado todos os dias.





Certos PC europeus tentam renascer diluindo-se numa miscelânea política onde os comunistas se juntam com ecologistas antinucleares, sociais-democratas de esquerda e pregadores pacifistas. Isso pode funcionar eleitoralmente durante algum tempo, como na Alemanha – o Die Linke alimentou-se de recordações nostálgicas da extinta RDA.



Mas tal não dura muito: já o alinhamento oportunista de Die Linke com os sociaisdemocratas em Berlim se traduziu numa diminuição da sua influência, particularmente nos meios operários do Leste da capital.







Com efeito, constata-se o mesmo declínio em toda a parte onde a tática dita “de união de esquerda” desaguou numa fidelidade ao reformismo: em Espanha, a “Esquerda Unida”, avatar oportunista do PC espanhol de outros tempos, teve resultados eleitorais ínfimos.





As manifestações ditas “de indignados” em Espanha são a vários títulos reveladoras: certamente, exprimem uma tomada de consciência dos males do capitalismo, mas foram sobremediatizadas pelas televisões devotas do capital, porque se diziam refratárias a todos os Sindicatos e a toda a organização política. Em todo o caso, elas revelam a incapacidade dos comunistas espanhóis de mobilizar as vontades anticapitalistas1.



Os únicos PC europeus que conservam uma influência forte são os enraizados na sua identidade comunista e que também sabem dinamizar as lutas sociais e políticas para além das competições eleitorais: é hoje o caso, em primeiro lugar, do PC grego (KKE), ator essencial em Atenas contra um governo de austeridade imposto pela Europa supranacional. É também o caso do PC português, ativo nas lutas, apesar de algumas dificuldades eleitorais; é o caso, também, do Partido do Trabalho belga, maoísta no passado, mas que se tornou um partido marxista muito presente nas lutas sociais e contra o separatismo da extrema-direita na Flandres, mesmo se o sistema eleitoral em vigor lhe dá poucos eleitos.





Nos países que restauraram o capitalismo depois de 1989, os ex-PC no poder da  Europa de Leste converteram-se, na sua maior parte, ao reformismo europeu mais rasteiro, às virtudes conjugadas do mercado e da NATO, e alguns dos seus quadros assumiram sem escrúpulos o papel de gestores do capital. De Sófia a Varsóvia, passando por Budapeste ou Tallin, estes “ex”, ávidos de poder e dispostos a renegar tudo, deram argumentos à extrema-direita e desqualificaram o ideal comunista por decénios.



Na Polónia, na Bulgária, na Ucrânia, na Jugoslávia, Albânia, Croácia e Eslovénia, as organizações realmente comunistas são pequenos grupos corajosos, sem grande influência. Na Hungria, O PCH renascido é ainda muito fraco face aos “ex-comunistas”, que, com o seu apoio à Europa supranacional e à regressão social, prepararam o terreno à direita xenófoba, hoje no poder.





Assim, deste naufrágio subsistem os PC checo e da Rússia, que por vezes alcançam 20% de eleitores. Mas estão muitas vezes divididos entre um papel eficaz de dinamizadores das lutas populares e pela paz e as nostalgias ineficazes de um “socialismo real” que tinha certamente boas qualidades, prejudicadas depois (o pleno emprego, por exemplo), mas já não faz sonhar as jovens gerações: os seus erros burocráticos desacreditaram mesmo, de forma duradoura, a ideia do comunismo numa parte dos povos da Europa; além disso, os comunistas são criminalizados pelos governos da Europa Central e de Leste e pelos média ao seu serviço.



Nesta parte da Europa citamos o caso particular do PC da Moldávia, que conserva uma forte influência e está perto da maioria eleitoral, porque encarna a defesa da independência moldava ameaçada pelo nacionalismo romeno.





Neste contexto, não se pode prever em que prazo ocorrerá um necessário renascimento dos PC da Europa; pode simplesmente dizer-se que isso é possível se todos nos esforçarmos. Alguns tímidos sinais positivos estão a aparecer: bons resultados eleitorais na Letónia, recentemente; as tentativas que se desenham na Itália de reconstrução de um partido comunista.





O caminho da renovação é ainda muito longo e árduo: razão de sobra para não desdenhar dos esforços corajosos de todos aqueles que, por toda a Europa, se batem pela reconstrução de uma força comunista. Neste sentido, temos de lamentar a escolha política da direção do PCF de recusar sistematicamente participar nos encontros internacionais das organizações comunistas. Assim, em 11 e 12 de Abril de 2011, 37 organizações comunistas da Europa encontraram-se em Bruxelas para condenar a agressão imperialista contra a Líbia, sem o PCF. Os argumentos avançados pelos responsáveis do PCF para recusar são inaceitáveis: “não mistura a sua opção com a de grupúsculos não representativos”. Absurdo: como falar de grupúsculos quando se trata do PC da Bielorrússia, do PT da Bélgica, do AKEL de Chipre, do qual é membro o Presidente da República cipriota, do PC checo, do KKE grego, do PC da Rússia, do Partido do Trabalho da Suíça, do PC ucraniano… “Temos desacordos” disseram-me. E então, desde quando as divergências entre comunistas impedem a discussão e ação comuns para a paz?





Com efeito, esta recusa do PCF advém de uma escolha política dramaticamente errada, confirmada com a sua participação no “Partido da Esquerda Europeia”, que aprova nos seus estatutos “a Europa supranacional”, apesar desta, desde a sua nascença, não ser mais do que um instrumento do capitalismo contra os povos. Além disso, este PEE tem como objetivo reunir com partidos comunistas, outros que dependam da social-democracia ou dos verdes, sobre objetivos políticos comuns, que só podem ser reformistas.





Uma escolha política que os comunistas preocupados em promover o seu ideal não podem aceitar. A solidariedade militante entre os comunistas da Europa e do mundo, para combater e vencer o capitalismo e o imperialismo, é um imperativo absoluto.





* Intervenção de Francis Arzalier2 , do Coletivo Comunista francês POLEX, no 4.º Encontro Internacionalista-2011.



1 As eleições legislativas espanholas de 20 de novembro de 2011 confirmaram-no, infelizmente, pese embora tudo o que se disse. O Partido Socialista, culpado de ter patrocinado o desemprego e a regressão social, perdeu 4 milhões e meio de eleitores. A Esquerda Unida, “Frente de Esquerda” reunindo ecologistas e comunistas, não recuperou senão uma pequena parte (cerca de 500.000 votos), apesar disso quase ter duplicado a sua percentagem (de 3,6% para mais de 6%).



2  Francis Arzalier é historiador e responsável da revista “Aujourd’hui l’Afrique”. Os Encontros Internacionalistas são realizados pela Secção de Vénissieux do Partido Comunista Francês (PCF).

[NT]


O mafarrico Vermelho

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